A dor de Maria Santíssima ao consentir na morte de Jesus
RM 8,32
«Não perdoou nem a seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós.»
SUMÁRIO
Para avaliar a magnitude da dor padecida por Maria Santíssima ao assentir na morte de Jesus, é indispensável ponderar a imensidão do amor que consagrava a seu Filho e Deus. Ao consentir espontaneamente no doloroso sacrifício do Calvário para a remissão dos pecadores, a Virgem tornou-se Reparadora do gênero humano, merecendo eterna gratidão dos cristãos em vez das ingratidões renovadas pelas culpas.
Ponto IO consentimento materno e a imensidão do amor e da dor
Ensina Santo Tomás que, cabendo à maternidade prerrogativas tutelares inalienáveis sobre os filhos, aprouve à divina sabedoria que o Redentor, sendo perfeitamente inocente e alheio a qualquer falta merecedora de suplício, não fosse conduzido à morte de cruz sem que a sua sagrada Mãe prestasse pleno consentimento e espontaneamente o oferecesse à imolação. Havia já Maria concedido a sua anuência ao acolher o mistério da Encarnação; contudo, quis o Eterno Pai que o renovasse expressamente na hora da Paixão, de modo que ao sacrifício cruento do Filho se unisse o holocausto do coração materno.
Escreve São Bernardino que, para formar conceito da dor incomensurável de Maria ao entregar Jesus à morte, convém considerar o amor indizível que a Virgem lhe tributava. Se toda mãe ressente as aflições dos filhos qual fossem suas próprias — como a cananeia que implorava misericórdia para si ante os tormentos de sua filha (Mt 15,22) —, qual criatura jamais amou tanto um filho como Maria amava a Jesus? Era ele seu unigênito, nutrido com santíssimos desvelos; Filho amorosíssimo e infinitamente afável; e, além disso, seu verdadeiro Deus, que descera à terra para acender nos corações o fogo celeste da caridade (Lc 12,49). Como revelou a Senhora a Santa Brígida, «pelo fervor da caridade, um mesmo coração era o meu coração e o de meu Filho». Os títulos de serva e de mãe, de Filho e de Criador, produziram na alma de Maria um incêndio composto de milhares de chamas puras; mas no tempo da Paixão todo aquele ardor de amor converteu-se num pélago imenso de tormento, levando São Bernardino a exclamar que todas as tribulações terrenas reunidas não igualariam a dor de Maria Santíssima.
Ponto IIMaria, Reparadora da humanidade, e o dever da correspondência
À proporção que o momento fatal se aproximava, revelou a Virgem santa que seus olhos permaneciam banhados em contínuas lágrimas, e um suor gélido percorria os seus membros ante o pavor da tragédia iminente. E quando Jesus se despediu chorando de sua Mãe para caminhar ao encontro da morte, que angústia indescritível não abateu o espírito da Senhora! Afirmam os santos Padres que, pelos merecimentos contraídos ao imolar a vida do Redentor pela redenção universal, Maria Santíssima conquistou com inteira justiça o título de Reparadora do gênero humano, gerando-nos espiritualmente para a graça celeste à semelhança de nova Eva que desfaz a ruína da antiga. Pondera o Bem-Aventurado Alberto Magno que, assim como estamos sumamente obrigados a Jesus pelo resgate operado em suas chagas, achamo-nos igualmente em dívida para com Maria pelo martírio que por nossa salvação suportou livremente.
Infelizmente, quão inumeráveis são os cristãos que retribuem a tamanho amor com fria indiferença e repetidas ofensas! Foi dessa dolorosa perfídia que a divina Mãe se queixou à Bem-Aventurada Coleta: mostrando-lhe Jesus flagelado, declarou-lhe que os pecadores renovam sem cessar os suplícios do Filho e as espadas no coração da Mãe. Não continuemos a crucificar espiritualmente o nosso Salvador pelas nossas culpas.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó minha bendita Mãe, é assim que a humanidade responde à imensa caridade que lhe demonstrastes, consentindo que o vosso amado Jesus expirasse no patíbulo para a nossa salvação? Ingratos e cegos, nem mesmo após o verem consumado sobre o madeiro cessam os pecadores de persegui-lo com suas maldades, continuando a pungir de dor o vosso peito amantíssimo! E hei de confessar, Rainha compassiva, que eu mesmo fui partícipe de tão detestável ingratidão! Dignai-vos alcançar-me abundantes lágrimas para deplorar para sempre as minhas iniquidades. Pela amargura sem limites que sentistes ao despedir-vos de vosso Filho quando ele partia para o sacrifício, alcançai-me a graça de meditar com fruto salutar os santos mistérios da sua Paixão, e de viver inteiramente consagrado ao seu divino beneplácito. Amém.

