A morte do justo é a entrada na vida
SL 117,20
«Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela:»
SUMÁRIO
Para a alma na graça de Deus, a morte abre a vida eterna. A esperança dessa passagem inspira confiança e amor.
Ponto I
A morte é o fim dos trabalhos e também a porta da vida: «Fim dos trabalhos, porta da vida», diz São Bernardo. Deve necessariamente atravessar essa porta quem deseja entrar na visão de Deus (Sl 117,20): «Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela:». À morte dirigia São Jerônimo sua súplica: «Abri-me, minha irmã». «Morte, irmã minha, se não me abres a porta, não posso ir gozar de meu Senhor».
São Carlos Borromeu, ao contemplar em sua residência um quadro com o esqueleto de um morto segurando uma foice, chamou o pintor e mandou apagar a foice e pintar em seu lugar uma chave de ouro. Desejava assim inflamar-se ainda mais no desejo da morte, pois ela nos há de abrir o paraíso para contemplarmos Deus.
São João Crisóstomo diz: se um rei preparasse para alguém uma morada no palácio, mas por ora lhe mandasse morar num curral, quanto essa pessoa desejaria sair do curral e passar ao palácio! Nesta vida, a alma no corpo está como numa prisão, de onde deve sair para ir ao palácio celeste. Por isso Davi rezava (Sl 141,8): «Tira do cárcere a minha alma, para dar glória ao teu nome: A mim me estão esperando os justos, até que me dês a retribuição.». O santo ancião Simeão, ao tomar nos braços o Menino Jesus, não soube pedir outra graça senão a morte, para ficar livre do cárcere desta vida (Lc 2,29): «Agora é, Senhor, que tu despedes ao teu servo em paz, segundo a tua palavra:». Santo Ambrósio diz: «Pede ser despedido, como se estivesse retido por necessidade». O Apóstolo desejou a mesma graça, dizendo (Fl 1,23): «Pois me vejo em apêrto por duas partes: Tendo desejo de ser desatado da carne, e estar com Cristo, que é sem comparação muito melhor.».
Que alegria sentiu o copeiro de Faraó quando ouviu de José que em breve sairia da prisão e voltaria a seu cargo! Uma alma que ama a Deus não se alegrará ao saber que logo terá liberdade desta terra e irá gozar de Deus? (2 Cor 5,6): «Por isto vivemos sempre confiados, sabendo que enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor:». Enquanto estamos unidos ao corpo, permanecemos longe da visão de Deus, como em terra estrangeira, fora de nossa pátria. São Bruno diz, portanto, que nossa morte deve ser chamada vida, antes que morte: «Não deve chamar-se morte, mas começo da vida». Por isso a morte dos santos recebe o nome de seu nascimento: nela nascem à vida bem-aventurada, que não terá mais fim. «Para os justos não há morte, mas passagem», diz Santo Atanágio. Para a alma justa, a morte é apenas a passagem à vida eterna.
«Ó morte amável», dizia Santo Agostinho, «quem não te desejará, se és o termo dos trabalhos, o fim da fadiga e o começo do repouso eterno? Ó morte desejável, fim dos males, encerramento dos trabalhos, início do descanso!» Por isso o santo rezava com ardor: «Que eu morra, Senhor, para vos ver».
São Cipriano diz que deve temer a morte o pecador que, da morte temporal, há de passar à morte eterna; não, porém, quem, na graça divina, espera passar pela morte à vida. Na Vida de São João Esmoler, narra-se que um homem rico lhe confiou seu único filho e lhe deu muitas esmolas, a fim de obter-lhe de Deus longa vida. Pouco depois, porém, o filho morreu. Quando o pai se queixou, Deus lhe enviou um anjo que disse: «Pediste longa vida para teu filho: sabe que já a goza eternamente no céu».
Essa foi a graça que Jesus Cristo nos obteve, como fora prometido por Oseias (Os 13,14): «Eu os livrarei do poder da morte: Eu os resgatarei da morte; ó morte, eu serei a tua morte; ó inferno, eu serei a tua mordedura: A consolação está escondida de meus olhos.». Ao morrer por nós, Jesus fez que nossa morte se tornasse vida. São Piônio, mártir, ao ser levado ao suplício, ouviu daqueles que o conduziam a pergunta de como podia ir com tanta alegria para a morte. Respondeu: «Enganais-vos: não caminho para a morte, mas para a vida». Assim também sua mãe animou o jovem São Sinforiano, quando estava perto do martírio: «Filho, a vida não te é tirada; é mudada para melhor».
AFETOS E ORAÇÕES
Deus da minha alma, no passado vos desonrei, abandonando-vos; mas vosso Filho vos honrou ao sacrificar na cruz a própria vida. Pela honra que vos deu vosso Filho dileto, perdoai a desonra que vos causei. Arrependo-me de vos ter ofendido, sumo bem, e prometo, de agora em diante, dirigir meu amor somente a vós. De vós espero a salvação. Todo bem que tenho agora é vossa graça; reconheço que tudo vem de vós: (1 Cor 15,10): «Mas pela graça de Deus, sou o que sou, e a sua graça não tem sido vã em mim; antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos êles: Não eu contudo, mas a graça de Deus comigo.».
Se antes vos desonrei, espero honrar-vos eternamente bendizendo vossa misericórdia. Sinto grande desejo de vos amar; vós mo concedeis, e eu vos agradeço, amor meu. Continuai a ajudar-me como começastes: espero pertencer-vos daqui por diante, inteiramente. Renuncio aos prazeres do mundo. Que prazer maior poderia ter que agradar-vos, Senhor tão amável, que tanto me amastes?
Só amor vos peço, Deus meu: amor, amor. Espero continuar a pedir-vos amor até que, morrendo no vosso amor, chegue ao reino do amor. Ali, sem precisar pedi-lo, meu ser estará cheio de amor e nunca deixará, nem por um instante, de vos amar eternamente, com todas as forças. Maria, minha Mãe, que tanto amais vosso Deus e tanto desejais vê-lo amado, fazei que eu o ame muito nesta vida, para muito o amar na outra, sem fim.

