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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

O centurião e as pessoas de meia fé

DOMINGO, 23 DE JANEIRO · III DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA

O centurião e as pessoas de meia fé

MT 8,10

«E Jesus, ouvindo-o assim falar, admirou-se, e disse para os que o seguiam: Em verdade vos afirmo, que não achei tamanha fé em Israel.»

SUMÁRIO

A fé deve orientar tanto as obras como o entendimento. As bem-aventuranças desmentem os juízos do mundo; as máximas da fé protegem a alma nas tentações e nas adversidades, e a oração pede ao Senhor que a fortaleça.

Ponto ICrer e viver segundo a fé

Para alcançar a salvação, não é suficiente acreditar no que a fé ensina; é preciso também conduzir a vida conforme o que ela manda. Escreveu o grande Pico della Mirandola: «Grande loucura é, certamente, não crer no Evangelho; mas muito maior loucura é viver como se duvidássemos de sua veracidade.» Se os incrédulos procedem loucamente ao fechar os olhos para não verem o precipício, maior é a loucura dos fiéis que o veem e nele se lançam com os olhos abertos. Quem, depois de tantos sinais tão claros da verdade da nossa fé católica, não a quer aceitar, procede como insensato; muito mais, porém, quem a aceita e depois vive como se não acreditasse nela. «Que aproveitará, irmãos meus, a um que diz que tem fé, se não tem obras?» (Tg 2,14). Por isso São Bernardo nos exorta: «Que as tuas ações comprovem a tua fé.» A vida virtuosa manifesta que a pessoa tem verdadeira fé. De outro modo, diz o mesmo santo: «Se confessas conhecer a Deus, mas pelas obras o negas, entregaste a língua a Cristo e a alma ao demônio.» A fé desacompanhada das obras é um cadáver de fé: «Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma» (Tg 2,17). Assim como se declara morto quem já não exerce os atos da vida, já não pensa, não fala nem respira, também é morta a fé que não produz obras para a vida eterna. E, assim como um corpo privado da alma continua sendo corpo, mas não pode realizar atos vitais, a fé sem a caridade continua sendo fé, mas não pode produzir obras merecedoras da salvação eterna.

Muitas pessoas aceitam as verdades da fé que são objeto de especulação e se dirigem ao entendimento; poucas, entretanto, mostram acreditar nas verdades práticas, referentes à vontade e aos costumes. Compreendamos que ambas são certas e infalíveis, pois o mesmo Evangelho nos ensina umas e outras. Diz um escritor douto que quem nega pela boca as verdades da fé é herege de palavras; quem não vive de acordo com elas pode ser chamado herege de obras. Assim como acreditamos nos mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação do Verbo e nos demais, devemos acreditar igualmente nos ensinamentos de Jesus Cristo. Por isso São Paulo escreveu aos seus discípulos: «Examinai-vos a vós mesmos, se estais firmes na fé: Provai-vos a vós mesmos» (2 Cor 13,5). Jesus Cristo diz: «Bem-aventurados os pobres de espírito: Porque dêles é o reino dos Céus» (Mt 5,3). Quem, pois, considera uma infelicidade a sua pobreza e chega por vezes a queixar-se da Providência divina não demonstra ser verdadeiro fiel. Quem tem fé reconhece como riqueza e felicidade a graça de Deus e a salvação eterna, em vez dos bens mundanos. Quando um tirano apresentou a São Clemente prata, ouro e pedras preciosas para que renegasse Jesus Cristo, o santo suspirou de pesar: ofereciam-lhe um pouco de terra em troca de Deus.

Jesus Cristo diz: «Bem-aventurados os pacíficos»; «Bem-aventurados os que choram»; «Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça» (Mt 5,9.5.10). Quer dizer: felizes os que perdoam as injúrias; os que se mortificam e acolhem com paz as enfermidades, as perdas e os demais sofrimentos desta vida; os que padecem perseguição por impedir pecados ou trabalhar pela glória divina. Assim, quem julga desonroso perdoar; quem só pensa em uma vida de delícias, satisfazendo sem reserva os próprios sentidos, e julga infelizes os que renunciam aos prazeres terrenos e mortificam a carne; quem, por respeito humano e receio do escárnio alheio, abandona as devoções, a frequência dos sacramentos e o recolhimento, dissipando-se em conversas, banquetes e teatros, não demonstra possuir verdadeira fé.

Ponto IIA fé nas tentações e nas tribulações

Mas como venceremos os respeitos humanos, os maus apetites da carne e todas as outras tentações infernais? Ouçamos o apóstolo São João: «E esta é a vitória que vence ao mundo, a-nossa fé» (1 Jo 5,4). É a fé que nos dá força para superar todos os obstáculos que o mundo opõe à nossa salvação e santificação. Esta deve ser a única finalidade que buscamos; é também a finalidade pela qual Deus nos criou e nos conserva na terra, conforme 1 Ts 4,3: «Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação». O demônio é poderoso e terríveis são as suas tentações; mas quem possui fé vence tudo, conforme nos adverte São Pedro: «Porque o diabo vosso adversário anda ao derredor de vós, como um leão que ruge, buscando a quem possa tragar: Resisti-lhe fortes na fé» (1 Pd 5,8–9). São Paulo escreveu igualmente: «Embraçando sobretudo o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do mais que maligno» (Ef 6,16). O escudo protege o corpo contra todas as flechas inimigas; a fé protege a alma contra todas as tentações do inferno: «Mas o meu justo vive da fé» (Hb 10,38). Pelas máximas da fé, o justo se conserva na vida da graça divina. É certo que, enfraquecendo-se a fé, enfraquecem-se todas as virtudes; perdida a fé, perdem-se todas elas.

Logo que uma tentação de orgulho ou dos sentidos nos ataque, armemo-nos das máximas da fé para nos defender. Consideremos ora a presença divina, ora a ruína causada pelo pecado, ora as contas que teremos de prestar no juízo de Deus, ora a pena eterna preparada para os pecadores, ora a obrigação que temos para com Jesus Cristo. Sobretudo, a fé nos ensina que, durante as tentações, quem recorre a Deus não fica vencido: «Louvando-o, invocarei ao Senhor: E serei salvo de meus inimigos» (Sl 17,4). A fé também nos estabelece na paz em meio às adversidades que nos afligem, mostrando-nos que os sofrimentos desta vida, suportados com paciência, tornam mais segura a nossa salvação eterna: «Mas crendo, exultais com uma alegria inefável e cheia de glória: Alcançando o fim da vossa fé, que é a salvação das vossas almas» (1 Pd 1,8–9).

Se alguém receber do demônio tentações contra a verdade da fé, não perca o ânimo; confunda o inimigo pelo mesmo caminho de que este se quer servir para conquistá-lo. Renove simplesmente o ato de fé, sem responder às dúvidas que o demônio procura insinuar, e ofereça a vida para conservar a fé. São Luís, rei da França, contou que certo teólogo douto, muito atormentado pelo demônio contra a verdade do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, procurou socorro junto do bispo de Paris e, chorando, expôs-lhe a sua aflição. O bispo perguntou-lhe se haveria alguma coisa pela qual estivesse disposto a renunciar à fé. O teólogo respondeu que não; então o bispo mostrou-lhe os grandes tesouros que ganhava ao suportar a dor daquela tentação. São Francisco de Sales, durante uma enfermidade, sofreu também uma forte tentação de fé acerca da Eucaristia. Sem discutir com o demônio, o santo venceu-o apenas pronunciando o nome de Jesus.

Em tentações desse gênero, é preciso submeter humildemente o entendimento, crendo ser verdadeiro tudo quanto a Igreja nos ensina. Vençamos o demônio, como já se disse, com as próprias armas dele, declarando: «Por esta fé, aceito entregar mil vezes a vida.» Assim obteremos grande proveito onde o inimigo queria causar-nos grande perda. Roguemos, pois, continuamente ao Senhor, como lhe rogavam os apóstolos: «Aumenta-nos a fé, aumenta-nos a fé» (Lc 17,5).

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Evidenza della Fede ossia Verità della Fede fatta evidente per i contrassegni della sua credibilità (1762), Capítulo IX, «Pratica della fede», integral, pp. 523–524 da paginação do corpus; também em Opere dommatiche, Marietti, tomo VIII (1848), pp. 522–524, Archive.org: operedommatiched0008ligu.. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.