Na cruz se acha a nossa salvação
PR 3,18
«É árvore da vida para aquêles que lançarem mão dela: E bem-aventurado o que a não largar.»
SUMÁRIO
A cruz recebida com resignação traz paz e conduz à vida eterna. O amor divino ensina a aceitar as penas para expiar as culpas, merecer o céu e agradar a Deus.
Ponto I
«Eis o lenho da cruz, no qual esteve suspensa a salvação do mundo»: assim canta a santa Igreja na Sexta-feira Santa. Na cruz estão nossa salvação, o vigor para vencer tentações e o desprendimento dos prazeres da terra e o verdadeiro amor a Deus. Resolvamo-nos a levar com paciência a cruz que Jesus Cristo nos envia e nela morrer por seu amor, como ele morreu na sua por amor de nós. O caminho de entrada no céu é resignar-se nas tribulações até morrer. Esse é também o meio de achar paz no sofrimento.
Pergunto: quando chega a cruz, que meio há de não perder a paz, senão conformar-se com a vontade divina? Se recusamos esse meio, por mais que façamos e onde quer que vamos, não escaparemos ao peso da cruz. Se, porém, a levamos de boa vontade, ela nos levará ao céu e nos dará paz na terra. Quem recusa a cruz aumenta-lhe o peso; quem a abraça e suporta pacientemente torna-o mais leve, e o peso se transforma em consolação, porque Deus concede abundantes graças a quem carrega a cruz de boa vontade para agradar-lhe.
Por natureza o sofrimento desagrada; mas o amor divino, reinando no coração, torna-o agradável. Se considerássemos o estado feliz de que gozaremos no paraíso, sendo fiéis a Deus e suportando os trabalhos sem queixa, diríamos com Jó: «E seja esta a minha consolação, que ele me aflija com dor, sem me poupar, e que eu não contradiga as palavras do Santo». Se somos pecadores e merecemos o inferno, seja nosso conforto nas tribulações ver-nos castigados nesta vida: constitui sinal certo da vontade divina de livrar-nos do castigo sem fim. Pobre pecador que prospera nesta terra! Quem sofre grande tribulação olhe para o inferno merecido: parecer-lhe-á leve qualquer pena presente.
Se cometemos pecados, seja contínua nossa oração: Senhor, não me poupeis as dores; afligi-me, mas dai-me também força para suportá-las pacientemente, para que não me oponha à vossa santa vontade e em tudo me conforme com o que dispondes, dizendo sempre com Jesus Cristo: «Assim é, Pai, porque assim foi do teu agrado». Senhor, assim vos agradou fazer: assim se faça.
Ponto II
A alma governada pelo amor divino procura somente Deus. «Se um homem der pelo amor todas as riquezas de sua casa, desprezá-las-á como se não fossem nada». Quem ama a Deus despreza e abandona tudo o que não serve para amá-lo. Pelas obras boas, penitências e trabalhos realizados para sua glória, não busca consolações ou doçuras espirituais: basta saber que agrada a Deus. Em tudo e continuamente procura renunciar a si, deixando cada prazer próprio; depois disso não se vangloria nem se ensoberbece, mas chama-se servo e, colocando-se em último lugar, entrega-se à vontade e à misericórdia divinas.
Para chegar à santidade precisamos mudar o paladar. Se não fizermos que o doce nos saiba amargo e o amargo doce, jamais alcançaremos união perfeita com Deus. Nossa segurança e perfeição estão em suportar com resignação todas as contrariedades diárias, pequenas e grandes. Devemos sofrê-las pelos justos fins pelos quais o Senhor quer que as soframos: purificar as culpas cometidas, merecer a vida eterna e agradar a Deus, fim principal e mais nobre de todas as nossas obras.
Ofereçamo-nos sempre a Deus para suportar cada cruz que nos enviar. Estejamos preparados para sofrer qualquer trabalho por seu amor, para abraçá-lo prontamente quando chegar, dizendo como Jesus a Pedro no momento de ser preso no horto: «Não hei de beber eu o cálice, que meu Pai me deu?» Deus me envia esta cruz para meu bem: dir-lhe-ei que não a quero? Quando o seu peso parecer excessivo, recorramos imediatamente à oração; Deus dará força para carregá-la com mérito.
Recordemos São Paulo: nenhuma tribulação desta terra, por dura que seja, se compara com a glória preparada por Deus para a vida vindoura: «Os sofrimentos desta vida não têm proporção com a glória vindoura, que se manifestará em nós». Reanimemos, pois, a fé quando as penas nos afligirem. Olhemos primeiro para o Crucificado que agoniza por nosso amor; depois para o paraíso e os bens que Deus prepara a quem sofre por ele. Então lhe agradeceremos a pena que nos dá a sofrer e pediremos que nos conceda mais. Quanto se alegram no céu os santos por haverem sofrido por Jesus Cristo! Tudo o que passa é pequeno; grande é somente o que é eterno e jamais passa.
AFETOS E ORAÇÕES
Meu Jesus, quanto me consola ouvir vosso convite à conversão: «Convertei-vos a mim, diz o Senhor dos exércitos: E eu me converterei a vós». Abandonei-vos pelas criaturas e por meus pobres prazeres; agora deixo tudo e volto para vós. Tenho certeza de que, desejando amar-vos, encontrarei acolhimento, pois me dizeis que estais pronto a abraçar-me. Recebei-me em vossa graça e dai-me conhecimento da grandeza do vosso Bem e de vosso amor por mim, para que não volte a abandonar-vos.
Meu Jesus, meu amado, meu amor, perdoai todos os desgostos que vos causei. Dai-me o vosso amor e disponde depois de mim como desejardes. Castigai-me quanto quiserdes, privai-me de tudo, mas conservai-me a vós. Ainda que o mundo inteiro me oferecesse todos os bens, declaro que somente a vós desejo. Maria, recomendai-me ao vosso Filho: ele vos concede tudo o que pedis. Em vós confio.

