Rezar

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Necessidade da oração

TERÇA-FEIRA, 26 DE OUTUBRO · TERÇA-FEIRA — FÉRIA DEPOIS DE PENTECOSTES

Necessidade da oração

LC 18,1

«E propôs-lhes também Jesus esta parábola, para mostrar que importa orar sempre, e não cessar de o fazer,»

SUMÁRIO

A oração obtém os auxílios necessários à salvação. A alma pede a graça de recorrer sempre a Deus e a Maria nas tentações.

Ponto I

Consideremos também a necessidade da oração. São João Crisóstomo diz que, assim como o corpo sem alma está morto, a alma sem oração está morta. Diz igualmente que, assim como as plantas precisam de água para não secarem, a oração nos é necessária para não nos perdermos: «Necessitamos das preces não menos que as árvores necessitam das águas».

Deus deseja a salvação de todos: «O qual quer que todos os homens se salvem» (1 Tm 2,4). Não deseja que alguém se perca: «Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns entendem: Mas espera com paciência por amor de vos, não querendo que algum pereça, senão que todos se convertam à penitência.» (2 Pd 3,9). Quer, porém, que lhe peçamos as graças necessárias para salvar-nos. De um lado, somos incapazes de cumprir os mandamentos divinos e alcançar a salvação sem o auxílio atual do Senhor; de outro, ordinariamente ele não deseja conceder-nos as graças se não as pedimos.

Por isso o sagrado Concílio de Trento declarou que Deus não impõe mandamentos impossíveis: ou nos concede a graça próxima e atual para observá-los, ou nos concede a graça de pedir-lhe esse auxílio atual. «Deus não ordena coisas impossíveis; ao ordenar, adverte que façais o que podeis e peçais o que não podeis, e auxilia para que possais». Santo Agostinho ensina que, excetuadas as primeiras graças, como o chamado à fé ou à penitência, todas as demais, especialmente a perseverança, Deus as concede somente a quem reza: «É certo que Deus concede algumas coisas mesmo a quem não pede, como o começo da fé; outras, como a perseverança até o fim, preparou somente para quem pede».

Disso os teólogos, com São Basílio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, Clemente de Alexandria e outros, concluem que, para as pessoas adultas, a oração é necessária como meio de salvação. Sem rezar, é impossível alcançar a salvação. O doutíssimo Léssio diz que isso deve ser tido como matéria de fé: «Deve-se crer que a oração é necessária à salvação das pessoas adultas, como se conclui das Escrituras». As Escrituras são claras: «E propôs-lhes também Jesus esta parábola, para mostrar que importa orar sempre, e não cessar de o fazer,» (Lc 18,1); «E quando chegou àquele lugar, lhes disse: Orai para que não entreis em tentação.» (Lc 22,40); «Vós até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi, e recebereis, para que o vosso gôzo seja completo.» (Jo 16,24); «Orai sem intermissão.» (1 Ts 5,17).

Essas palavras — é necessário, orai, pedi —, segundo a sentença comum dos doutores com São Tomás, exprimem um preceito que obriga sob culpa grave, especialmente em três casos: quando a pessoa está em pecado, quando corre perigo de morte e quando corre grave perigo de pecar. Ordinariamente, os doutores ensinam que quem passa um mês, ou no máximo dois, sem rezar não fica isento de pecado mortal; veja-se Léssio no lugar citado. A razão é que a oração é o meio necessário para recebermos os auxílios necessários para preservar-nos dos pecados. «Pedi, e recebereis». Quem pede recebe; portanto, diz Santa Teresa, quem não pede não recebe. Antes dela já dissera São Tiago: «Cobiçais, e não tendes o que quereis: Matais e invejais, e não podeis alcançar o que desejais: Litigais e fazeis guerra, e não tendes o que pretendeis, porque não pedis.» (Tg 4,2).

A oração é especialmente necessária para obter a virtude da continência: «E como eu sabia que de outra maneira não podia ter continência, se Deus ma não desse, e isto era já um efeito da sabedoria, saber eu de quem havia de receber este dom: Encaminhei-me ao Senhor, e fiz-lhe a minha súplica, e disse-lhe de todo o meu coração.» (Sb 8,21).

Concluamos este ponto: quem reza certamente alcança a salvação; quem não reza certamente se condena. Todas as pessoas que se salvaram alcançaram a salvação pela oração; todas as que se condenaram perderam-se por não rezar. Essa é e será eternamente sua maior desesperação no inferno: poderiam tão facilmente ter alcançado a salvação pela oração, e agora já não há tempo para isso.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Redentor, como pude viver no passado com tamanho esquecimento de vós? Estáveis disposto a conceder-me todas as graças que eu pedisse, esperando somente meu pedido. Eu, porém, só pensei em satisfazer meus sentidos, pouco me importando ficar privado de vosso amor e de vossas graças. Senhor, esquecei tamanha ingratidão e olhai para mim com piedade. Perdoai os desgostos que vos causei e concedei-me perseverança.

Dai-me a graça de suplicar continuamente vosso auxílio, para não vos ofender, Deus da minha alma. Não permitais que eu descuide disso como antes descuidei. Concedei-me luz e força para sempre recorrer a vós, especialmente quando os inimigos me tentarem a ofender-vos novamente. Meu Deus, concedei-me essa graça pelos merecimentos de Jesus Cristo e pelo amor que lhe tendes. Senhor meu, bastam as ofensas que cometi: quero amar-vos na vida que me resta. Concedei-me vosso santo amor; que ele me recorde pedir-vos auxílio sempre que me vir em perigo de perder-vos em consequência do pecado.

Maria, esperança minha, aguardo de vós a graça de recorrer sempre a vós e a vosso Filho nas tentações. Ouvi-me, minha Rainha, por todo o amor que tendes a Jesus Cristo.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione XXX, «Della preghiera», Punto II inteiro e «Affetti e preghiere», pp. 294–297 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.