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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

O corpo no sepulcro

SEGUNDA-FEIRA, 12 DE JUNHO · SÃO JOÃO DE SÃO FACUNDO

O corpo no sepulcro

IS 14,11

«Arrastada foi a tua soberba até aos infernos, caiu por terra o teu cadáver: Debaixo de ti se estenderá por cama a polilha, e a tua coberta serão os bichos.»

SUMÁRIO

A dissolução do corpo nos recorda a fragilidade dos prazeres e a esperança da ressurreição gloriosa.

Ponto I

Para melhor compreender o que és, diz São João Crisóstomo: «Vai ao sepulcro, contempla o pó, as cinzas, os vermes e suspira.» Repara como aquele cadáver primeiro amarelece e depois escurece. Uma penugem branca e repugnante aparece sobre o corpo inteiro; em seguida, escorre para o chão uma matéria viscosa e malcheirosa. Nessa podridão surge uma multidão de vermes que se alimentam das próprias carnes. Também os ratos vêm devorá-lo, alguns por fora, outros entrando pela boca e pelas entranhas. As faces, os lábios e os cabelos caem em pedaços. Primeiro ficam descobertas as costelas, depois os braços e as pernas. Consumidas todas as carnes, os próprios vermes desaparecem. Por fim, daquele corpo resta somente um esqueleto fétido; com o tempo, ele se desfaz, os ossos se separam e a cabeça cai do tronco. «Então se quebraram, tudo a um tempo, o ferro e o barro, o cobre, a prata, e o ouro, e ficaram reduzidos como a miúda palha, que o vento leva fora ela eira cm tempo do estio: E eles desapareceram de todo o lugar: Mas a pedra que tinha dado na estátua, fez-se um grande monte, que encheu toda a terra.» (Dn 2,35). Eis o que é o homem: um pouco de pó que o vento carrega da eira.

Onde está aquele cavaleiro que chamavam o encanto, a alma das conversas? Entrai em seu quarto: já não está. Procurai sua cama: foi entregue a outras pessoas. Suas roupas e suas armas? Outros já as tomaram e repartiram. Se quereis vê-lo, olhai para aquela cova, onde se tornou imundície e ossos descarnados. Ó Deus, aquele corpo nutrido com tantas delícias, vestido com tanto luxo e servido por tantos criados reduziu-se a isso!

Ó santos, vós compreendestes! Por amor de Deus, a quem somente amastes nesta terra, soubestes mortificar vossos corpos. Agora vossos ossos são conservados e estimados como relíquias sagradas entre ornamentos de ouro; vossas belas almas encontram em Deus seu gozo, enquanto aguardam o dia final, em que também vossos corpos participarão da glória, como participaram da cruz nesta vida. Este é o verdadeiro amor ao corpo: submetê-lo aqui a sofrimentos, para que seja eternamente feliz, e negar-lhe os prazeres que o tornariam infeliz para sempre.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Deus, eis em que há de se tornar também meu corpo, por causa do qual tanto vos ofendi: vermes e podridão. Isto, Senhor, não me entristece; antes, aceito com gosto que apodreça e se consuma esta carne que me fez perder-vos, sumo bem. O que me aflige é haver-vos causado tantos desgostos para obter aquelas pobres satisfações. Contudo, não quero desconfiar de vossa misericórdia. Esperastes-me para conceder perdão: «Por isso o Senhor espera para ter misericórdia de vós: E por isso ele será exaltado perdoando-vos: Porque o Senhor é um Deus de eqüidade: Ditosos todos os que o esperam.» (Is 30,18). Quereis perdoar-me, se me arrepender. Sim, ó bondade sem limites, arrependo-me de coração inteiro de vos ter desprezado. Com Santa Catarina de Gênova vos direi: «Meu Jesus, chega de pecados, chega de pecados!» Não quero continuar abusando de vossa paciência. Meu amor crucificado, não esperarei para abraçar-vos até que o confessor vos entregue a mim à hora da morte. Desde agora vos abraço e confio minha alma a vós: «Nas tuas mãos encomendo o meu espírito: Tu me remiste, Senhor Deus da verdade.» (Sl 30,6). Durante tantos anos minha alma pertenceu ao mundo e não vos amou; concedei-me luz e fortaleza para vos amar na vida que ainda me resta. Não adiarei meu amor até o momento de morrer: agora vos amo, agora vos abraço e estreito, e prometo jamais vos deixar. Virgem Santíssima, uni-me a Jesus Cristo e alcançai-me não voltar a perdê-lo.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione I, «Ritratto d’un uomo da poco tempo passato all’altra vita», Punto II e «Affetti e preghiere», pp. 13–15 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.