Festa da Exaltação da Santa Cruz
GL 6,14
«Mas nunca Deus permita que eu me glorie, senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo: Por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo.»
SUMÁRIO
A sagrada Cruz como caminho obrigatório da salvação e insígnia dos verdadeiros discípulos de Cristo, que encontram no padecer com amor o maior penhor da amizade divina e da glória futura.
Ponto I
Esta terra presente é habitação de merecimentos e, por conseguinte, vale de dores e tribulações. A verdadeira pátria na qual o Senhor nos preparou repouso em júbilo sempiterno é unicamente o paraíso. Nesta existência mortal é breve a duração de nossos dias, porém nessa curta peregrinação multiplicam-se os trabalhos e aflições que nos cumpre atravessar: «O homem nascido da mulher, que vive breve tempo, é cercado de muitas misérias.» (Jó 14,1). Todos os homens têm de sofrer, justos e pecadores; a cada um cabe levar a própria cruz. Aquele que a sustenta com santa paciência alcança a vida perpétua; aquele, porém, que a arrasta com revolta condena-se a si mesmo.
Eis a razão pela qual o Verbo Eterno desceu dos céus e revestiu a nossa fraqueza: para ensinar-nos com os seus passos a carregar as provações que Deus nos envia: «Porque para isto é que vós fostes chamados: Posto que Cristo padeceu também por nós, deixando-vos exemplo para que sigais as suas pisadas:» (1 Pd 2,21). O mérito de uma alma que consagra afeição a Jesus consiste precisamente em amar e padecer. Revelou o Salvador à serafina de Ávila: «Crês porventura, minha filha, que o mérito reside no gozar? Não, consiste em suportar aflições e amar. Contempla a minha existência repleta de dores. Tem por certo que quem é mais dileto a meu Pai, esse recebe maiores cruzes; a afeição mede-se pela tribulação». Apareceu igualmente o Redentor à Bem-Aventurada Batista Varani, significando-lhe que três privilégios de predileção concede às suas almas queridas: o primeiro é livrá-las do pecado; o segundo, impeli-las a boas obras; e o terceiro, superior a todos, fazê-las padecer por amor do seu santo Nome.
Ponto II
Por isso os santos, longe de repelirem as aflições temporais, rendiam por elas solenes louvores a Deus. Como adverte o Apóstolo São Paulo: «Porque eu tenho para mim que as penalidades da presente vida, não têm proporção alguma com a glória vindoura que se manifestará em nós.» (Rm 8,18). Seria inestimável ganho atravessar todas as agruras dos santos mártires por toda a vida temporal a troco de um só momento da visão beatífica; com quanto maior prontidão devemos abraçar os sofrimentos momentâneos, sabendo que as provações desta breve vida operam em nós um peso incomparável de bem-aventurança eterna: «Porque o que aqui é para nós de uma tribulação momentânea, e ligeira, produz em nós, de um modo todo maravilhoso no mais alto grau, um pêso eterno de glória,» (2 Cor 4,17).
Esta convicção inspirava São Francisco a exclamar que é tamanha a recompensa prometida que qualquer amargura se torna deleite espiritual. Não há coroa celeste sem peleja, nem virtude sólida sem resignação paciente. Diante da cruz, Santa Teresa pedia: «Ou padecer ou morrer»; e São João da Cruz, quando o Salvador crucificado lhe perguntou qual prêmio desejava em paga dos seus trabalhos, respondeu com sublime desprendimento: «Domine, pati et contemni pro te» — Senhor, vendo-vos coberto de opróbrios por meu resgate, nada mais vos suplico senão padecer e ser desprezado por amor de vós.
AFETOS E ORAÇÕES
Sim, amabilíssimo Redentor meu, se vós, sendo a inocência suprema, vos dignastes suportar agonias cruéis e afrontas indizíveis para me salvar, entrando no vosso reino unicamente pela vereda da dor, como poderia eu, réu de justiça e merecedor do abismo, recusar o sofrimento passageiro? Enviai-me as contrariedades que vossa sabedoria decretar, mas dai-me simultaneamente a fortaleza de sustentá-las com resignação e santa mansidão. Concedei-me que, venerando na terra o estandarte glorioso da vossa santa Cruz, mereça fruir na eternidade as bênçãos infinitas que nela conquistastes para as nossas almas. Amém.

