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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

A gruta de Belém

SEXTA-FEIRA, 24 DE DEZEMBRO · VIGÍLIA DO NATAL

A gruta de Belém

LC 2,7

«E o reclinou numa manjedoura: porque não havia lugar para eles na estalagem.»

SUMÁRIO

Na vigília do Santo Natal, contemplamos o humilde refúgio da gruta de Belém, onde o Criador de todas as coisas escolheu nascer entre a palha e o sopro dos animais, ensinando-nos o desprendimento das honras humanas e a beleza da santa humildade.

Ponto I

O orgulho foi a primeira causa da queda dos nossos primeiros pais: recusando submeter-se à obediência divina, perderam-se e perderam todo o gênero humano. Para remediar tão grande ruína, a misericórdia de Deus fez que seu Unigênito se humilhasse tomando carne humana e, pelo exemplo de sua vida, levasse o homem a enamorar-se da santa humildade e detestar a soberba, que nos torna odiosos aos homens e a Deus.

Por isso São Bernardo nos convida hoje a visitar a gruta de Belém: Vamos até Belém; ali temos o que admirar, amar e imitar. Primeiro, teremos o que admirar: um Deus em estábulo, um Deus sobre palhas! Isaías contemplou o Senhor sobre trono elevado; agora vemos esse Deus numa manjedoura, desconhecido e abandonado, rodeado apenas por dois animais e alguns pobres pastores. Encontraremos ali a quem dar nosso afeto: um Deus, Bem infinito, que quis rebaixar-se aparecendo como pobre menino para nos ser mais amável e querido. Quanto mais humilhado por mim, tanto mais querido, diz o mesmo São Bernardo. Encontraremos também o que imitar: o excelso Rei do céu feito humilde, pequeno e pobre menino, que começa a ensinar com o exemplo o que depois nos dirá: «Aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração». Peçamos luz a Jesus e Maria.

Quem ignora que Deus é a primeira e suprema nobreza, da qual depende toda nobreza? É grandeza infinita, independente, que sempre possuiu em si mesmo. É Senhor de tudo e todas as criaturas lhe obedecem. Com razão diz o Apóstolo que somente a Deus pertencem honra e glória. O Verbo eterno, porém, para remediar a desgraça do homem perdido pelo orgulho, assim como se fez exemplo de pobreza para desapegá-lo dos bens mundanos, quis tornar-se exemplo de humildade para libertá-lo da soberba. O primeiro e maior exemplo foi fazer-se homem e revestir-se de nossas misérias. Cassiano diz que quem veste a roupa de outra pessoa se esconde debaixo dela: assim Deus ocultou sua natureza divina sob a humilde veste da carne humana. São Bernardo diz: A majestade contraiu-se para unir-se ao nosso lodo; numa só pessoa uniram-se Deus e lodo, majestade e fraqueza, tamanha baixeza e tamanha sublimidade. Um Deus unido ao lodo! A grandeza à miséria! E, mais admirável ainda, quis apresentar-se com a aparência de pecador, revestindo-se da semelhança da carne do pecado.

Além de aparecer como homem, escolheu entre os homens a vida mais baixa e humilde. Isaías o chamou o último dos homens; Jeremias predisse que se fartaria de afrontas, e Davi, que seria o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe. Para isso quis Jesus nascer da maneira mais humilde imaginável. Que afronta é para um homem, mesmo pobre, nascer em estábulo! Os pobres nascem em pequenas casas, ao menos sobre palha; nos estábulos nascem animais e vermes. Como verme quis nascer na terra o Filho de Deus: «Mas eu sou um verme e não homem». Com tal humildade, diz Santo Agostinho, quis nascer o Rei do universo para manifestar sua majestade e poder, tornando amantes da humildade, por seu exemplo, os homens que nascem cheios de soberba.

O anjo anunciou aos pastores o nascimento do Messias; os sinais para encontrá-lo e reconhecê-lo eram todos de humildade: um menino envolvido em panos, colocado na manjedoura, sobre palha. «E este é o sinal que vo-lo fará conhecer: Achareis um menino envolto em panos, e posto em uma mangedoura». Assim se deixa encontrar Deus, vindo à terra destruir a soberba.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Jesus desprezado, com vosso exemplo tornastes os desprezos preciosos e amáveis para quem vos ama. Como, porém, em vez de abraçá-los como vós, procedi com tanto orgulho ao receber desprezo dos homens que por causa disso cheguei a ofender-vos, majestade infinita? Pecado e soberba juntos! Senhor, entendo: não soube receber afrontas com paciência porque não soube amar-vos. Se vos amasse, elas seriam para mim doces e agradáveis.

Prometeis perdão a quem se arrepende. Com toda a alma me arrependo de minha vida desordenada, tão diversa da vossa. Quero corrigir-me e prometo sofrer em paz, de hoje em diante, todos os desprezos que receber, por amor de vós, meu Jesus, tão desprezado por meu amor. Entendo que as humilhações são minas preciosas, pelas quais enriqueceis as almas de tesouros eternos. Eu, que desprezei vossa graça, mereço outras humilhações e afrontas; mereço ser pisado pelos demônios. Os vossos merecimentos, porém, são minha esperança. Quero mudar de vida e deixar de vos desgostar; doravante quero buscar somente o vosso agrado.

Mereci muitas vezes arder no inferno. Vós, que até agora me esperastes e, como espero, já me perdoastes, fazei que arda no fogo feliz do vosso santo amor. Meu amor, não quero continuar vivendo sem vos amar. Ajudai-me para que deixe de viver sem gratidão, como no passado. Daqui em diante somente a vós quero amar; somente vosso quero que seja meu coração. Tomai posse dele para sempre, de modo que eu seja sempre vosso e vós sempre meu, que eu sempre vos ame e vós sempre me ameis. Assim espero, meu Deus amabilíssimo.

Creio em vós, bondade infinita; espero em vós, bondade infinita; amo-vos, bondade infinita. Eu vos amo e quero repetir continuamente esse amor. Porque vos amo, quero fazer tudo quanto puder para vos agradar. Disponde de mim como desejardes: basta dar-me a graça de vos amar, e podeis fazer de mim o que quiserdes. Vosso amor é e será sempre meu único tesouro, desejo, bem e amor. Maria, minha esperança e Mãe do belo amor, ajudai-me a amar muito e sempre meu amabilíssimo Deus.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Novena del Santo Natale (1758), Discorso IX, trecho integral desde a abertura «La superbia fu la prima causa» até «La vita poi che Gesù Cristo fece in Egitto» (exclusive), pp. 111-113; «Colloquio» integral em _P2NP.HTM. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.