O desprezo do tempo e a hora da morte
LM 1,15
«Tirou o Senhor todos os meus magnates do meio de mim: Chamou contra mim o tempo, para quebrantar os meus escolhidos: O Senhor calcou o lagar à virgem filha de Judá.»
SUMÁRIO
O tempo, embora precioso, é desprezado; na morte, será desejado quando já não puder ser recuperado. A alma agradece a paciência de Jesus e pede empregar o tempo restante em seu amor.
Ponto I
Nada é mais precioso que o tempo, mas nada é menos estimado nem mais desprezado pelas pessoas do mundo. São Bernardo lamenta isso: Nada é mais precioso que o tempo, porém nada é avaliado por preço mais baixo. Acrescenta: Passam os dias de salvação, e ninguém considera que um dia se perde e nunca voltará.
Vereis quem joga passar dias e noites desperdiçando tempo nos jogos. Se lhe perguntais: Que fazeis?, responde: Passamos o tempo. Vereis outra pessoa desocupada permanecer horas inteiras numa rua, olhando quem passa ou falando de coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntais: Que fazeis?, responde: Faço passar o tempo. Pobres almas cegas, que perdem tantos dias, dias que nunca mais voltam!
Ó tempo desprezado, serás o desejo maior dos mundanos quando a morte chegar! Quererão ainda um ano, um mês ou um dia; mas isso lhes será negado. Ouvirão então dizer: Não haverá mais tempo (Ap 10,6). Quanto pagaria então cada um deles por mais uma semana, por mais um dia, para acertar melhor as contas da consciência! Para obter somente uma hora, diz São Lourenço Justiniano, entregaria todos os seus bens: Daria riquezas, honras e delícias por uma horinha. Essa hora, porém, não lhe será dada. Depressa, dirá o sacerdote que o assiste, depressa, parti desta terra; já não há tempo: Parte deste mundo, alma cristã.
O profeta nos exorta, portanto, a recordar Deus e a procurar sua graça antes que falte a luz: «Lembra-te do teu criador nos dias da tua mocídade, antes que venha o tempo da aflição e cheguem os anos, ele que tu digas: Esta idade não me agrada:» (Ecl 12,1) E antes que se escureçam o sol e a luz (Ecl 12,2). Que sofrimento para quem viaja perceber que errou o caminho quando já anoiteceu e não há tempo para corrigir o erro! Essa será, na morte, a pena de quem viveu muitos anos no mundo sem empregá-los para Deus: «Importa que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia: A noite vem, quando ninguém pode obrar.» (Jo 9,4) A morte será para essa pessoa noite na qual já nada poderá fazer: Convocou contra mim o tempo (Lm 1,15).
A consciência lhe recordará quanto tempo teve e gastou em dano da alma, quantos chamados e quantas graças recebeu de Deus para se santificar e não quis aproveitar. Verá então fechado o caminho de praticar algum bem. Dirá chorando: Que loucura foi a minha! Ó tempo perdido! Ó minha vida perdida! Ó anos perdidos, nos quais podia ter alcançado a santidade, mas não o fiz; agora já não resta tempo! De que servirão esses lamentos e suspiros quando a cena estiver terminando, a lâmpada perto de se apagar e a pessoa moribunda prestes a entrar no grande instante do qual depende a eternidade?
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, meu Jesus, gastastes toda a vossa vida para salvar minha alma. Não houve instante de vosso viver em que não vos oferecêsseis por mim ao Pai eterno para me alcançar o perdão e a salvação eterna. Eu vivi tantos anos no mundo: quantos empreguei até agora para vós? Tudo quanto recordo ter feito me causa remorso de consciência. Muito foi o mal; o bem foi pouquíssimo, cheio de imperfeições, tibieza, amor próprio e distrações.
Meu Redentor, tudo aconteceu porque me esqueci do que fizestes por mim. Eu vos deixei no esquecimento; vós, porém, conservastes a lembrança de mim: viestes atrás de mim enquanto eu fugia de vós, e tantas vezes me chamastes a vos amar. Eis-me aqui, meu Jesus: não quero mais resistir. Que espero? Que me abandoneis de fato?
Arrependo-me, ó sumo Bem, de me ter separado de vós pelo pecado. Amo-vos, bondade infinita, digna de amor infinito. Não permitais que eu continue a perder o tempo que vossa misericórdia me concede. Recordai-me sempre, meu amado Salvador, o amor com que me amastes e as penas sofridas por mim. Fazei que esqueça tudo, para que, na vida que ainda me resta, pense somente em amar-vos e dar-vos alegria. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, meu tudo. Prometo fazer atos de amor por vós sempre que disso me lembrar. Dai-me a santa perseverança. Confio inteiramente nos merecimentos de vosso sangue e em vossa intercessão, ó querida Mãe minha, Maria.

