Bem-aventurança de quem deseja somente a Deus
MT 5,3
«Bem-aventurados os pobres de espírito: Porque dêles é o reino dos Céus.»
SUMÁRIO
O desapego deixa o coração livre para Deus. A oração alcança o amor que vence os afetos terrenos e faz da vontade divina o nosso único desejo.
Ponto I
«Bem-aventurados os pobres de espírito: Porque dêles é o reino dos Céus.» (Mt 5,3). São pobres de espírito aqueles cujos desejos são pobres de bens terrenos: nada desejam fora de Deus. São pobres de afeições, mas não de bens efetivos, pois vivem contentes já nesta vida. Por isso o Senhor não disse que deles será o reino dos céus, mas que deles é: ainda nesta terra são ricos dos bens espirituais que recebem de Deus; assim, embora pobres de bens temporais, vivem contentes com a sua condição. Diferentemente, quem é rico de desejos terrenos, por maiores riquezas que possua nesta vida, continua sempre pobre e descontente; os bens desta terra não saciam a nossa sede, antes a aumentam. Por isso nunca encontra satisfação, pois nunca chega a adquirir tudo quanto deseja.
Jesus Cristo, para nos enriquecer com as verdadeiras riquezas, quis ser pobre, como escreveu o Apóstolo: «Porque sabeis que a graça não foi a de nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, se fêz pobre por vosso amor, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza.» (Segunda Epístola aos Coríntios 8,9). Quis a pobreza para ensinar-nos, pelo exemplo, a desprezar os bens terrenos e, assim, tornar-nos ricos dos bens celestes, que são incomparavelmente mais preciosos e são eternos. Declarou, por isso, que quem não renuncia a tudo aquilo a que se apega nesta terra não pode ser seu verdadeiro discípulo. Feliz quem deseja somente a Deus e pode repetir as palavras de São Paulino: «Guardem os ricos suas riquezas, e os reis, seus reinos; minha riqueza e meu reino são Cristo.» Gozem os ricos do mundo, diz ele, dos seus dinheiros, das suas propriedades e dos seus reinos: Jesus é toda a minha riqueza e o meu reino.
Convençamo-nos de que só Deus satisfaz; mas ele só satisfaz plenamente as almas que de todo o coração lhe têm amor. Que lugar pode encontrar o amor divino num coração cheio de terra? Alguém frequentará as comunhões, as orações e as visitas ao Sacramento; mas, porque ali há terra, Deus não pode possuir esse coração inteiramente e enriquecê-lo como desejaria. Muitas almas se queixam de não encontrar Deus na meditação, na Comunhão e nos outros exercícios mais devotos. A elas diz Santa Teresa: «Desprende o coração das criaturas e encontrarás Deus.» Despojemo-nos de todo afeto que tenha sabor de terra, especialmente da vontade própria. Sem reservas, entreguemos a nossa vontade toda a Deus, dizendo-lhe: Senhor, disponde de mim e de todas as minhas coisas como vos aprouver; quero somente aquilo que desejais, e sei que aquilo que quereis é o melhor para mim. Concedei-me, pois, que sempre vos ame; nada mais desejo.
Ponto II
O único meio de nos desprendermos das criaturas é adquirir um grande amor a Deus. Se o amor divino não chega a possuir inteiramente a nossa vontade, não chegaremos à santidade. O meio de adquirir esse amor divino que domina é a santa oração. Peçamos sempre a Deus que nos conceda o seu amor: assim nos encontraremos desprendidos de tudo o que foi criado. O amor divino é um ladrão que santamente nos despoja de todos os afetos terrenos e nos faz dizer: Que outra coisa quero eu, senão somente a vós, ó Deus do meu coração?
«o amor é valente como a morte» (Ct 8,6). Isto quer dizer que, assim como não há força que resista à morte, não há coisa tão difícil de vencer que seja capaz de resistir ao divino amor. Tudo é vencido pelo amor. Os santos mártires, pelo amor a Deus, venceram os mais cruéis tormentos e as mortes mais dolorosas. Feliz, enfim, quem pode dizer com Davi: «Pois que tenho eu no céu? E fora de ti, que desejei eu sôbre a terra?» (Sl 72,25). «Desfaleceu a minha carne, e o meu coração: Deus do meu coração, e minha porção, Deus para sempre.» (Sl 72,26). Que outra coisa desejo nesta vida e na eternidade, senão somente a vós, meu Deus? Procurem os outros os bens que quiserem; vós, Deus do meu coração, sois o meu único bem, sois toda a minha paz.
Se uma alma não chega a entregar-se inteiramente a Deus, permanece sempre em perigo de abandoná-lo e perder-se. Mas quem de verdade se deu todo a Deus pode estar seguro de não mais o abandonar, pois o Senhor é muito agradecido e fiel com quem se lhe entregou sem reservas. Por que alguns que antes levaram uma vida santa sofreram depois uma queda tão grave que deixaram ao mundo pouca esperança da sua salvação? Por quê? Porque, respondo, não se tinham dado inteiramente a Deus; e disso é sinal a própria queda.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Deus e meu verdadeiro amante, não permitais que a minha alma, criada para vos amar, ame outro objeto fora de vós e não pertença inteiramente a vós, que a comprastes com o vosso sangue. Ah, meu Jesus, como é possível que, depois de conhecer o amor que me tivestes, eu possa amar outro objeto fora de vós? Atraí-me sempre mais para dentro do vosso coração; fazei-me esquecer tudo, para que eu não procure nem suspire senão pelo vosso amor. Jesus meu, em vós deposito a minha confiança. Ó Maria, Mãe de Deus, em vós estão as minhas esperanças: desligai-me do afeto a tudo quanto não é Deus, para que ele seja o objeto de todos os meus amores e da minha felicidade eterna.

