José e Maria peregrinos em Belém, sem abrigo
JO 1,11
«Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.»
SUMÁRIO
Ao ingressarem em Belém para o recenseamento, Maria e José buscam acolhida em vão pelas casas e pela estalagem comum, sendo repelidos por sua pobreza. Essa rejeição prefigura os muitos corações que recusam guarida à graça divina para albergar as paixões do mundo.
Ponto I
Deus já havia prometido tornar-se ele próprio nosso mestre, um mestre visível aos nossos olhos que nos ensinasse o caminho da salvação: a prática das santas virtudes, principalmente da santa pobreza. Esse mestre deveria ensinar-nos pela palavra e, ainda mais, pelo exemplo de sua vida. São Bernardo diz que a pobreza não se encontrava no céu; somente na terra se podia encontrá-la, mas o homem desconhecia seu valor e não a buscava. O Filho de Deus, portanto, desceu do céu e a escolheu como companheira por toda a vida, tornando-a preciosa e desejável para nós com seu exemplo. Eis nosso Redentor Menino que, logo no começo de sua vida, se faz mestre de pobreza na caverna de Belém, chamada por São Bernardo escola de Cristo e por Santo Agostinho gruta mestra.
Para esse fim Deus dispôs a publicação do edito de César: seu Filho nasceria fora da própria casa, numa gruta que abrigava animais, o mais pobre entre os homens. Os outros pobres, ao nascerem em casa, dispõem ao menos de algum maior conforto: panos, fogo, pessoas que os socorrem por compaixão. Qual filho de pessoa pobre nasce em estábulo? Ali nascem os animais. São Lucas narra como isso aconteceu. Chegado o tempo do parto de Maria, José foi procurar pousada em Belém. Percorreu as casas, buscando, e não achou. Buscou na hospedaria e também ali não encontrou: «Porque não havia lugar para eles na estalagem». Maria foi obrigada a abrigar-se e dar à luz naquela caverna, onde, apesar da multidão de pessoas reunidas na cidade, não havia homens, mas apenas dois animais.
Para os filhos dos príncipes que nascem, preparam-se aposentos aquecidos e ornados de tapeçarias, berços de prata e os tecidos mais finos; assistem-lhes os primeiros nobres e damas do reino. Ao Rei celestial cabe uma caverna fria, revestida de ervas; um pouco de palha dura e pungente serve-lhe de leito; os panos são pobres, grosseiros, frios e úmidos. O Criador dos anjos, diz São Pedro Damião, está envolvido em humildes paninhos, sem a cobertura da púrpura; envergonhe-se o orgulho terreno onde brilha a humildade do Salvador. Recebe, como calor e assistência, apenas o hálito e a companhia de dois animais; seu berço é uma pobre manjedoura. Como?, pergunta São Gregório de Nissa: o Rei dos reis, que enche céu e terra, ao nascer só encontra um pobre cocho de animais? Aquele que abrange tudo com seu poder é reclinado numa manjedoura de irracionais? Sim, porque esse Rei quis, por nosso amor, ser pobre, o mais pobre de todos.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu querido Jesus, inflamai-me no vosso santo amor, pois para isso viestes à terra. Depois de tantas luzes e graças especiais, eu vos ofendi; por isso não mereceria arder nas felizes chamas em que ardem os santos, mas no fogo do inferno. Entretanto, estando agora fora daquela prisão merecida, ouço que vos voltais também a mim, apesar de minha ingratidão: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração». Agradeço-vos, meu Deus, por renovardes este doce preceito. Já que ordenais que vos ame, quero obedecer-vos e amar-vos com todo o coração.
Senhor, no passado procedi sem reconhecimento e em cegueira, porque quis esquecer o vosso amor por mim. Agora, porém, novamente me iluminais e me mostrais quanto fizestes por meu amor. Penso que vos fizestes homem por mim, que assumistes as minhas misérias; vejo-vos sobre as palhas, tremendo de frio, gemendo e chorando por mim. Meu Deus Menino, como poderei viver sem vos amar? Perdoai-me, meu amor, todos os desgostos que vos causei. Meu Deus, conhecendo pela fé o que sofrestes por mim, como pude ofender-vos tanto?
Essas palhas que vos ferem, a humilde manjedoura que vos recebe, vossos gemidos delicados e vossas amorosas lágrimas fazem-me esperar firmemente o perdão e a graça de amar-vos no restante da vida. Verbo encarnado, eu vos amo; Menino divino, eu vos amo e me entrego inteiramente a vós. Pelas penas que sofrestes no estábulo de Belém, acolhei este pobre pecador que deseja amar-vos. Meu Jesus, ajudai-me, dai-me perseverança: tudo espero de vós. Maria, grande Mãe deste grande Filho e a mais amada por ele, rogai-lhe por mim.

