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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

A salvação é o negócio mais importante e o mais descuidado

SEGUNDA-FEIRA, 5 DE JUNHO · SEGUNDA-FEIRA NA OITAVA DE PENTECOSTES

A salvação é o negócio mais importante e o mais descuidado

MT 16,26

«Porque, de que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que comutação fará o homem para recobrar a sua alma?»

SUMÁRIO

A alma vale mais que todos os bens terrenos; sua salvação exige o cuidado que tantas vezes se reserva aos negócios passageiros.

Ponto I

O negócio da salvação eterna é certamente o assunto que mais nos importa; entretanto, é o que os cristãos mais descuidam. Para conseguir um cargo, vencer uma demanda ou realizar um casamento, nenhuma diligência se poupa e nenhum tempo se perde. Quantos conselhos, quantas providências! Até se deixa de comer e dormir. Mas, para assegurar a salvação eterna, que se faz? Como se vive? Nada se faz; antes, faz-se tudo para perdê-la. A maioria dos cristãos leva a vida como se fossem invenções dos poetas a morte, o juízo, o inferno, o paraíso e a eternidade, em vez de verdades da fé. Quando se perde uma demanda ou uma colheita, que sofrimento! Quanto esforço para reparar o prejuízo! Se desaparece um cavalo ou um cão, quanta procura! Perde-se, porém, a graça divina, e continua-se a dormir, brincar e rir. Coisa espantosa! Todos sentem vergonha de receber o nome de negligentes nos negócios do mundo; tantas pessoas, contudo, não se envergonham de desprezar o negócio da eternidade, do qual tudo depende. Chamam sábios os santos, que se ocuparam de sua salvação; elas, porém, cuidam de todas as demais coisas e nada fazem pela alma. São Paulo nos exorta a cuidar desse grande negócio da salvação eterna, que mais nos interessa: «E que procureis viverdes quietos e que trateis do vosso negócio, e que trabalheis com as vossas mãos, como vo-lo temos ordenado.» (1 Ts 4,11).

Convençamo-nos, portanto, de que a salvação eterna é nosso negócio mais importante, nosso único negócio e um negócio irreparável, caso se malogre. É o mais importante, porque envolve a alma: perdida ela, tudo se perde. Devemos considerar a alma mais preciosa que todas as riquezas do mundo. «A alma é mais preciosa que o mundo inteiro», diz São João Crisóstomo. Para compreender isto, basta saber que o próprio Deus entregou seu Filho à morte para salvar nossas almas: «Porque assim amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito: Para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna.» (Jo 3,16). E o Verbo eterno não recusou comprá-las com seu sangue: «Porque vós fostes comprados por um grande preço: Glorificai pois, e trazei a Deus no vosso corpo.» (1 Cor 6,20). De tal modo, diz um santo Padre, que parece valer o homem quanto vale Deus: «Por tão precioso dom se realiza a redenção humana, que o homem parece valer Deus.» Por isso Jesus Cristo perguntou: «Porque, de que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que comutação fará o homem para recobrar a sua alma?» (Mt 16,26). Se tamanho é o valor da alma, por qual bem terreno se poderá trocá-la e perdê-la? São Filipe Néri tinha razão em chamar insensato a quem não cuida de salvar a própria alma.

Se houvesse na terra pessoas mortais e outras imortais, e as mortais vissem as imortais inteiramente ocupadas em adquirir honras, riquezas e diversões, certamente lhes diriam: Que loucura! Podeis alcançar bens eternos e pensais nessas coisas miseráveis e passageiras? Por elas vos condenais às penas eternas da outra vida? Deixai que cuidemos dos bens terrenos nós, para quem tudo acabará com a morte. Mas todos somos imortais. Como pode, então, tanta gente perder a alma pelos pobres prazeres desta terra? Como pode, pergunta Salviano, o cristão acreditar no juízo, no inferno e na eternidade, e viver sem receio deles? «Por que motivo quem crê nos acontecimentos futuros não os teme?»

AFETOS E ORAÇÕES

Ah, meu Deus, em que empreguei tantos anos que me concedestes para procurar minha eterna salvação? Meu Redentor, comprastes minha alma com vosso sangue e depois a entregastes aos meus cuidados, para que tratasse de salvá-la; eu, porém, só cuidei de perdê-la, ofendendo-vos, a vós que tanto me amastes. Agradeço-vos porque ainda me concedeis tempo para reparar minha grande perda. Perdi a alma e a beleza de vossa graça. Senhor, disso me arrependo e sinto pesar com toda a força do coração. Perdoai-me: de hoje em diante quero perder qualquer coisa, até a própria vida, antes que vossa amizade. Acima de qualquer bem vos amo e quero amar-vos sempre, ó sumo bem, digno de amor sem medida. Ajudai-me, meu Jesus, para que esta resolução não se torne semelhante aos propósitos anteriores, que terminaram em traições. Deixai-me morrer antes que volte a ofender-vos e cesse de vos amar. Ó Maria, minha esperança, salvai-me, obtendo para mim a santa perseverança.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione XII, «Importanza della salute», Punto I e «Affetti e preghiere», pp. 111–113 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.