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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Das secas espirituais

TERÇA-FEIRA, 9 DE NOVEMBRO · DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO SANTÍSSIMO SALVADOR

Das secas espirituais

LM 1,13

«Ele enviou lá do alto um fogo sobre meus ossos, -e me ensinou: Estenderei uma rêde aos meus pés, fez-me cair para trás: Pôs-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia.»

SUMÁRIO

A devoção verdadeira permanece fiel mesmo sem consolações. Nas trevas espirituais, a alma deve humilhar-se, confiar na misericórdia e entregar-se à vontade divina.

Ponto I

São Francisco de Sales ensina que a devoção verdadeira e o amor verdadeiro a Deus não consistem em sentir consolações espirituais na oração e nos outros exercícios devotos, mas em ter uma vontade resoluta de fazer e querer somente o que Deus quer. Esse é o único fim com que devemos fazer a oração mental, as comunhões, mortificações e tudo o mais que agrada a Deus, ainda que o façamos sem gosto e entre mil tentações e indisposições de espírito. «Com aridez e tentações», diz Santa Teresa, «o Senhor prova quem o ama. Embora a aridez dure toda a vida, a alma não abandone a oração: virá tempo em que tudo lhe será muito bem pago».

Como advertem os mestres de espírito, no tempo da desolação devemos exercitar-nos principalmente em atos de humildade e resignação. Não existe tempo melhor para conhecer nossa impotência e miséria do que quando sentimos aridez na oração, tédio, distração e indisposição, sem fervor sensível e mesmo sem desejos sensíveis de avançar no amor divino. Então diga a alma: Senhor, tende piedade de mim; vede como sou incapaz até de fazer um ato bom. É preciso também resignar-se: Meu Deus, quereis manter-me assim em obscuridade e aflição; seja feita sempre a vossa vontade. Não quero receber consolação; basta-me estar aqui somente para vos agradar. Assim devemos perseverar na oração até o tempo determinado.

A maior pena das almas de oração não é tanto a aridez quanto a obscuridade em que a alma se vê despojada de toda boa vontade e tentada contra a fé e a esperança. Às vezes juntam-se ímpetos de tentações de tal variedade que ela fica com grande temor de ter perdido também a graça divina. Parece-lhe que Deus, por suas faltas, a rejeitou e abandonou, de modo que se vê como odiada por ele. Nesse tempo até a solidão a atormenta e a oração lhe parece um inferno.

Então é preciso ter coragem e saber que aqueles temores de ter consentido na tentação ou na desconfiança são temores, tormentos da alma, e não atos voluntários: por isso estão livres de pecado. Nesse tempo a pessoa resiste às tentações com a vontade, mas, pelas trevas que a envolvem, não chega a conhecê-lo distintamente. Isso se manifesta depois pela experiência: se lhe fosse proposto cometer um simples pecado venial deliberado, a alma que ama a Deus aceitaria mil vezes a morte antes de cometê-lo.

Não se aflija então querendo certificar-se de que permanece na graça divina e não cometeu pecado. Quereis conhecer com certeza que Deus vos ama; Deus, porém, nesse tempo não quer dar-vos esse conhecimento, mas quer que vos ocupeis somente em humilhar-vos, confiar na sua bondade e resignar-vos ao seu querer. Quereis ver, e Deus não quer que vejais. Ademais, São Francisco de Sales diz que a resolução que tendes, ao menos no ápice da vontade, de amar a Deus e não lhe causar o menor desgosto deliberado vos assegura que estais na sua graça. Abandonai-vos então nos braços da misericórdia divina; declarai que não quereis senão Deus e sua vontade, e não temais. Quanto são caros ao Senhor esses atos de confiança e resignação feitos em meio a trevas tão assustadoras!

Santa Joana de Chantal sofreu durante quarenta e um anos essas penas interiores, acompanhadas de tentações terríveis, do temor de estar em pecado e de ter sido abandonada por Deus. A pena era tão grande que dizia que só o pensamento da morte lhe dava algum alívio. Dizia: «Às vezes parece que a paciência foge e fico a ponto de deixar tudo e abandonar-me à perdição». Nos últimos oito ou nove anos da vida, suas tentações, em vez de diminuir, tornaram-se mais violentas. Quer fizesse oração, quer trabalhasse, seu martírio interior era tão grande que causava compaixão a quem a conhecia.

Parecia-lhe às vezes que Deus a rejeitava. Para aliviar-se, desviava de Deus o olhar; não encontrando o alívio procurado, tornava a olhar para Deus, embora lhe parecesse indignado contra ela. Na oração, na comunhão e nos demais exercícios devotos, só sentia tédio e agonia. Parecia-lhe ser como uma pessoa enferma, oprimida de males e incapaz de voltar-se para o outro lado; muda, sem poder explicar suas angústias; cega, sem ver porta alguma para sair daquele abismo. Parecia-lhe ter perdido o amor, a esperança e a fé. Contudo, mantinha o olhar fixo em Deus, descansando nos braços da vontade divina. São Francisco de Sales dizia, em suma, que sua alma bendita era como um músico surdo que canta excelentemente, mas não goza da própria voz porque não a ouve.

A alma que se encontra na prova da aridez, por mais oprimida que se veja pelas trevas, não perca a coragem. Confie no sangue de Jesus Cristo, resigne-se ao querer divino e diga:

AFETOS E ORAÇÕES

Jesus, minha esperança e único amor que tem minha alma, não mereço consolações: dai-as a quem sempre vos amou. Eu mereci o inferno e ser ali abandonado por vós para sempre, sem esperança de poder ainda amar-vos. Mas não, meu Salvador: aceito qualquer pena; puni-me quanto quereis, mas não me priveis de poder amar-vos. Tirai-me tudo, mas não a vós. Na minha miséria, amo-vos mais do que a mim, entrego-me inteiramente a vós; já não desejo viver em proveito próprio. Dai-me força para vos ser fiel. Virgem Santíssima, esperança dos pecadores, confio na vossa intercessão: fazei-me amar meu Deus, que me criou e remiu.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Riflessioni divote sopra diversi punti di spirito (1773), § 39 («Dell’aridità di spirito»), seção inteira e oração, pp. 306–307 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.