As promessas de Deus e a eficácia da oração
JO 16,23
«E naquele dia nada mais me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: Se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, êle vo-la-á de dar.»
SUMÁRIO
Deus promete ouvir quem lhe pede; sua bondade nos convida a pedir as graças necessárias à salvação.
Ponto I
Não somente nesta passagem, mas em mil lugares do Antigo e do Novo Testamento, Deus promete atender quem o invoca. «Clama a mim, e eu te atenderei, e te anunciarei coisas grandes, e firmes que tu não sabes.» (Jr 33,3): volta-te para mim e eu te ouvirei. «E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás.» (Sl 49,15): chama-me e eu te libertarei dos perigos. «Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, essa vos farei.» (Jo 14,14): tudo o que me pedires por meus merecimentos, farei. «Pedireis tudo o que quiserdes, e ser-vos-á feito» (Jo 15,7): pedi quanto desejais; basta que peçais e vos será concedido. E há muitas outras passagens semelhantes.
Teodoreto dizia, por isso, que a oração é uma só e pode obter todas as coisas: «Embora seja uma só, a oração tudo pode.» São Bernardo ensina que, quando rezamos, o Senhor nos dará a graça solicitada ou outra mais útil: «Ou dará o que pedimos, ou o que souber ser mais proveitoso para nós.» O profeta anima-nos a pedir, assegurando que Deus é todo compaixão para quem o chama em auxílio: «Porque tu, Senhor, és suave, e brando: E de muita misericórdia para todos os que te invocam» (Sl 85,5).
São Tiago dá-nos ainda maior ânimo: «E se algum de vós necessita da sabedoria peça-a a Deus, que a todos a dá liberalmente e não impropera: E ser-lhe-á dada» (Tg 1,5). Esse Apóstolo diz que o Senhor, quando lhe pedem, abre as mãos e concede mais do que é solicitado: dá com largueza e não censura os desgostos que lhe causamos. Quando invocado, parece esquecer todas as nossas ofensas. São João Clímaco dizia que a oração, de algum modo, faz violência a Deus para conceder aquilo que pedimos: «A oração faz piedosa violência a Deus.» Violência, sim, mas agradável a ele e que deseja de nós. «Essa violência agrada a Deus», escreveu Tertuliano. Pois, como diz Santo Agostinho, Deus tem maior desejo de nos beneficiar do que nós de receber seus benefícios: «Ele quer comunicar-te benefícios mais do que tu desejas recebê-los.» A razão é que Deus é por natureza bondade infinita. «Deus, cuja natureza é bondade», escreve São Leão. Por isso tem supremo desejo de nos fazer participar de seus bens.
Santa Maria Madalena de Pazzi dizia que Deus fica como obrigado à alma que lhe pede, pois ela abre caminho para contentar seu desejo de distribuir-nos as graças. Davi dizia que essa bondade do Senhor, ao atender prontamente quem lhe pede, fazia-o conhecer que ele era seu verdadeiro Deus: «Então serão postos em fuga os meus inimigos. Em qualquer dia que eu te invocar: Eis-que conheço que tu és o meu Deus.» (Sl 55,10).
São Bernardo adverte que algumas pessoas injustamente se queixam de lhes faltar o Senhor; com muito maior justiça o Senhor se queixa de tantas pessoas faltarem a ele, deixando de vir pedir-lhe as graças. «Muitos se queixam de lhes faltar a graça; muito mais justamente a graça se queixaria de que muitos lhe faltam.» Foi justamente disso que o Redentor pareceu queixar-se a seus discípulos: «Vós até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi, e recebereis, para que o vosso gôzo seja completo» (Jo 16,24). É como se dissesse: atribuí a vós, e não a mim, a falta de felicidade plena, pois deixastes de solicitar as graças que vos ofereço. Pedi-mas daqui em diante e ficareis contentes.
Disso os antigos monges concluíram, em suas conferências, não haver exercício mais útil à salvação do que rezar sempre e dizer: «Senhor, ajudai-me; Deus, vinde em meu auxílio.» O venerável padre Paulo Segneri dizia de si que antes, em suas meditações, se detinha em fazer afetos; depois, conhecendo a grande eficácia da súplica, procurava empregar a maior parte do tempo em pedir. Façamos continuamente o mesmo. Temos um Deus que nos ama imensamente e cuida de nossa salvação; por isso está sempre pronto a ouvir quem lhe pede. Os príncipes terrenos, diz o Crisóstomo, dão audiência a poucas pessoas; Deus, porém, a concede a qualquer pessoa que a queira: «Os ouvidos do príncipe abrem-se a poucos; os de Deus, a todos que desejam.»
AFETOS E ORAÇÕES
Deus eterno, adoro-vos e agradeço os benefícios que me concedestes: terdes-me criado e remido por Jesus Cristo, terdes-me feito participar da fé cristã, terdes esperado quando eu estava em pecado e tantas vezes me perdoado. Ah, meu Deus, nunca teria caído em ofender-vos se tivesse recorrido a vós nas tentações. Agradeço-vos a luz com que agora me fazeis conhecer que minha salvação inteira consiste em vos suplicar e pedir as graças.
Eis que vos peço em nome de Jesus Cristo: concedei-me profunda dor de meus pecados, a santa perseverança em vossa graça, uma boa morte e o paraíso. Sobretudo, porém, o dom supremo de vosso amor e uma perfeita resignação à vossa vontade santíssima. Sei que não mereço essas graças, mas vós as prometestes a quem vo-las pede pelos merecimentos de Jesus Cristo. Por esses merecimentos peço-as e espero-as de vós. Ó Maria, vossas preces alcançam tudo o que pedem: intercedei por mim.

