Da assistência à santa Missa
EX 12,6
«E tôda a multidão dos filhos de Israel o imolará pela tarde.»
SUMÁRIO
O sacrifício da Missa é o mesmo do Calvário e aplica-nos os méritos da Paixão. Santo Afonso ensina a unir-se à oferta de Jesus para honrar a Deus, satisfazer pelos pecados, agradecer os benefícios e pedir as graças necessárias.
Ponto IO sacrifício do altar e os seus quatro fins
Para assistir devotamente à Missa, é preciso compreender que o sacrifício do altar é aquele mesmo que, certa vez, se realizou no Calvário. A diferença é que ali o sangue de Jesus Cristo foi derramado realmente; aqui, derrama-se de modo místico. Se estivéssemos então no Calvário, com que devoção e ternura teríamos acompanhado aquele grande sacrifício! Reavivemos, pois, a fé e consideremos que no altar se realiza a mesma ação de então. Esse sacrifício é oferecido não apenas pelo sacerdote, mas também por todas as pessoas presentes; assim, de certo modo, todos exercem o ofício de sacerdotes durante a celebração da Missa, na qual os méritos da Paixão do Salvador nos são aplicados particularmente.
Saibamos, além disso, que o sacrifício da Missa foi instituído para quatro fins: honrar a Deus; satisfazer pelos nossos pecados; agradecer-lhe os benefícios; e obter graças. Eis como assistir à Missa com grande fruto. Primeiro: ao oferecer ao Pai eterno a pessoa de Jesus, homem e Deus, presta-se a Deus uma honra infinita, maior do que se lhe fossem oferecidas as vidas de todos os seres humanos e de todos os anjos. Segundo: pela oferta de Jesus Cristo na Missa, presta-se a Deus plena reparação pelos pecados de toda a humanidade, especialmente pelos daqueles que assistem. A estes é aplicado o mesmo sangue divino com que, no Calvário, foi resgatado o gênero humano. Portanto, cada Missa dá a Deus maior satisfação pelas nossas culpas do que qualquer outra obra satisfatória. Entretanto, embora o valor da Missa seja infinito, Deus a aceita de modo limitado, conforme a disposição de quem a acompanha; por isso é proveitoso assistir a várias Missas. Terceiro: na Missa, prestamos a Deus um agradecimento digno de todos os benefícios que dele recebemos. Quarto: durante a Missa, podemos obter todas as graças que desejamos para nós e para outras pessoas.
Não merecemos receber graças; contudo, Jesus Cristo nos deu o meio de alcançar merecimento para qualquer graça: pedi-la ao Pai eterno em nome dele, oferecendo-o na Missa. Nesse momento, o próprio Jesus une-se à nossa oração. Se soubéssemos que, enquanto rogamos ao Senhor, a divina Mãe e todo o paraíso se unem à nossa súplica, com quanta confiança não rezaríamos! Ora, quando durante a Missa nos aplicamos a pedir alguma graça a Deus, Jesus também roga por nós e oferece em nosso favor os méritos de sua Paixão. E as preces de Jesus valem infinitamente mais do que as de todo o paraíso.
Ponto IIComo unir-se à oferta de Jesus Cristo
Convém, pois, dividir a Missa em quatro partes. No primeiro intervalo, do início até o fim do Evangelho, oferecei a Deus aquele sacrifício para honrá-lo, dizendo: «Meu Deus, adoro a vossa majestade infinita. Quisera honrar-vos conforme mereceis; mas que honra posso eu prestar-vos, pobre alma pecadora? Ofereço-vos a honra que Jesus vos presta neste altar.» No segundo intervalo, do Evangelho até a elevação, oferecei o sacrifício em satisfação pelos vossos pecados, dizendo: «Senhor, abomino e deploro, acima de qualquer mal, todos os desgostos que vos causei. Para satisfazer por eles, ofereço-vos o vosso Filho, que de novo se sacrifica por nós neste altar. Pelos méritos dele, suplico-vos o perdão e a santa perseverança.» No terceiro intervalo, da elevação até a comunhão, oferecei Jesus ao Pai eterno em agradecimento por todas as graças recebidas, dizendo: «Senhor, não tenho com que agradecer-vos; ofereço-vos o sangue de Jesus Cristo nesta Missa e em todas as Missas que neste momento se celebram na terra.» No quarto intervalo, da comunhão até o término, pedi confiadamente as graças de que tendes necessidade, especialmente a dor pelos pecados, a perseverança e o amor divino. Recomendai a Deus de modo particular as irmãs do mosteiro, os vossos parentes, os pecadores e as almas do purgatório.
Não reprovo que durante a Missa se recitem também as orações vocais habituais; desejaria, porém, que ao mesmo tempo não se deixasse de satisfazer para com Deus aquelas quatro dívidas: de honra, de satisfação, de agradecimento e de súplica. Peço-vos ainda que assistais a quantas Missas puderdes. Cada Missa ouvida do modo que vos indiquei produzirá para vós um tesouro de méritos. Se vos sobrar algum dinheiro, procurai mandar celebrar Missas na vossa igreja, tanto para vosso proveito como para que as religiosas possam assisti-las com facilidade. Peço, porém, que não se imite a conduta daquelas religiosas que, no afã de ouvir muitas Missas, aplaudem os sacerdotes que as celebram precipitadamente, tratando muito mal as cerimônias e causando grave escândalo a quem assiste. Leia-se o que ficou escrito ao fim do número VII do capítulo anterior, nos avisos à abadessa.
Quanto à confissão e à comunhão, não é necessário acrescentar aqui outras coisas, pois delas se tratou suficientemente no capítulo XVIII.

