O testemunho de São João Batista e a modéstia cristã
JO 1,23
«Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.»
SUMÁRIO
A exemplo de São João Batista, que recusou os títulos insignes que a multidão lhe oferecia proclamando-se apenas uma voz no deserto, os cristãos devem cultivar a verdadeira modéstia, desfazendo-se dos louvores terrenos e ocultando as próprias virtudes.
Ponto I
O exemplo de São João Batista resplandece pelo fulgor de sua profunda humildade. Embora estivesse investido de virtudes tão admiráveis que o povo o reputava o próprio Messias, recusou categoricamente tal distinção com santa veemência: «Eu não sou o Cristo» (Jo 1,20). Constrangido a declarar a sua identidade perante os enviados de Jerusalém, omite a dignidade sacerdotal e a linhagem de seus progenitores, contentando-se em apontar unicamente o seu humilde ofício de arauto: «Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor» (Jo 1,23).
Ensina Santo Afonso que igual modéstia cumpre praticar àquele que sinceramente almeja agradar a Deus: deve-se fugir de qualquer palavra ou insinuação que respire vanglória, quer a respeito de talentos próprios, quer de nobreza familiar ou de exercícios piedosos. É prudente lembrar o ditado comum de que o louvor em boca própria redunda em vitupério e vergonha. Sempre que convier falar de si mesmo, procure a pessoa rebaixar-se mais do que exaltar-se; com o humilhar-se ninguém jamais sofreu revés, ao passo que por pouco que alguém se erga acima do que realmente é, corre grave perigo de queda: «Grande mal é elevar-se ainda que levemente acima da verdade», adverte São Bernardo. O melhor arbítrio nas conversações consiste em não se referir a si mesmo nem em bem nem em mal, reputando-se indigno de menção, porquanto até mesmo ao narrar os próprios defeitos muitas vezes se insinua sutil e disfarçada soberba querendo passar por humilde.
Ponto II
Se outrem dispensar louvores sem que a pessoa os tenha buscado, impõe-se recordar a multidão das faltas pessoais e confundir-se interiormente por não merecer semelhantes elogios. O aplauso dos homens é amiúde a maior cilada espiritual, visto que pela vã complacência pode arrebatar num instante todos os méritos adquiridos diante de Deus. Adverte São Francisco de Sales que os encômios mundanos constituem um veneno adocicado capaz de paralisar a virtude das almas mais recolhidas.
Sempre que a alma se vir cercada de estima e reverência, volva prontamente o olhar para Jesus Crucificado, o qual, pelo nosso resgate, escolheu ser «o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe» (Sl 21,7). Perante o Redentor coroado de espinhos e tratado como réu infame, como ousará o servo buscar vaidades e aplausos efêmeros neste mundo?
AFETOS E ORAÇÕES
Ó meu adorável Salvador, envergonho-me no mais profundo de minha alma ao comparecer diante de vossa soberana presença. Vós, que sois a própria Santidade incriada, fostes ultrajado e saturado de opróbrios por meu amor; e eu, pobre transgressor coberto de imperfeições, mostro-me tão ávido de distinção e tão apegado à consideração alheia!
Como sou disparatado em relação a vós, Jesus meu! Dai-me parte do vosso espírito de mansidão e aniquilamento. Arrependo-me de coração de todos os momentos de soberba e vaidade com que desonrei a vossa graça. «Senhor, inclinai os vossos ouvidos às nossas súplicas e iluminai as trevas da nossa alma com a visita da vossa divina luz». Fazei o meu coração manso e humilde à semelhança do vosso sagrado Coração. Maria Santíssima, a mais humilde de todas as criaturas de Deus, acolhei-me sob o vosso manto e ensinai-me a amar o esquecimento do mundo.

