Comemoração da lança e dos cravos de Nosso Senhor Jesus Cristo
JO 19, 34
«Mas um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água.»
SUMÁRIO
Sendo o coração o manancial interior donde procedem os afetos do homem, tanto os virtuosos quanto os desordenados, quis o divino Salvador que o seu adorável Coração fosse traspassado pela lança de um soldado, curando pela chaga do amor a raiz corrompida de nossas faltas. Do mesmo modo, para expiar a prevaricação de nossos primeiros pais e a desordem de nossos passos pecaminosos, permitiu que suas mãos e seus pés sagrados fossem cravados no lenho da cruz. Que abismos de caridade revelam estes instrumentos da nossa redenção!
Ponto I
Desejando que os corpos não permanecessem no patíbulo durante a solene festa pascal do sábado, os judeus solicitaram ao governador romano a fratura dos ossos dos supliciados para abreviar-lhes o desenlace e descê-los da cruz. Enquanto a Virgem Santíssima chora prostrada junto à cruz a morte do seu dulcíssimo Jesus, avista homens armados de barras de ferro aproximando-se do patíbulo. Àquela vista estarrecedora, Maria tremeu de pavor e exclamou compungida: «Ah! Meu divino Filho já expirou; cessai de ultrajá-lo e não continueis a dilacerar a mim, sua dolorosa Mãe!»
Mas enquanto assim implorava, viu um soldado desferir com violência um golpe de lança que abriu o lado sagrado de Jesus Cristo: Um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. Ao embate da ponta de ferro oscilou o madeiro e o Coração de Jesus ficou rasgado de parte a parte, como foi revelado a Santa Brígida. Brotou das entranhas sagradas sangue e água: não restavam mais no corpo divino senão aquelas derradeiras gotas, e até essas o Redentor quis derramar para nos patentear que não guardou uma só gota de seu sangue que não tivesse sido dada por nosso resgate! A afronta física daquele golpe atingiu a humanidade morta do Salvador, mas a dor penetrante feriu a alma puríssima de Maria, cumprindo-se a profecia de Simeão.
Ponto II
Sendo o coração a sede dos sentimentos e a fonte motriz das resoluções humanas, dele partem tanto as aspirações santas quanto as cogitações culpáveis. Foi para sanar na raiz essa origem manchada dos pecados que Jesus consentiu que o seu Coração sacratíssimo recebesse o golpe da lança; e para expiar a audácia das mãos que tocaram no fruto proibido e os passos desvairados que correram pelas veredas da iniquidade, permitiu que os cravos cruéis perfurassem os seus membros imaculados.
Por isso a santa Igreja venera com entranhável gratidão a Lança e os Cravos que tiveram o privilégio sublime de ser banhados pelo preciosíssimo sangue da Redenção, cantando em seu ofício: «A crueldade dos homens vos elegeu para ferramentas de tormento, mas a providência celestial vos transformou em canais de misericórdia». Roguemos ao Senhor que volva contra os nossos vícios a virtude dessas chagas salutares: fira os nossos pés para não corrermos ao perigo, tranqüilize as nossas mãos na prática do bem e purifique o nosso íntimo de todo o afeto profano, para que arda nele unicamente o fogo do divino amor.
Ó Deus onipotente, que na fraqueza de nossa carne quisestes que vosso Filho unigênito fosse transpassado pelos cravos e ferido pela lança: concedei-nos propício que, venerando na terra a memória bendita desses sagrados instrumentos, alcancemos no céu as alegrias triunfais de sua vitória eterna. Pelo amor das dores da Virgem Santíssima e pelo mesmo Jesus Cristo, vosso Filho e nosso Senhor. Amém.

