Comemoração do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
AP 5, 9-10
«Remiste-nos para Deus pelo teu sangue, e nos tens feito para o nosso Deus reino.»
SUMÁRIO
O amabilíssimo Salvador não se limitou a pagar pela sua Paixão a dívida dos nossos crimes e rasgar pelo seu sangue a sentença de condenação eterna: quis instituir nos sacramentos da Igreja uma fonte perene de purificação espiritual, onde a alma pudesse lavar a todo tempo as manchas de suas quedas. Com quanto afeto não havemos de corresponder a tão incomparável caridade? Cultivemos o salutar costume de oferecer continuadamente o Sangue divino ao Eterno Pai em resgate dos nossos pecados e em favor da santa Igreja.
Ponto I
Nosso amantíssimo Redentor veio à terra com o único intento de resgatar os pecadores decaídos. Por esse motivo não se contentou em satisfazer com sua morte afrontosa à dívida das nossas prevaricações e cancelar o decreto da nossa perdição eterna; quis além disso aprontar no sacramento da penitência um banho salutar para apagar as nódoas de nossas culpas: Amou-nos e lavou-nos dos nossos pecados em seu sangue. E não operou essa ablução apenas no batismo inicial, mas instituiu aquele sacramento de misericórdia para durar ao longo de toda a nossa peregrinação.
Por isso o Apóstolo São Paulo nos exorta a aproximar-nos de Jesus, mediador da nova aliança, e da aspersão daquele sangue que fala com muito maior eficácia que o sangue do inocente Abel. Parece dizer-nos: Almas vacilantes, por mais graves que tenham sido os vossos desvios, não desespereis da redenção, pois vos achais assistidas pelo sangue do Filho Unigênito. Se a aspersão do sangue dos animais purificava exteriormente as imundícies legais da antiga lei, quanto mais a oblação pura do Cordeiro sem defeito purificará as nossas consciências das obras mortas para servirmos ao Deus vivo!
Quão mais poderosamente advoga em nosso favor o Sangue do Salvador! O sangue de Abel clamava ao céu por vingança contra o fratricida Caim; mas o Sangue de Jesus implora unicamente misericórdia e perdão. Conforme foi revelado a Santa Maria Madalena de Pazzi, o Senhor Pai celestial declarou: «A minha severidade converteu-se em clemência ao descarregar a vingança devida sobre a humanidade inocente de Jesus Cristo; a voz deste Sangue divino desarma o meu braço e ata as mãos da minha justiça para não ferir os réprobos arrependidos».
Ponto II
Como fruto desta santa meditação, alimentemos ardente e terna devoção ao Sangue de Jesus Cristo. Ao contemplardes os mistérios de sua sagrada Paixão, prostrai-vos em espírito aos pés da cruz e pedi que aquele orvalho celeste vos purifique a alma. Ao aproximar-vos do confessionário, enxergai no sacerdote o próprio ministro de Cristo derramando sobre vós as virtudes do Sangue redentor; e ao receber a sagrada Comunhão, uni os lábios à sagrada chaga do peito aberto do Senhor.
Habituemo-nos outrossim a oferecer amiúde ao Pai Eterno o preciosíssimo Sangue de seu divino Filho em expiação das nossas faltas, pelo alívio dos agonizantes, pela conversão dos pecadores, pelas necessidades da Santa Sé e pelo sufrágio das almas padecentes no purgatório.
Ó Sangue preciosíssimo de redenção infinita, resgate admirável de todo o gênero humano e bálsamo celestial que aplacais a cólera divina: nós Vos adoramos com profundo acatamento e desejamos reparar todos os ultrajes e sacrilégios com que a ingratidão dos homens não cessa de Vos afligir! Quem não bendirá esse tesouro de caridade sem limites? Ó Pai Eterno, que constituístes o vosso Filho Unigênito Redentor do mundo e quisestes ser apaziguado pela efusão de seu Sangue puríssimo: concedei-nos que, venerando nesta terra o preço sagrado da nossa libertação, sejamos defendidos de todas as desventuras temporais e alcancemos no reino dos céus os frutos eternos de sua gloriosa vitória. Por nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

