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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Dano que causa à vida religiosa a tibieza

QUARTA-FEIRA, 5 DE JULHO · SANTO ANTÔNIO MARIA ZACARIAS

Dano que causa à vida religiosa a tibieza

ECLO 19,1

«O operário dado ao vinho não enriquecerá: E aquele que despreza as coisas pequenas, pouco a pouco cairá.»

SUMÁRIO

A vocação à perfeição pede que a alma combata a tibieza e corresponda generosamente às graças recebidas.

Ponto I

Considera a miséria de quem, tendo abraçado a vida religiosa, abandonou a pátria, a família e os prazeres todos do mundo; entregou-se a Jesus Cristo, consagrando-lhe a vontade, a liberdade e todo o seu ser; e depois se expõe ao perigo da condenação por permanecer numa vida tíbia e descuidada. Uma alma tíbia, chamada por Deus à sua casa para alcançar a santidade, não está longe de se perder. O Senhor ameaça rejeitar e abandonar essas almas, se não se emendarem: «Mas porque tu és môrno, e nem és frio, nem quente, começar-te-ci a vomitar da minha bôca.» (Ap 3,16).

Santo Inácio de Loyola, vendo que um irmão leigo de sua ordem servia a Deus com tibieza, chamou-o um dia e perguntou: «Meu irmão, dize-me: para que vieste à vida religiosa?» Ele respondeu: «Para servir a Deus.» O santo tornou: «Ó irmão, que disseste? Se tivesses respondido que vieste servir um cardeal ou um príncipe da terra, terias maior desculpa; mas dizes que vieste servir a Deus, e assim o serves?» O Padre Nieremberg afirma que certas pessoas são chamadas por Deus a salvar-se pela santidade, de tal maneira que, se não procurarem viver santamente e quiserem salvar-se permanecendo na imperfeição, nem sequer se salvarão. Santo Agostinho diz que Deus costuma abandonar quem é negligente. Como se dá esse abandono? Permitindo que, de faltas leves cometidas com conhecimento e sem lhes dar importância, se passe a faltas graves, perdendo a graça divina e a vocação. Santa Teresa de Jesus viu o lugar que lhe estava preparado no inferno, caso não se desprendesse de um afeto terreno, embora não gravemente culpável: «O operário dado ao vinho não enriquecerá: E aquele que despreza as coisas pequenas, pouco a pouco cairá.» (Eclo 19,1).

Muitas pessoas querem seguir Jesus Cristo, mas à distância, como São Pedro: quando o Mestre foi preso no horto, São Mateus diz que Pedro o seguia de longe. Agindo assim, facilmente lhes sucederá o que aconteceu a Pedro: diante da ocasião, negou Jesus Cristo. A alma tíbia talvez se contente com o pouco que faz por Deus; o Senhor, porém, que a chamou à vida perfeita, não se contentará. Em castigo de sua ingratidão, não somente a privará de favores especiais, mas por vezes permitirá sua ruína: «Onde disseste: basta, aí te perdeste.» A figueira mencionada no Evangelho recebeu a condenação ao fogo unicamente porque não produzia fruto. Dizia o Padre Luís da Ponte: «Cometi muitos defeitos, mas nunca fiz paz com eles.» Infeliz a alma que, chamada a ser perfeita, se acomoda aos próprios defeitos! Enquanto alguém detesta suas imperfeições, há esperança de santidade; quando comete faltas e as despreza, São Bernardo diz que essa esperança se perde.

«E digo isto: Que aquêle que semeia pouco também segará pouco: E que aquêle que semeia em abundância, também segará em abundância.» (2 Cor 9,6). Para formar uma alma santa, não bastam as graças ordinárias: são necessárias as extraordinárias. Como há de Deus derramar seus favores sobre quem lhe oferece um amor escasso e reservado? Além disso, para alcançar a santidade, é preciso ter ânimo e fazer esforço para vencer todas as resistências. São Bernardo diz que ninguém pense chegar à perfeição sem se distinguir entre as demais pessoas pela prática das virtudes: «O que é perfeito não pode deixar de ser singular.»

Considera por que deixaste o mundo e tudo mais: para alcançar a santidade. Mas essa vida tão tíbia e cheia de defeitos é caminho para ela? Às suas filhas Santa Teresa dava este encorajamento: «Irmãs, já realizastes o mais; para serdes santas, só vos falta o menos.» O mesmo digo a quem lê: talvez já tenhas realizado a parte maior: renunciaste à pátria, à casa, aos familiares, aos bens e às diversões. Para alcançar a santidade, resta o menos: faze-o.

AFETOS E ORAÇÕES

Ah, meu Deus, não me rejeiteis, como mereço, porque quero emendar-me. Reconheço que esta vida descuidada não vos pode agradar. Sei que, por minha tibieza, fecho a porta às graças que desejaríeis conceder-me. Senhor, não me abandoneis ainda; continuai a usar de misericórdia para comigo, pois quero sair deste estado miserável. Doravante quero ter maior cuidado em vencer minhas paixões, executar vossas inspirações, cumprir os deveres que o tédio me leva a omitir e realizá-los com maior diligência. Desde hoje quero fazer quanto puder para vos agradar, sem desprezar coisa alguma que eu saiba ser do vosso agrado.

Vós, meu Jesus, concedestes-me tantas graças e quisestes oferecer por mim vosso sangue e vossa vida. Ser mesquinho convosco é injusto. Mereceis toda honra, todo amor, e que se aceite alegremente qualquer esforço e sofrimento para vos agradar. Meu Redentor, conheceis minha fraqueza: ajudai-me com vossa destra; em vós confio. Virgem imaculada Maria, que me ajudastes a deixar o mundo, ajudai-me a vencer minhas resistências e a alcançar a santidade.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Considerazioni per coloro che son chiamati allo stato religioso (1775), Considerazioni per coloro che son chiamati allo stato religioso, Considerazione VII integral e «Preghiera» (_PEO.HTM), pp. 421–422 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.