Rezar

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Condições da oração

QUARTA-FEIRA, 21 DE JULHO · SÃO LOURENÇO DE BRÍNDISI

Condições da oração

TG 4,3

«Pedís e não recebeis: E isto porque pedis mal: Para satisfazerdes as vossas paixões.»

SUMÁRIO

A oração pede humildade, confiança e perseverança; as graças espirituais devem ser pedidas com firme esperança.

Ponto I

Consideremos, por fim, as condições da oração. Muitas pessoas rezam sem obter o que pedem, pois não rezam como devem: «Pedís e não recebeis: E isto porque pedis mal: Para satisfazerdes as vossas paixões.» (Tg 4,3). Para rezar bem é necessária, em primeiro lugar, a humildade: «Porém dá maior graça. Por isso diz: Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes.» (Tg 4,6). Deus não atende aos pedidos de quem se ensoberbece; pelo contrário, não deixa partir sem resposta a oração de quem se humilha: «A oração do que se humilha, penetrará as nuvens e não se consolará enquanto lá não chegar: E não se retirará até que o Altíssimo ponha nele os olhos.» (Eclo 35,21). Isso vale também para quem pecou no passado: «Sacrifício para Deus é o espírito atribulado: Ao coração contrito, e humilhado não o desprezarás, ó Deus.» (Sl 50,19).

Em segundo lugar, é necessária a confiança: «Olhai, filhos, para quantos homens têm havido nas nações: E sabei que nenhum esperou no Senhor, que fôsse confundido.» (Eclo 2,11). Por isso Jesus Cristo ensinou-nos a chamar Deus de Pai ao pedir suas graças — Pai nosso —, para que o procuremos com a confiança com que uma criança recorre ao próprio pai. Quem pede com confiança alcança tudo: «Por isso vos digo, tôdas as coisas que vós pedirdes orando, crêde que as haveis de haver, e que assim vos sucederão.» (Mc 11,24). Quem poderia temer, pergunta Santo Agostinho, que lhe faltasse aquilo que a própria Verdade, que é Deus, prometeu? «Quem teme ser enganado, quando a Verdade promete?» Deus não se comporta como as pessoas que fazem promessas e depois as quebram, seja por mentirem ao prometer, seja por mudarem de vontade: «Deus não é como o homem capaz de mentir, nem como o filho do homem, sujeito a mudanças. Êle pois disse, e não o fará? Falou, e não o cumprirá?» (Nm 23,19). E por que, acrescenta Santo Agostinho, o Senhor tanto nos exortaria a pedir graças, se não quisesse concedê-las? «Não nos aconselharia a pedir se não quisesse dar.» Ao prometer, quis obrigar-se a conceder as graças que lhe pedimos: «Pela promessa fez-se nosso devedor.»

Mas alguém dirá: Sou pecador; não mereço que Deus me atenda. São Tomás responde que, ao alcançar graças, a oração não se apoia em nossos merecimentos, mas na compaixão divina: «A oração, para impetrar, não se funda em nossos méritos, e sim unicamente na misericórdia de Deus.» «Porque todo aquêle que pede, recebe: E o que busca, acha: E ao que bate, se lhe abrirá.» (Lc 11,10). O autor da Obra imperfeita explica: «Todos, tanto justos como pecadores.» Nosso próprio Redentor dissipou esse temor, dizendo: «E naquele dia nada mais me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: Se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, êle vo-la-á de dar.» (Jo 16,23). É como se dissesse: Pecadores, se não tendes merecimentos, eu os tenho diante de meu Pai. Pedi, portanto, em meu nome: prometo que recebereis o que pedirdes.

Entenda-se, entretanto, que essa promessa não se refere às graças temporais, como saúde, bens materiais e coisas semelhantes. Muitas vezes o Senhor as nega com justiça, porque vê que prejudicariam nossa salvação eterna. Santo Agostinho diz: «O médico sabe melhor que o enfermo aquilo que lhe convém.» E acrescenta: «Deus, favorável, nega aquilo que concede quando está irado.» Por isso os bens temporais devem ser pedidos sob a condição de que aproveitem à alma. Já as graças espirituais — perdão, perseverança, amor divino e outras semelhantes — devem ser pedidas sem essa condição, com firme confiança de alcançá-las. Jesus Cristo disse: «Pois se vós outros, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos: Quanto mais o vosso Pai celestial dará espírito bom aos que lho pedirem?» (Lc 11,13).

Sobretudo, é preciso perseverar na oração. Cornélio a Lápide diz que o Senhor «quer nossa perseverança na oração até a importunação». Esse é o sentido das passagens: «E propôs-lhes também Jesus esta parábola, para mostrar que importa orar sempre, e não cessar de o fazer,» (Lc 18,1); «Vigiai pois, orando em todo o tempo, a fim de que vos façais dignos de evitar todos êstes males, que têm de suceder, e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do homem.» (Lc 21,36); «Orai sem intermissão.» (1Ts 5,17). É também o sentido destas palavras reiteradas: «Portanto eu vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á: Buscai, e achareis: Batei, e abrir-se-vos-á.» (Lc 11,9). Bastaria dizer: Pedi. Mas o Senhor quis mostrar que devemos agir como quem mendiga: continuar pedindo, insistindo e batendo à porta, até receber a esmola. Especialmente a perseverança final é uma graça que não se alcança sem oração contínua. Não podemos merecê-la; pela oração, porém, Santo Agostinho afirma que de certo modo se merece: «Pode-se merecer suplicantemente esse dom de Deus, isto é, impetrá-lo pela súplica.»

Se queremos alcançar a salvação, rezemos sempre e continuemos rezando. Quem exerce o ministério da confissão ou da pregação nunca deixe de exortar à oração, se deseja ver as almas salvas. E, como diz São Bernardo, procuremos sempre a intercessão de Maria: «Busquemos a graça; busquemo-la por Maria, pois ela encontra o que procura e não pode ficar sem resposta.»

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Deus, espero que já me tenhais perdoado; meus inimigos, contudo, combaterão contra mim até o fim da vida. Sem vosso auxílio, voltarei a perder-me. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, peço-vos a santa perseverança. Não consintais que eu me afaste de vós. Peço a mesma graça por todas as pessoas que agora vivem em vossa amizade. Apoiado em vossa promessa, sei com certeza que, enquanto continuar pedindo, receberei de vós a perseverança. Mas é isso o que temo: deixar de vos procurar nas tentações e cair novamente. Concedei-me, portanto, a graça de jamais abandonar a oração. Quando houver perigo de recaída, fazei que me recomende a vós e busque auxílio invocando Jesus e Maria por seus santíssimos nomes. Meu Deus, assim proponho agir, e espero fazê-lo com vossa graça. Por amor de Jesus Cristo, ouvi-me. Maria, minha Mãe, alcançai-me que, diante do perigo de perder Deus, eu procure sempre a vós e ao vosso Filho.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione XXX, «Della preghiera», Punto III e «Affetti e preghiere», pp. 297–300 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.