Rezar

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Os bens do mundo não podem fazer-nos felizes

SEGUNDA-FEIRA, 24 DE JANEIRO · SÃO TIMÓTEO

Os bens do mundo não podem fazer-nos felizes

ECL 2, 11

«Vi em tudo vaidade e aflição do ânimo, e que nada havia permanente debaixo do sol.»

SUMÁRIO

Os seres irracionais, ordenados tão só aos sentidos, acham repouso nos bens terrenos e nada mais anseiam ao obtê-los. A alma humana, porém, criada à imagem de Deus para a Ele unir-se pelo amor, jamais encontrará sossego nos deleites sensíveis, como o comprova a experiência de todos os séculos: só Deus é capaz de plenificar o coração humano. Que insensatez seria, pois, trocar o Criador infinito pelas ilusões perecíveis do mundo!

Ponto I

Todos os homens labutam nesta vida à procura da paz. Fadiga-se o negociante no comércio, o soldado nos combates e o litigante nos tribunais, julgando que mediante lucros, postos honrosos e vitórias temporais assegurarão repouso estável ao espírito. Pobres mundanos, que buscam a concórdia e a quietação no mundo, incapaz de outorgá-las! Só o Criador pode conceder a verdadeira tranquilidade: Dai aos vossos servos, Senhor, suplica a santa Igreja, aquela paz que o mundo não pode dar. Todas as riquezas criadas reunidas não satisfazem as aspirações do homem, porque não fomos formados para tais sombras, senão para Deus. Os animais satisfazem-se com os pastos terrestres: dai feno ao cavalo ou carne ao cão, e nada mais reclamam; a alma racional, contudo, destinada a possuir o Sumo Bem, sente-se vazia sob o império dos sentidos.

Refere São Lucas a história daquele opulento fazendeiro que, após recolher safra abundante, dizia consigo: «Alma minha, tens muitos bens guardados para largos anos: descansa, come, bebe e regala-te». Deus, todavia, o chamou de insensato. E com razão, observa São Basílio: Acaso possuías alma de animal imundo para pretender saciá-la com manjares, bebidas e deleites corporais? O homem pode inchar-se com os bens terrenos, mas nunca saciar-se, assevera São Bernardo. Meditando sobre o desapego dos discípulos, descreve aquele Santo Doutor várias espécies de loucos torturados por ardente fome: uns engoliam terra, imagem dos avarentos; outros tragavam o vento, figura dos soberbos; alguns recolhiam à boca as fagulhas de uma fornalha ardente, símbolo dos iracundos; outros sorviam a água lodosa de um charco impuro, imagem dos sensuais. E a todos repreendia o santo: «Ó néscios, não compreendeis que tais coisas, em vez de mitigar a vossa sede, apenas a acendem com maior violência?»

Ponto II

Os bens perecíveis trazem apenas aparência exterior de bondade, sendo incapazes de aquietar o coração: Comestes e não vos saciastes. Por essa razão o cobiçoso, à medida que acumula ouro, mais dilata a sua ambição; o escravo da carne, quanto mais mergulha nas torpezas, mais enfastiado e sequioso permanece; e o ambicioso procura alimentar-se de fumaça, olhando sempre ao que lhe falta e esquecendo o que possui. Se a fortuna exterior desse ventura aos mortais, os soberanos deste mundo seriam perfeitamente ditosos; mas o rei Salomão, que nada recusara aos apetites dos olhos, proclamou com amargura: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Que me restou, ó meu Deus, de tantas culpas passadas senão remorso, desolação e merecimento de castigo? Não me queixo da dor viva que agora me dilacera a consciência: antes a recebo como dom gratuito de vossa misericórdia, pois ela me incute a consoladora esperança de que quereis perdoar-me. O que de fato me confrange é ter magoado o meu divino Redentor, que me dedicou tanto amor! Eu merecia ter sido desamparado na minha rebeldia; não obstante, em vez de me repudiardes, ofereceis-me reconciliação e vindes em primeiro lugar propor a paz. Sim, meu amado Jesus, quero viver em perpétua concórdia convosco e estimo a vossa graça mais que a própria existência. Renuncio de coração aos agrados mentirosos do século e tomo o propósito firme de preferir mil mortes a incorrer em vosso desagrado. Nada mais quero senão a Vós, meu Deus, meu alento, meu tesouro e meu tudo! Concedei-me perseverança na vossa santa lei e disponde de mim conforme a vossa divina vontade. E vós, ó Virgem Maria, esperança dos pecadores, acolhei-me sob o vosso manto e fazei que eu pertença inteiramente ao vosso divino Filho.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla Morte (1758), Considerazione XXI («Della vanità del mondo»), Punto I, Marietti II 94. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.