Jesus no deserto e as tentações das almas escolhidas
MT 4,1
«Então foi levado Jesus pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.»
SUMÁRIO
Se Deus permite que sejamos provados por tentações, não percamos o ânimo: é penhor de que nos ama e quer assemelhar-nos a Jesus Cristo, que no deserto também quis suportar as investidas do demônio. Conheçamos a nossa fraqueza e empreguemos as armas da penitência e da oração contínua para alcançar a vitória.
Ponto I
Para as almas que consagram o seu afeto a Jesus Cristo, nenhuma aflição é mais penosa do que o assalto das tentações. Enquanto as demais tribulações as convidam a unir-se mais estreitamente com Deus, acolhendo-as com submissão, as sugestões ao pecado as impelem a separar-se do Redentor, tornando-se por isso amargosíssimas, mais do que qualquer tormento corporal. Cumpre advertir, todavia, que se bem as sugestões perversas nunca provenham do Criador, procedendo antes do adversário infernal ou da fraqueza de nossos apetites desordenados — visto que «Deus não é tentador dos males, nem tenta a ninguém» (Tg 1, 13) —, permite o Senhor que os seus servos mais diletos sejam duramente provados. Em primeiro lugar, para que experimentem na própria fraqueza a absoluta necessidade do auxílio celestial a fim de não cair. Quando a alma se encontra consolada pelas doçuras divinas, parece-lhe fácil superar qualquer combate e cumprir generosas obras pela glória de Deus; mas logo que se vê violentamente assaltada e à borda do abismo, reconhece a sua extrema miséria e que nada pode sem o socorro divino. Foi o que sucedeu a São Paulo, a quem foi dado o espinho da carne, para que a magnitude das revelações não o desvanecesse (2 Cor 12, 7). Além disso, Deus permite os combates para que vivamos desapegados das vaidades da terra e suspiremos pela pátria celeste, exclamando com o salmista: «Ai de mim, porque o meu desterro se prolongou!» (Sl 119, 5); e ansiando pelo momento em que possamos dizer: «O laço quebrou-se, e nós ficamos livres» (Sl 123, 7). Por fim, o Senhor permite a luta para aumentar os nossos merecimentos, como disse o anjo a Tobias: «Porque eras aceito a Deus, foi mister que a tentação te provasse» (Tb 12, 13). Não deve, pois, a pessoa aflita julgar-se desamparada; antes deve confiar em que é amada pelo Senhor. Não são os maus pensamentos que mancham a alma, mas o consentimento voluntário: por mais horríveis que sejam as sugestões ou as imagens involuntárias que se apresentem à imaginação, se a vontade não as acolhe, a alma permanece pura, fortalecida e ainda mais agradável a Deus. Como ensina São Bernardo, «tantas vezes somos coroados quantas vencemos».
Ponto II
Deus é fiel e não permitirá sejamos tentados além das nossas forças, mas providenciará com a provação o proveito (1 Cor 10, 13). Quem resiste ao inimigo alcança grande lucro para a vida eterna. Daí provém que o Senhor permita assaltos aos seus escolhidos: a água estagnada logo se corrompe; assim, a alma sem luta corre perigo de comprazer-se na vaidade e descuidar da oração. Mas quando se vê agitada pelo tentador, acode a Deus e à Mãe celestial, renova os propósitos de antes morrer do que pecar e refugia-se na misericórdia infinita. Dentre todos os remédios indicados pelos mestres espirituais para superar as tentações, o mais urgente, necessário e infalível é recorrer prontamente a Deus com humildade e inteira confiança, bradando: «Ó Deus, vinde em meu auxílio; Senhor, apressai-Vos em me socorrer» (Sl 69, 2). Esta súplica basta para repelir as investidas do inferno, pois o Altíssimo é sumamente mais poderoso do que os demônios. As Escrituras abundam em promessas de socorro àqueles que invocam o Senhor: «Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei» (Mt 11, 28); e o salmista atesta: «Invocarei o Senhor com louvores, e ficarei livre dos meus inimigos» (Sl 17, 4). Particularmente nas sugestões contra a pureza ou contra a fé, cumpre não dialogar nem combater frente a frente com o pensamento: deve-se logo no início afastá-lo de modo indireto, produzindo um ato fervoroso de amor a Deus, renovando a dor das culpas passadas ou ocupando-se com diligência em outra tarefa. É preciso bater com a porta no rosto do tentador e rechaçar as faíscas malignas. Se a tentação perturba os sentidos, brademos com São Jerônimo: «Senhor, sede o meu protetor», invocando com ternura os santíssimos nomes de Jesus e Maria. Assim como a criança, ao avistar o lobo, acolhe-se imediatamente nos braços dos pais para estar segura, refugiemo-nos sem demora nos Sagrados Corações. E se a provação insistir, não nos perturbemos com indignação, mas renovemos com calma o protesto de fidelidade e persistamos na oração, pois a vitória está vinculada à súplica perseverante.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó meu Redentor Jesus, confio em vosso Sangue preciosíssimo que me perdoastes as ofensas cometidas, e espero cantar eternamente as vossas misericórdias na glória celeste. Reconheço que no passado caí tantas vezes miseravelmente por haver descurado de Vos pedir a santa perseverança; peço-Vos agora com toda a minha alma: não permitais que eu jamais me separe de Vós! Proponho suplicar-Vos sempre este socorro, e mormente nas ocasiões em que for tentado a desagradar-Vos. Mas de que me servirão propósitos e resoluções, se não me concederdes a graça eficaz de recorrer sem cessar aos vossos pés? Pelos méritos infinitos da vossa Paixão, concedei-me a graça de clamar a Vós em todas as minhas necessidades. Ó Rainha e Mãe minha Maria, pelo amor ardente que tendes a Jesus Cristo, alcançai-me a fortaleza de recorrer continuamente ao vosso Filho e a vós em todos os dias de minha vida. — Ó Deus, que purificais a vossa Igreja com a anual observância quaresmal, concedei à vossa família que aquilo que procura obter de Vós pela abstinência, o realize por meio de boas obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

