A pena dos sentidos no inferno
AP 18,7
«Quanto ela se tem glorificado e tem vivido em deleites, tanto lhe dai de tormento e pranto: Porque diz no seu coração: Eu estou assentada como Rainha: E não sou viúva: E não verei o pranto.»
SUMÁRIO
As penas dos sentidos manifestam a gravidade de trocar Deus pelos bens criados; o tempo da conversão ainda nos é concedido.
Ponto I
Ao pecar, o pecador pratica dois males: abandona Deus, sumo bem, e volta-se para as criaturas. «Porque dois males fez o meu povo: Deixaramme a mim, fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, cisternas rôtas, que não podem reter as águas.» (Jr 2,13). Porque se volta às criaturas ofendendo Deus, será justamente atormentado no inferno por essas mesmas criaturas, pelo fogo e pelos demônios: é a pena dos sentidos. Mas, como a culpa maior, na qual consiste o pecado, é dar as costas a Deus, a principal pena do inferno será a pena de dano: ter perdido Deus. Consideremos primeiro a pena dos sentidos.
É de fé que existe o inferno. No interior da terra está essa prisão reservada ao castigo de quem se rebela contra Deus. Que é o inferno? É o lugar dos tormentos. Assim o chamou o rico condenado: «Pois que tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, que não suceda virem também êles parar a êste lugar de tormentos.» (Lc 16,28). Lugar de tormentos, onde cada sentido e cada faculdade terá seu sofrimento próprio. Quanto mais alguém houver ofendido Deus por determinado sentido, tanto mais sofrerá nele: «Para que soubessem, que pelas coisas cm que alguém peca, por essas é também atormentado.» (Sb 11,17). «Quanto ela se tem glorificado e tem vivido em deleites, tanto lhe dai de tormento e pranto: Porque diz no seu coração: Eu estou assentada como Rainha: E não sou viúva: E não verei o pranto.» (Ap 18,7).
A vista sofrerá com as trevas: «Antes que vá para não tornar para aquela terra tenebrosa, e coberta da escuridade da morte:» (Jó 10,21). Que compaixão desperta saber que uma pessoa passará quarenta ou cinquenta anos encerrada numa cova escura! O inferno é uma cova inteiramente fechada, na qual jamais entrará raio de sol ou de outra luz: «Entrará no lugar da morada de seus pais e não verá jamais a luz.» (Sl 48,20). O fogo que ilumina na terra será ali escuro: «Voz do Senhor que divide a chama do fogo:» (Sl 28,7). São Basílio explica que o Senhor separará a luz do fogo, para que este queime sem iluminar. Alberto Magno o resume: «Separará do calor o esplendor.» O próprio fumo formará a tempestade de trevas que cegará os olhos dos condenados, segundo a passagem citada pelo santo: «Estes são umas fontes sem água, e umas névoas agitadas de turbilhões, para os quais estã reservada a obscuridade das trevas.» (2 Pd 2,17). São Tomás ensina que lhes ficará apenas a luz suficiente para enxergar aquilo que aumenta seu tormento. Nessa claridade indistinta verão a fealdade dos demais réprobos e dos demônios, que tomarão formas horrendas para lhes aumentar o terror.
O olfato também sofrerá. Que pena seria ficar num quarto fechado com um cadáver em decomposição! «Os seus desta maneira mortos serão ai-rajados: E levantar-se-á dos seus cadáveres um grande fétido: Os montes serão inficionados no sangue dêlcs.» (Is 34,3). O condenado permanecerá entre milhões de outros condenados, vivos para o sofrimento, mas semelhantes a cadáveres pelo mau cheiro. São Boaventura diz que um só corpo de condenado, retirado do inferno, bastaria para matar de mau cheiro todas as pessoas. E há insensatos que dizem: Se eu for ao inferno, terei companhia. Que miséria! Quanto mais numerosos, maior o sofrimento. São Tomás afirma: «Ali, a companhia dos infelizes não diminui a desgraça; aumenta-a.» Aumenta-a pelo mau cheiro, pelos gritos e pelo aperto, pois estarão uns sobre os outros, como ovelhas amontoadas no inverno: «Como ovelhas são postos no inferno: E êles serão pasto da morte. E os justos terão domínio sôbre êles na manhã: E passada a sua glória tudo o que tiveram se envelhecerá no inferno.» (Sl 48,15). Mais ainda: como uvas esmagadas sob o lagar da ira divina. «E da sua boca saía uma espada de dois gumes: Para ferir com ela as nações. Porque ele as governará com uma vara de ferro: E ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira de Deus Todo-Poderoso.» (Ap 19,15). Daí virá também a pena da imobilidade: «Caia sôbre êles o mêdo e o pavor, a efeito do poder do teu braço: êles se tornem imóveis como uma pedra, até que passe o teu povo, Senhor; até que passe êste teu povo, que tu adquiriste para ti.» (Ex 15,16). Da maneira como cair no inferno no último dia, assim permanecerá cada condenado, sem mudar de lugar nem mover mão ou pé, enquanto Deus for Deus.
Os ouvidos sofrerão com os uivos e prantos incessantes dessas almas desesperadas. Os demônios produzirão estrondos contínuos: «A zoada do terror está sempre em seus ouvidos: E ainda quando há paz, ele sempre receia traições.» (Jó 15,21). Como custa querer dormir e ouvir os gemidos persistentes de uma pessoa doente, um cão latindo ou uma criança chorando! Os condenados ouvirão para sempre esses ruídos e os gritos dos atormentados. O gosto sofrerá a fome, uma fome de cão: «Voltarão à tarde e padecerão fome como cães: E rodearão a cidade.» (Sl 58,15). Nunca, porém, haverá uma migalha de pão. Haverá uma sede que toda a água do mar não bastaria para matar, mas nem uma gota será concedida. Uma gota pediu o rico; ainda não a recebeu, nem jamais a receberá.
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, meu Senhor, eis aos vossos pés quem tão pouco estimou vossa graça e vossos castigos. Que seria de mim, meu Jesus, se não tivésseis usado de compaixão! Há quantos anos estaria naquela fornalha infecta, onde já ardem tantas almas semelhantes à minha! Meu Redentor, como não me abraso em vos amar ao pensar nisso? Como poderia voltar a cogitar de vos ofender? Nunca, meu Jesus! Antes me deixai morrer mil vezes. Concluí a obra que começastes. Tirastes-me da imundície de tantos pecados e com tanto amor me chamastes a amar-vos: fazei que empregue inteiramente para vós o tempo que me concedeis. Quanto desejariam as almas condenadas um dia, uma hora desse tempo! E eu continuarei a gastá-lo em vos desagradar? Não o permitais, Jesus meu, pelos méritos do sangue que até agora me livrou do inferno. Amo-vos, ó sumo bem; porque vos amo, sinto pesar por ter-vos ofendido. Desejo cessar de vos ofender e amar-vos para sempre. Maria, minha Rainha e minha Mãe, rogai a Jesus por mim e alcançai-me a perseverança e seu santo amor.

