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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Necessidade da observância regular para quem abraça a vida religiosa

QUARTA-FEIRA, 7 DE JUNHO · TÊMPORAS DE PENTECOSTES — QUARTA-FEIRA

Necessidade da observância regular para quem abraça a vida religiosa

PR 3,21-22

«Meu filho, não te escapem estas coisas de diante dos teus olhos: Guarda a lei, e o conselho: E terá vida a tua alma, e engraçado adorno a tua garganta:»

SUMÁRIO

A observância das regras religiosas deve nascer do amor a Deus. Santo Afonso trata da fidelidade nas coisas pequenas, do exemplo na comunidade e do cuidado em fazer bem os deveres de cada dia.

Ponto I

São Francisco de Sales fazia esta grande afirmação: A predestinação das monjas está ligada à observância de suas regras. Santa Maria Madalena de Pazzi dizia que observar a regra é o caminho mais direto para a salvação eterna e para a santidade. Em suma, o único caminho das religiosas para se santificar e salvar é observar as regras; qualquer outro caminho não as leva ao fim. A religiosa que habitualmente transgride alguma regra, por mínima que seja, nunca dará um passo adiante na perfeição, ainda que faça muitas penitências, orações e outras obras espirituais. Trabalhará sem fruto, verificando-se nela o que diz o Espírito Santo: «Porque desgraçado é o que rejeita a sabedoria e a instrução: E a esperança dêles é vã, e os trabalhos sem fruto, e inúteis as suas obras.» (Sb 3,11) Quem não faz caso da disciplina, isto é, das regras, é infeliz e espera em vão de seus trabalhos, que ficarão sem fruto.

Que loucura é essa, diz Santa Teresa! Não observamos certas coisas fáceis da regra, como o silêncio, que não nos faz mal; depois queremos inventar penitências por nossa conta, para acabar não fazendo nem uma coisa nem outra. O mal menor dessa religiosa será não avançar na perfeição; o pior, diz São Bernardo, será formar para si, ao descuidar as regras leves, um grande impedimento à observância das graves, que dizem respeito aos votos.

Que miséria ver certas religiosas, tão bem educadas e instruídas no noviciado sobre a observância das regras, deixar depois de fazer caso delas após a profissão, como se, consagradas a Jesus Cristo, não tivessem mais obrigação de observá-las! Um douto autor diz: É melhor ser um dedo e estar no corpo do que ser olho e arrancado do corpo. Melhor um simples dedo unido ao corpo da comunidade que um olho separado dela: o olho separado do corpo é apenas um pouco de matéria apodrecida. Assim, uma obra que parece virtuosa, mas não se conforma à regra, não agradará a Deus e será para a religiosa impedimento, e não meio de perfeição. Como diz Santo Agostinho, devoções e ações contrárias à regra são passos fora do caminho e tropeços para o espírito.

Ponto II

Mas vós, alma religiosa, deixastes o mundo para alcançar a santidade: não percebeis que, por não saber vencer-vos nas pequenas coisas, não somente deixais de vos santificar, mas correis o perigo de vos perder? São Cesário escreve: Fomos fortíssimos ao abandonar os doces afetos; somos agora fracos para evitar as negligências? Tivemos coragem de renunciar aos afetos familiares, aos bens e aos divertimentos do mundo; seremos agora tão fracos para superar as negligências em relação à regra?

Cassiano relata que São Basílio, vendo um monge que deixara a dignidade de senador para entrar na vida religiosa e depois não observava as regras, lhe disse com compaixão: Perdeste o senador e não fizeste o monge. Infeliz, que fizeste? Perdeste a condição de senador para ser monge e nem sequer adquiriste a de monge. Tertuliano faz a mesma censura: Se julgas verdadeira a liberdade do século, voltaste à servidão e perdeste a liberdade de Cristo. Como se dissesse: Alma religiosa, saístes da servidão do mundo e adquiristes a liberdade de Jesus Cristo, libertando-vos dos afetos terrenos, cadeias infelizes que mantêm tantas pobres almas vivendo como escravas no mundo. Que fazeis agora? Se julgais verdadeira a liberdade do século, já voltastes miseravelmente à escravidão e perdestes a liberdade dos filhos de Deus que Jesus Cristo vos alcançou.

Algumas religiosas se desculpam dizendo que as regras transgredidas tratam de coisas mínimas. Respondo primeiramente: nenhuma regra religiosa deve ser julgada tão pequena que não mereça grande consideração. Todas devem ser tidas por grandes, pois são ordenadas por Deus e aprovadas pela Igreja como meios da perfeição religiosa, à qual todas as pessoas consagradas a Deus devem aspirar continuamente. Além disso, a inobservância, mesmo das regras pequenas, desordena toda a disciplina e toda a comunidade.

É certo que, num mosteiro onde se cuidam das pequenas coisas, reina o fervor; onde não se faz caso delas, o espírito já se perdeu ou começará a perder-se gradualmente, até desaparecer inteiramente. O padre Saint-Jure narra que o padre Oviedo, governando o colégio da Companhia de Jesus em Nápoles, procurava a observância pontual das regras, ainda que mínimas. O padre Bobadilla opôs-se, dizendo não convir prender os membros a tantas minúcias; assim fez cessar o rigor antes observado. O resultado mostrou o erro: com tal liberdade, o espírito relaxou tanto que alguns, não fazendo mais caso das regras pequenas nem grandes, chegaram a abandonar a vida religiosa. São Inácio, informado disso, mandou observar rigorosamente todas as regras, restabelecendo a disciplina.

Ponto III

As religiosas tíbias e descuidadas não fazem caso das coisas leves; o demônio, porém, faz. O inimigo registra cuidadosamente todas as inobservâncias das regras para as acusar um dia no tribunal de Jesus Cristo. São Ricardo, religioso, mandou cortar o cabelo fora do tempo determinado e viu o demônio recolher e contar, um por um, os cabelos caídos. Santa Gertrudes viu igualmente o demônio recolher os pequenos flocos de lã deixados cair contra a pobreza e as sílabas truncadas na recitação demasiado rápida do Ofício divino. O beato Dionísio Cartuxo narra que o demônio apareceu a uma religiosa com uma agulha e um fio de seda nas mãos, tomados por ela sem licença.

O demônio registra, assim, as palavras ditas nos lugares e tempos de silêncio, os olhares curiosos e todas as demais inobservâncias em que caem as religiosas negligentes. Daí nasce permanecerem sempre áridas e entediadas na oração, nas comunhões e nos outros exercícios devotos. Por um único olhar curioso para uma irmã, contra a inspiração de não olhar, Santa Gertrudes recebeu como castigo onze dias de aridez. É justo que quem pouco semeia pouco colha: «E digo isto: Que aquêle que semeia pouco também segará pouco: E que aquêle que semeia em abundância, também segará em abundância.» (2 Cor 9,6) Como quererá o Senhor abundar em graças e consolações celestes para uma monja tão escassa e negligente em seu serviço? Talvez Deus lhe tivesse preparado uma grande graça se fosse fiel àquela regra; por sua negligência, porém, justamente a privou dela. O beato Egídio dizia: Uma pequena negligência pode fazer perder uma grande graça.

Grande coisa, diz São Boaventura: Muitos desejam morrer por Cristo, mas não querem sofrer coisas leves por Cristo! Desejam dar-lhe a vida e recusam um pequeno incômodo para observar uma regra de pouco peso. Se te fosse imposta uma coisa difícil e muito incômoda, diz o santo, pareceria haver maior desculpa; mas que desculpa podes alegar ao transgredir uma coisa fácil? Quanto mais leve e fácil a observância, mais defeituosa se mostra quem lhe falta, revelando maior apego à própria vontade.

Deus permita que, fazendo tão pouco caso das pequenas regras, essa alma não chegue um dia a fazer pouco caso dos votos e a perder-se miseravelmente. «Aquele que abriu uma cova, cairá nela: E o que desfaz a sebe, mordê-lo-á a cobra.» (Ecl 10,8) Quem rompe a cerca das regras corre grande perigo de receber a mordida venenosa da serpente. Quando vedes uma religiosa antes exemplar e depois caída em precipícios, pensais que o demônio a fez cair logo aos primeiros ataques? Não: primeiro a induziu a descuidar as regras e a desprezar as coisas leves; depois a fez cair nas graves.

Ponto IV

Outras se desculpam dizendo que a regra não obriga sob pecado. É um engano de que já falamos no capítulo IV, número 5. Embora a regra não obrigue sob culpa, é sentença comum dos doutores que a transgressão de qualquer regra mínima, quando não existe causa suficiente que a desculpe, é ao menos pecado venial. São Tomás já ensinou isso, tratando da regra de sua Ordem, que igualmente não obriga sob pecado: A transgressão das outras coisas — fora dos votos — obriga somente a pecado venial.

Disse ao menos venial porque, se a transgressão trouxesse grave dano ou escândalo à comunidade, como perturbar habitualmente o silêncio comum, entrar nas celas das companheiras ou quebrar diante delas os jejuns da regra, poderia chegar a culpa grave. Mas não se pode duvidar de que seja ao menos venial, por várias razões. Primeira: a religiosa deixa os meios de sua santificação, à qual é obrigada a tender. Segunda: é infiel à promessa feita a Deus na profissão de observar as regras. Terceira: desordena pelo mau exemplo a boa ordem da comunidade. Quarta e última, a razão mais certa: ao transgredir qualquer regra, age por amor próprio e sai da vontade de Deus.

Essa transgressão certamente não é ação virtuosa. Nem se pode dizer indiferente: como seria indiferente uma obra feita por inclinação própria, que dá mau exemplo e estraga a ordem da disciplina religiosa? Se não é boa nem indiferente, é certamente má. Se alguém dissesse: Basta que não seja pecado mortal, eu lhe diria que se encontra em estado muito perigoso. Se não morreu, está agonizando; sofre uma febre lenta que, com o tempo, a levará à morte. Releia-se o que foi dito no capítulo VI, desde o número 3.

Outras se desculpam por serem antigas e não poderem viver com o rigor exigido das jovens. Respondo que toda religiosa, jovem ou antiga, ao transgredir as regras, prejudica a si e às outras. São Pedro Crisólogo diz que uma árvore sem fruto, pela sombra que espalha, não prejudica somente a si, mas também as árvores fecundas ao redor. Isso vale para qualquer religiosa que dê mau exemplo na observância.

Além disso, as monjas antigas estão mais obrigadas que as novas à perfeita observância. Primeiro, por terem vivido mais anos na vida religiosa: como quem estudou mais deve ser mais douto, também quem passou mais tempo no mosteiro estudando o Crucificado deve estar mais adiante na ciência dos santos, a perfeição do espírito. Segundo, porque o exemplo das antigas tem maior força para inspirar às jovens a observância ou a inobservância. Elas são as tochas que iluminam a comunidade, as colunas que sustentam a observância e atraem as jovens a mantê-la. Se estas veem as antigas fazer pouco caso, menos caso farão. Geralmente, o relaxamento dos mosteiros nasceu da negligência não tanto das jovens como das antigas, que, por mau exemplo, deram ocasião a abrandar o rigor. De que servirá depois clamar e exortar por palavras, se os atos ensinam o contrário? São Ambrósio diz: Os olhos persuadem mais depressa que os ouvidos. Os exemplos vistos persuadem muito mais que as advertências ouvidas.

Ponto V

Como podem as jovens ser bem instruídas a manter a observância se quem as instrui a destrói com mau exemplo? Tertuliano diz: Ninguém pode ser edificado por aquilo que o destrói. Eleazar foi tentado pelo tirano a transgredir o preceito dos judeus de não comer carne de porco. Seus amigos, compadecidos de seus noventa anos, pediram que, para escapar à morte, ao menos fingisse comê-la. O santo ancião respondeu sabiamente que preferia ser mandado ao lugar dos mortos: não era digno de sua idade fingir (2 Mc 6,23-24). Preferia descer à região dos mortos a dar aos jovens, naquela idade, o mau exemplo de quebrar a lei, fingindo transgredi-la.

A presença do justo é uma advertência, escreve São Ambrósio. Que grande advertência para as jovens, maior que todas as palavras, ver uma religiosa antiga observar pontualmente todas as regras, grandes e pequenas! Essa é a obrigação e o zelo das boas religiosas que amam a perfeição: manter a observância com todo rigor possível. Quando Jesus Cristo mostrou a Santa Teresa que se desposava com ela, oferecendo-lhe a mão direita, disse: De agora em diante, como verdadeira esposa, zelarás minha honra. Toda esposa de Jesus Cristo deve, portanto, zelar a honra do Esposo. Em nada as religiosas devem demonstrar mais seu zelo do que na observância das regras, sustento da perfeição da comunidade, tanto sendo superioras como simples monjas, sobretudo quando possuem alguma autoridade, ao menos por serem mais antigas.

Santo André Avelino advertia com firmeza, ao ver descuidada a observância, não somente seus companheiros religiosos, mas também os superiores. A irmã Maria Teresa Spinelli, monja de grande espírito no mosteiro da Santíssima Trindade de Nápoles e penitente do padre Torres, fez o mesmo com grande zelo. Vendo abusos começarem a entrar na comunidade, opôs-se várias vezes com fortaleza, sem considerar a grandeza de qualquer pessoa, tendo diante dos olhos somente a honra de Deus. Por isso sofreu muitas amarguras e desgostos. Quando se trata de abusos evidentes e relaxamento da observância, clamar e impedir as desordens, mesmo precisando contender com os superiores, não é soberba nem temeridade, mas virtude e zelo de Deus.

Outras dizem não pedir as licenças devidas segundo a regra para não incomodar demais as superioras. Essa desculpa não tem fundamento: as superioras não se incomodam, mas se edificam com quem pede pontualmente licença sempre que necessário. Como poderiam incomodar-se, sabendo ser proibido fazer tais coisas sem licença? Pedi-a, pois, sempre em tudo quanto a regra exige. Se a superiora nega uma dispensa para conservar a observância, não vos perturbeis: agradecei-lhe e consolai-vos.

Todos num navio se alegram e agradecem ao piloto quando veem que cuida de fazer todos os marinheiros, sem exceção, cumprir seu ofício; caso se descuidasse essa ordem, o navio poderia correr risco de perder-se. As regras são pesos, mas, como já dissemos, pesos de asas que nos fazem voar para Deus. São Agostinho escreve: O fardo de Cristo tem asas; ajuda-nos a elevar-nos. São laços, mas laços de amor que nos unem ao sumo Bem. Ao vermos esses laços, devemos dizer com Davi que «O meu quinhão me caiu em lugares deliciosos: Porque a minha herança é excelente para mim.» (Sl 15,6): são nobres e amáveis, não vergonhosas, pois nos libertam das cadeias do inferno. Quando sentimos pena ou contrariedade por nos ser proibido o que deseja o amor próprio, digamos alegremente com o Apóstolo: «E assim vos rogo eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis como convém à vocação, com que haveis sido chamados.» (Ef 4,1). Estou preso, mas contente com os laços que me unem a Deus e me alcançam a coroa eterna. São Agostinho diz: O Senhor não te imporia o colar de ouro sem antes te prender com cadeias de ferro. Não daria o colar de ouro da glória eterna sem primeiro prender com as cadeias das regras.

Ponto VI

Se alguma irmã vos pede o que não podeis fazer sem licença, não tenhais repugnância em dizer que não podeis fazê-lo. Não vos envergonheis de mostrar cuidado delicado quando se trata de evitar defeitos, especialmente contra as regras; nisso é necessário distinguir-vos, se as demais são negligentes. Não temais vanglória: agrada certamente a Deus que, sendo necessário, vos destaqueis na observância das regras, mesmo pequenas, para que vosso exemplo brilhe e anime as outras à observância devida, dando glória a Deus: «Assim luza a vossa luz diante dos homens: Que êles vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos Céus.» (Mt 5,16)

Não podeis fazer grandes coisas por Deus, grandes penitências ou grande oração? Ao menos observai exatamente todas as regras e sabei que isso basta para avançar muito na perfeição em pouco tempo. Uma grande serva de Deus dizia que a observância minuciosa é caminho breve para a perfeição. São Boaventura já dissera: A melhor perfeição é observar tudo. Quanto a alma for fiel nisso, tanto Deus será liberal para com ela. Santa Teresa dizia: Uma religiosa fiel nas minúcias da regra não caminha: voa à perfeição sem asas nem penas.

Santo Agostinho chama sabiamente a regra espelho da vida religiosa. Na observância, os religiosos podem conhecer quem são, justos ou injustos, se cada um progride e se agrada ou desagrada a Deus, conforme Hugo de São Vítor explica Santo Agostinho. Vendo como observa ou descuida as regras, a religiosa percebe se ama a perfeição, se avança ou recua e se agrada a Deus. Persuadi-vos: para uma alma religiosa, santificar-se não consiste em fazer muitas coisas, mas em observar exatamente as regras. Quando a regra manda trabalhar ou participar da recreação, não é bom ir ao coro fazer oração ou tomar disciplina. O padre Álvarez chamava tais devoções inoportunas sacrifícios de rapina que Deus não aceita.

Um capuchinho, para atender às devoções particulares, deixava de participar dos trabalhos comuns. Na morte, Jesus Cristo apareceu-lhe como Juiz e mandou distribuir suas orações vocais e outras devoções feitas no tempo dos exercícios comuns a quem trabalhara pela comunidade, sem lhe deixar nada. Soube depois que a misericórdia divina lhe prolongava a vida; recuperada a saúde, passou a participar pontualmente de todos os exercícios comunitários. Santa Maria Madalena de Pazzi dizia: O melhor modo de adquirir grandes merecimentos é estar, tanto quanto possível, em todas as reuniões da comunidade.

É verdade que, em certas circunstâncias, como enfermidade ou ocupações muito importantes do ofício, não haverá defeito em faltar a alguma regra pequena. É também verdade que muitas vezes a causa não é o trabalho, mas a preguiça ou o pouco amor às regras: outras religiosas igualmente enfermas, talvez mais, e não menos ocupadas nos ofícios, mas mais observantes, não faltam às regras tão frequentemente descuidadas. Quem ama a observância encontra o modo de fazer ambas as coisas. Santa Teresa dizia: Às vezes o mal é pequeno, e então nos parece não ter obrigação de nada.

Ponto VII

Para ganhar amor à observância exata, ajuda ler e reler frequentemente as regras, ou ao menos várias vezes por ano, para ver onde houve faltas e onde é necessário corrigir-se. Essa é uma das melhores leituras espirituais que podeis fazer. Ajuda também fazer diariamente exame particular sobre as regras às quais mais frequentemente faltastes. Quando houver falta, não tenhais vergonha de acusá-la à superiora e pedir penitência.

O demônio disse a São Domingos que, no capítulo onde os religiosos confessam suas faltas e recebem repreensões e penitências, perdia tudo quanto ganhava no refeitório, no locutório e nos outros lugares do mosteiro. Antes de acusar-vos, porém, procurai dispor-vos a aceitar qualquer repreensão ou penitência. Digo isso para que não façais como certas pessoas, que querem acusar algum defeito para parecer humildes e delicadas na observância, mas depois não querem correção.

Acima de tudo, para observar bem as regras, é preciso, como São Inácio de Loyola notou, observá-las em espírito de amor, e não sob perturbação do temor. Não somente por medo da repreensão da superiora ou do espanto das irmãs, mas por amor, apenas para agradar a Jesus Cristo. Por isso o santo declarou ter disposto que suas regras não obrigassem sob pecado: para que ao temor da ofensa suceda o amor. Em lugar do temor de ofender a Deus, venha o amor e o desejo de lhe dar alegria.

São Euquério diz: Conta como vivido somente o dia em que negaste tuas próprias vontades e passaste sem transgredir regra alguma. Considera vivido somente esse dia: só ele foi de proveito. Santa Maria Madalena de Pazzi dava três belos conselhos: primeiro, estima tuas regras como estimas o próprio Deus; segundo, considera que somente tu foste posta para observar tua regra; terceiro, se as outras faltam, procura suprir seus defeitos.

Em suma, repito: é preciso compreender que a perfeição de uma religiosa não consiste em fazer coisas grandes ou numerosas, mas em fazê-las bem. Grande louvor foi o que as multidões deram justamente a Jesus Cristo: «E tanto mais se admiravam, dizendo: Êle tudo tem feito bem: Fez não só que ouvissem os surdos, mas que falassem os mudos.» (Mc 7,37) Fazer coisas árduas e extraordinárias não é para todos nem para todo tempo. As ações ordinárias, porém — oração comum, exame de consciência, comunhão, ouvir Missa, recitar o Ofício divino, cumprir os ofícios do mosteiro e as demais incumbências da obediência — são feitas por todas as monjas diariamente. Basta fazê-las bem, mesmo que sejam os empregos mais humildes do mundo, e assim certamente chegareis à santidade. Não basta fazer o que Deus quer: deve-se fazê-lo como Deus quer.

As crônicas cistercienses narram que, durante as matinas de certa noite, São Bernardo viu muitos anjos anotando o que os monges faziam no coro. Escreviam as ações de alguns com ouro, de outros com prata, de outros com tinta e de outros com água, significando a perfeição ou imperfeição com que cada um rezava. Considerai, portanto, como pode custar pouco alcançar a perfeição, se o quiserdes: com as mesmas coisas ordinárias, sem fazer mais nada, podeis santificar-vos. O Senhor não exige que vos eleveis a altas contemplações ou façais penitências espantosas; pede somente que façais bem o que fazeis.

Ponto VIII

Nos dias devotos, como nas novenas de Natal, do Espírito Santo ou de Maria Santíssima, muitas religiosas fazem numerosas devoções, jejuns, disciplinas e orações vocais. Tudo isso é bom; para algumas, porém, a melhor devoção seria fazer nesse tempo todas as obras ordinárias com maior perfeição.

Essa perfeição consiste em duas coisas. Primeira, fazer tudo somente para agradar a Deus: a perfeição não está no que se faz exteriormente, mas no interior da intenção. «Tôda a glória da que é filha do rei é de dentro, em franjas de ouro.» (Sl 44,14) Segunda, fazer bem a obra, com prontidão, atenção e exatidão. O primeiro meio é agir com fé viva na presença de Deus, de modo que a ação seja digna de seus olhos divinos. O segundo é fazer a obra como se nada mais houvesse a fazer: na oração, pensar somente em rezar bem; no Ofício, em recitá-lo bem; no emprego imposto pela obediência, em executá-lo bem. Não pensar então em outra coisa, passada ou futura. Na oração, por exemplo, pensar em como executar outra obediência ou dirigir outra obra é tentação do demônio.

O padre mestre Ávila escreveu a uma pessoa: Quando vier à mente algum pensamento fora de tempo, dize: Deus não me manda agora nada disso; portanto não é necessário pensar nisso agora. Quando o mandar, tratarei disso.

O terceiro meio é fazer cada ação como se fosse a última de nossa vida. Santo Antão abade inculcava isso frequentemente a seus discípulos, para que fizessem bem todas as suas ações. São Bernardo escreve: Em cada obra, diga alguém a si: Se fosses morrer, farias isso? Se tivesses de morrer agora, farias essa coisa ou a farias dessa maneira? Considerai assim: se fosse a última Missa, com quanta devoção a ouviria? Se fosse o último Ofício, com quanta atenção o recitaria? Se fosse a última comunhão ou oração, com quanto fervor a faria?

São Basílio escreveu igualmente: Quando fazes as ações da manhã, pensa que não viverás até a noite; quando estás na noite, pensa que não verás a manhã. Conta-se de um dominicano que costumava confessar-se todas as manhãs antes da Missa que, estando depois gravemente enfermo, recebeu ordem do superior de confessar-se como para morrer. Levantou então as mãos ao céu e disse: Bendito seja Deus, pois já há trinta anos me confesso diariamente como se fosse morrer logo. Nosso Salvador disse: «Bem-aventurado aquele servo, a quem seu Senhor achar nisso ocupado quando vier.» (Mt 24,46) Feliz o servo que o Senhor, vindo julgá-lo, encontrar agindo assim. Feliz a alma religiosa, digo eu, que, surpreendida pela morte, for encontrada fazendo aquela ação como se estivesse para morrer.

Outro meio ajuda muito as almas fracas a fazer bem o que estão fazendo: considerar somente o dia de hoje. Uma das coisas que desanimam muitos no caminho de Deus é apreender a pena de caminhar até a morte com tanta exatidão, resistindo sempre ao amor próprio. O melhor meio de vencer essa tentação é imaginar que se viverá somente aquele dia. Quem, sabendo que viveria apenas esse dia, não procuraria fazer bem e perfeitamente tudo quanto faz? Esse meio ajuda as almas fracas; as fortes e fervorosas no amor divino não precisam esconder de si o trabalho: alegram-se e desejam sofrer para dar alegria a Deus.

A quem começa no caminho da perfeição ajuda também pensar, como é certo, que o bom hábito tornará em breve fácil e agradável aquilo que de início parece difícil e penoso. O Espírito Santo o garante: «Eu te mostrarei o caminho da sabedoria, guiar-te-ei pelas veredas da equidade:» (Pr 4,11) E: «Nas quais, depois que tiveres entrado, não se estreitarão os teus passos, e correndo não terás tropeço.» (Pr 4,12) Deus diz que primeiro conduzirá pelos caminhos estreitos da virtude; depois se caminhará por estrada larga e agradável, correndo sem impedimento. São Bernardo escreveu ao papa Eugênio: No princípio uma coisa te parecerá insuportável; com o tempo e o costume, não a julgarás tão pesada; pouco depois nem a sentirás; depois ainda te dará prazer. Conforme o Eclesiástico: «Vêde com vossos olhos, que eu trabalhei pouco, -e: achei para mim muito descanso.» (Eclo 51,35) Esforcei-me um pouco e depois encontrei grande repouso e paz.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Deus, sou aquela árvore que há muito merecia ouvir as palavras do Evangelho: «Pelo que disse ao que cultivava a vinha: Olha, três anos há que venho buscar fruto a esta figueira, e não o acho: Corta-a pois pelo pé: Para que está ela ainda ocupando a terra?» (Lc 13,7) Cortai essa planta que não dá fruto e mandai-a ao fogo: de que serve continuar ocupando a terra? Pobre de minha alma! Há tantos anos vivo no mosteiro, favorecida por vós com tantos auxílios para alcançar a santidade; e que frutos recebestes de mim até agora, meu Senhor?

Mas não quereis que eu desespere nem desconfie de vossa misericórdia. Dissestes: «Vós até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi, e recebereis, para que o vosso gôzo seja completo.» (Jo 16,24). Já que vos agrada que vos peça graças, peço primeiro que perdoeis cada desgosto causado a vós. Deles me arrependo de coração, vendo que paguei vosso amor e vossos benefícios com tantas ofensas e amarguras.

A segunda graça é o dom de vosso amor, para que vos ame de hoje em diante com todo o coração, evitando o menor desgosto vosso e fazendo tudo quanto compreendo agradar-vos, em lugar da frieza passada. A terceira graça é a santa perseverança em vos amar. Agora estimo vosso amor mais que todos os reinos do mundo. Quereis minha alma inteiramente para vós, e inteiramente vossa quero que seja. Na cruz e no Sacramento do altar, destes-vos todo a mim; eu me entrego sem reserva a vós.

Agradeço-vos por me inspirardes essa oferta: quando a inspirais, é sinal de que já a aceitais. Meu Jesus, pertenço a vós e espero que sempre sereis meu por toda a eternidade. Não quero que viva em mim minha própria vontade, mas somente a vossa santa vontade. Por isso prometo, de hoje em diante, cuidar da observância de todas as regras, mesmo as menores, do mosteiro, sabendo que todas vos agradam.

Ó amor, ó amor, vos direi com Santa Catarina de Gênova: basta de pecados! Peço-vos: fazei que vos ame ou que morra. Amar ou morrer. Maria, minha Mãe, falai vós a vosso Filho e alcançai-me essa graça: amá-lo ou morrer.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: La vera sposa di Gesù Cristo (1760), Capítulo VII, § 4, «Dell’ubbidienza dovuta alle regole», nn. 1–16 e Preghiera, pp. 195–217 do corpus; início na p. 84 de Marietti IV. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.