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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Jesus no deserto e as tentações das almas escolhidas

DOMINGO, 6 DE MARÇO · I DOMINGO DA QUARESMA

Jesus no deserto e as tentações das almas escolhidas

MT 4,1

«Então foi levado Jesus pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.»

Ponto I

Para as almas que consagram o seu afeto a Jesus Cristo, nenhuma aflição é mais penosa do que o assalto das tentações. Enquanto as demais tribulações as convidam a unir-se mais estreitamente com Deus, acolhendo-as com submissão, as sugestões ao pecado as impelem a separar-se do Redentor, tornando-se por isso amargosíssimas, mais do que qualquer tormento corporal. Cumpre advertir, todavia, que se bem as sugestões perversas nunca provenham do Criador, procedendo antes do adversário infernal ou da fraqueza de nossos apetites desordenados — visto que «Deus não é tentador dos males, nem tenta a ninguém» (Tg 1, 13) —, permite o Senhor que os seus servos mais diletos sejam duramente provados. Em primeiro lugar, para que experimentem na própria fraqueza a absoluta necessidade do auxílio celestial a fim de não cair. Quando a alma se encontra consolada pelas doçuras divinas, parece-lhe fácil superar qualquer combate e cumprir generosas obras pela glória de Deus; mas logo que se vê violentamente assaltada e à borda do abismo, reconhece a sua extrema miséria e que nada pode sem o socorro divino. Foi o que sucedeu a São Paulo, a quem foi dado o espinho da carne, para que a magnitude das revelações não o desvanecesse (2 Cor 12, 7). Além disso, Deus permite os combates para que vivamos desapegados das vaidades da terra e suspiremos pela pátria celeste, exclamando com o salmista: «Ai de mim, porque o meu desterro se prolongou!» (Sl 119, 5); e ansiando pelo momento em que possamos dizer: «O laço quebrou-se, e nós ficamos livres» (Sl 123, 7). Por fim, o Senhor permite a luta para aumentar os nossos merecimentos, como disse o anjo a Tobias: «Porque eras aceito a Deus, foi mister que a tentação te provasse» (Tb 12, 13). Não deve, pois, a pessoa aflita julgar-se desamparada; antes deve confiar em que é amada pelo Senhor. Não são os maus pensamentos que mancham a alma, mas o consentimento voluntário: por mais horríveis que sejam as sugestões ou as imagens involuntárias que se apresentem à imaginação, se a vontade não as acolhe, a alma permanece pura, fortalecida e ainda mais agradável a Deus. Como ensina São Bernardo, «tantas vezes somos coroados quantas vencemos».

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Pratica di amar Gesù Cristo (1768), Cap. XVII («Caritas omnia sustinet»), § 1 («Delle tentazioni»), pp. 837–843. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.