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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

No inferno sofre-se para sempre

TERÇA-FEIRA, 14 DE DEZEMBRO · TERÇA-FEIRA — FÉRIA DO ADVENTO

No inferno sofre-se para sempre

AP 20,10

«Serão atormentados de dia e de noite por todos os séculos dos séculos.»

SUMÁRIO

Se as penas do inferno não fossem eternas, não constituiriam verdadeiro inferno; a perpetuidade é o aguilhão mais terrível que desespera os condenados. Naquele abismo há porta para entrar, mas não há saída jamais.

Ponto I

Se não fosse eterno, o inferno não seria inferno. Uma pena de curta duração não é grande pena. Num enfermo corta-se um abscesso; noutro queima-se uma gangrena: a dor é forte, mas, porque logo acaba, não constitui grande tormento. Que sofrimento seria, porém, se esse corte ou essa cauterização continuasse uma semana ou um mês inteiro? Quando dura muito, até uma pena leve, como uma dor de olhos ou de dente, torna-se insuportável. E por que falar em dor? Uma comédia ou música que durasse demais, um dia inteiro, já não se suportaria por causa do tédio. E se durasse um mês, um ano? Que será o inferno, onde todos os tormentos e todas as dores estão reunidos, para durar a eternidade inteira? «serão atormentados de dia e de noite por séculos dos séculos».

Esta eternidade é de fé: trata-se de verdade testemunhada por Deus em muitas Escrituras. «Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno»; «E irão estes para o suplício eterno»; «Os quais pagarão a pena eterna: de perdição ante a face do Senhor»; «Porque todo o homem será salgado no fogo». Assim como o sal conserva as coisas, o fogo infernal, enquanto atormenta os condenados, exerce o ofício de sal conservando-lhes a vida. Ali o fogo consome de maneira a conservar sempre, diz São Bernardo.

Que insensatez cometeria alguém que, em troca de um dia de diversão, aceitasse permanecer numa cova durante vinte anos, ou mesmo trinta! Ainda que o inferno tivesse a duração de um século — que digo eu: apenas dois anos ou três —, seria imensa loucura escolher esses anos de fogo em troca de um breve prazer vil. Mas a questão é a eternidade: sofrer sempre os mesmos tormentos, que jamais terminarão nem se aliviarão um pouco. Com razão os santos choravam e tremiam enquanto viviam e ainda corriam risco de condenação. O bem-aventurado Isaías, mesmo no deserto, entre jejuns e penitências, chorava: Ah, pobre de mim, ainda não estou livre de condenar-me; ainda não estou livre do fogo da geena!

Ó meu Deus, supondo que me houvésseis enviado ao inferno — destino tantas vezes merecido por mim — e que, em seguida, a vossa misericórdia me tirasse de lá, quão grande seria a minha dívida para convosco! Que vida santa começaria então! Agora, que por misericórdia ainda maior me preservastes de cair ali, que farei? Voltarei a ofender-vos e provocar vossa indignação, para que enfim me mandeis arder na prisão dos vossos rebeldes, onde tantos já ardem por menos pecados que os meus? Meu Redentor, assim procedi no passado: o tempo que me dávais para chorar minhas culpas, empreguei em vos indignar ainda mais.

Agradeço à vossa infinita bondade por me haver suportado tanto. Sem ser infinita, como me suportaria? Obrigado por me aguardardes pacientemente até agora e, sobretudo, pela luz que me concedeis, mostrando a minha loucura e a injustiça de tantos pecados contra vós. Meu Jesus, eu os detesto e deles me arrependo com todo o coração. Pela vossa paixão, perdoai-me; assisti-me com vossa graça para que não vos ofenda outra vez. Devo temer com razão que me abandoneis se cometer novo pecado mortal. Senhor, colocai esse justo temor diante de meus olhos quando o demônio me tentar novamente. Meu Deus, eu vos amo e não quero perder-vos: ajudai-me com vossa graça. Virgem Santíssima, ajudai-me e fazei que sempre recorra a vós nas tentações, para não perder novamente a Deus. Maria, sois a minha esperança.

Ponto II

Quem entra no inferno não sai dali pela eternidade. Esse pensamento fazia Davi tremer: «nem me absorva o mar profundo: Nem cerre apertadamente o poço a sua boca sobre mim». Caindo o condenado naquele poço de tormentos, sua boca se fecha e não volta a abrir-se. Há no inferno entrada, mas não saída: Haverá descida, não haverá subida, diz Eusébio de Emesa, explicando o salmo: Quando os receber, fechar-se-á para cima e abrir-se-á para baixo.

Enquanto vive, o pecador pode esperar remédio; surpreendido pela morte em pecado, perde toda esperança. «Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma». Ao menos pudessem os condenados iludir-se com falsa esperança e achar alívio para o desespero! O pobre enfermo, coberto de feridas e preso ao leito, a quem os médicos desenganaram, ainda se consola pensando que talvez apareçam outro médico e outro remédio. Quem foi condenado às galés por toda a vida pensa que talvez algum acontecimento o liberte das cadeias. Ao menos o condenado pudesse dizer: Quem sabe se um dia sairei desta prisão? Mas nesse lugar não existe esperança verdadeira nem falsa, nenhum «quem sabe». «e to porei diante da tua cara». Verá continuamente diante dos olhos a sentença escrita de que deverá chorar para sempre na cova das penas: «e outros para um opróbrio, que eles terão sempre diante dos olhos». Além de sofrer em cada instante as penas presentes, sofre também, em cada instante, a pena da eternidade: O que agora padeço, padecerei sempre. Suporta o peso da eternidade, diz Tertuliano.

Peçamos ao Senhor, como Santo Agostinho: Aqui queimai, aqui cortai, aqui não poupeis, para poupardes na eternidade. Os castigos desta vida passam; os da outra jamais passam. Temamos aquele trovão da condenação eterna que sairá da boca do Juiz contra os réprobos: «Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno». O salmo diz que a voz do trovão está na roda: esta representa a eternidade, que não tem fim. «eu o Senhor tirei a minha espada da sua bainha, para a não tornar a meter nela». Grande será o castigo infernal, mas o que mais deve aterrorizar-nos é ser irrevogável.

Como é justo, perguntará alguém sem fé, punir eternamente um pecado de um instante? Respondo: Como pode o pecador ousar ofender um Deus de majestade infinita por um prazer de um instante? Mesmo no julgamento humano, diz São Tomás, mede-se a pena pela qualidade do delito: um homicídio cometido num momento não recebe pena de um momento. Para um pecado mortal, um inferno é pouco. À ofensa de majestade infinita deveria corresponder castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Como a criatura não suporta pena infinita em intensidade, explica o Doutor Angélico, Deus justamente a torna infinita em duração.

Além disso, tal pena deve ser eterna porque o condenado já não pode satisfazer por sua culpa. Nesta vida o pecador penitente pode satisfazer, pois lhe são aplicados os merecimentos de Jesus Cristo; o condenado está excluído deles. Sem poder aplacar a Deus, sendo eterno o seu pecado, eterna deve ser a pena. A culpa poderá ali ser punida sempre, mas nunca expiada, diz o Belvacense; ali o pecador não pode arrepender-se, segundo Santo Antonino. Assim o Senhor permanecerá sempre indignado contra ele. Ainda que Deus quisesse perdoá-lo, o condenado não quer perdão: sua vontade permanece obstinada, firmemente presa ao ódio contra Deus. Os réprobos não se humilharão, mas a malícia do ódio crescerá neles, diz Inocêncio III. São Jerônimo acrescenta: São insaciáveis no desejo de pecar. A ferida do condenado é, portanto, sem remédio, pois ele recusa até mesmo a cura.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Redentor, se nesta hora estivesse no inferno, como mereci, permaneceria obstinado em odiar-vos, meu Deus, que morrestes por mim? Que inferno seria odiar a vós, que tanto me amastes, beleza e bondade infinitas, digno de amor infinito! Se estivesse ali, achar-me-ia em condição tão infeliz que nem sequer desejaria o perdão que agora me ofereceis? Meu Jesus, agradeço-vos a misericórdia usada comigo. Posso agora receber perdão e amar-vos: quero receber esse perdão e quero amar-vos. Ofereceis-me o perdão; eu o peço e espero pelos vossos merecimentos.

Bondade infinita, tenho pesar por cada ofensa feita contra vós: perdoai-me. Amo-vos com toda a alma. Senhor, que mal me fizestes para que vos odiasse para sempre como inimigo? Que amigo jamais fez e sofreu por mim tudo o que vós fizestes e sofrestes, meu Jesus? Não deixeis que eu caia de novo em desgraça diante de vós e fique privado do vosso amor; dai-me antes a morte, para que não me sobrevenha tamanha ruína. Maria, encerrai-me na proteção do vosso manto; impedi que eu saia de lá para revoltar-me contra Deus e contra vós.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla Morte (1758), Considerazione XXVII («Dell’eternità dell’inferno»), pontos I (_P4J.HTM) e II (_P4K.HTM) integrais, com os respectivos «Affetti e preghiere». Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.