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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Segunda dor de Maria Santíssima: a fuga para o Egito

SÁBADO, 11 DE MARÇO · TÊMPORAS DE QUARESMA — SÁBADO

Segunda dor de Maria Santíssima: a fuga para o Egito

MT 2,13

«Levanta-te, e toma o menino, e sua mãe, e foge para o Egito.»

SUMÁRIO

A profecia de Simeão começou a cumprir-se com a fuga da Sagrada Família para a terra do Egito, a fim de subtrair o divino Menino à perseguição homicida de Herodes. Ponderam-se os incontáveis rigores da travessia pelo deserto inóspito, os anos de estreita penúria na terra estrangeira e a exortação a vivermos neste mundo com ânimo de peregrinos desapegados de todas as vaidades efêmeras.

Ponto IA ordem de fuga e as asperezas da viagem pelo deserto

À semelhança da corça que, trespassada pelo dardo, para onde quer que fuja transporta consigo a sua dor com a flecha cravada na carne, assim a Mãe de Deus, a partir do prenúncio doloroso de São Simeão, trazia perenemente viva a recordação da futura Paixão do Filho. Como pondera Algrino ao versículo dos Cânticos, os pensamentos da Virgem achavam-se tingidos no sangue do Redentor, contemplando com antecedência as chagas que haveriam de brotar no corpo divino. O próprio Menino amado era como seta a ferir o coração virginal: quanto mais terno se manifestava, tanto mais se avivava a lembrança da morte desapiedada que o esperava.

Consideremos agora o segundo golpe que feriu Maria com a precipitada fuga de Jesus Menino para o Egito, escapando à crueldade tirânica de Herodes. O monarca, tomado de vão pavor de ser despojado do trono terreno, e vendo frustradas as suas expectativas pelos Magos, decretou a matança dos infantes inocentes ao redor de Belém. Aparece então o anjo a São José durante o repouso da noite e impõe-lhe sem demora: «Levanta-te, e toma o menino, e sua mãe, e foge para o Egito» (Mt 2,13). Afirma Gerson que logo naquela calada noturna José preveniu a santa Esposa e puseram-se a caminho. «Ó Deus», pondera o Bem-Aventurado Alberto Magno, «deve porventura fugir dos homens Aquele que veio para a salvação da humanidade?»

Que comoção pungente não trespassou a Virgem santa ao ter de partir para terra estrangeira e idólatra! Escreve São Pedro Crisólogo: «Haverá tribulação mais acerba que ver o recém-nascido suspenso ao colo da mãe pobre, compelido a fugir precipitadamente dos seus?» A distância a percorrer até ao Egito compreendia centenas de milhas, exigindo nada menos de trinta fatigantes jornadas. O itinerário era inculto, deserto, desprovido de abrigo e quase intransitável; o tempo achava-se no rigor hibernal, com neves cortantes, vendavais e lodaçais. E Maria, com apenas cerca de quinze primaveras, era jovem delicada e alheia a tais asperezas. Não contavam com servos nem séquito: apenas os esposos santos caminhavam solitários. De que mantimento dispunham, senão de algum pedaço de pão ressequido? Onde repousavam, mormente através dos descampados áridos onde inexistiam pousadas, senão sobre a areia batida, sob o céu descoberto, ameaçados por salteadores e feras bravias? Quem visse aqueles três peregrinos desprovidos de tudo, tomá-los-ia apenas por mendicantes e indigentes errantes pelo mundo.

Ponto IIA pobreza do desterro em Heliópolis e a lição de peregrinação

Alcançando finalmente as paragens egípcias, assentaram morada na cidade de Heliópolis, consoante o parecer de Santo Anselmo. Quão extrema não foi a carência material que suportaram nos cerca de sete anos que ali permaneceram, como assinalam Santo Antonino e Santo Tomás! Eram forasteiros desconhecidos, carentes de rendas, amigos ou familiares; mal granjeavam o sustento indispensável à custa do suor das próprias mãos. Escreve Landolfo de Saxônia que em tão estreita penúria permaneceu a sagrada Virgem, que por vezes não dispunha nem sequer de uma réstia de pão quando o Menino divino lho pedia constrangido pelo apetite.

Contemplar Jesus, Maria e José errantes e forasteiros sobre a terra ensina-nos a nós outros a vivermos neste mundo com ânimo desapegado de peregrinos, sem atar os afetos às vantagens efêmeras da presente vida, visto que bem depressa haveremos de abandonar esta morada passageira em demanda da pátria imutável: «Porque não temos aqui cidade permanente, mas vamos buscando a futura» (Hb 13,14). Ensina-nos outrossim a acolher com santa prontidão as cruzes de cada dia. A Bem-Aventurada Verônica de Binasco foi transportada em espírito a contemplar a rudeza daquela caminhada, e ao termo dela declarou-lhe a Mãe celestial: «Filha, contemplaste com quantas fadigas aportamos a este sítio; fica sabendo que ninguém colhe dons divinos sem suportar padecimento».

Quem almeja aliviar a dureza dos sofrimentos temporais há de acolher junto de si Jesus e Maria: «Recebe o Menino e sua Mãe». Para a alma que conserva no coração o amor sincero a este Filho e a esta Mãe, todas as angústias tornam-se suportáveis, suaves e amenas. Consolemos a dolorosa Mãe acolhendo com fervor o seu santo Filho no íntimo da nossa alma, reparando os agravos que ele continua a suportar nas ofensas com que a humanidade pecadora o persegue.

AFETOS E ORAÇÕES

Por conseguinte, ó puríssima Maria, mesmo após haver vosso divino Filho expirado sob o ódio dos algozes, continuam os pecadores a persegui-lo com suas ingratidões e a ferir de dor o vosso coração materno? E hei de confessar, ó Deus meu, que também eu fui culpado de tantas ofensas? Ó Mãe terníssima, obtende-me copiosas lágrimas para deplorar tão indigna perfídia. E pelos acerbos trabalhos que tolerastes na penosa caminhada do Egito, dignai-vos amparar-me ao longo da peregrinação que faço rumo à eternidade, para que consiga afinal chegar na vossa bendita companhia a amar o meu Redentor na glória eterna dos escolhidos. Amém.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Le glorie di Maria (1750), Parte seconda, Riflessioni sopra ciascuno de' sette dolori di Maria in particolare, Sul dolore II: «Della fuga di Gesù in Egitto», pp. 533-540 da paginação do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.