A vida religiosa é mais semelhante à de Jesus Cristo
RM 8,29
«Porque os que êle conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho, para que êle seja o primogênito entre muitos irmãos.»
SUMÁRIO
A pobreza e a cruz aproximam a vida religiosa do exemplo de Jesus e da glória prometida aos que o seguem.
Ponto I
O Apóstolo diz que o Pai eterno predestina ao reino dos céus somente quem vive em conformidade com o Verbo encarnado: «Porque os que êle conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho, para que êle seja o primogênito entre muitos irmãos.» (Rm 8,29). Quanto, pois, deve alegrar-se e sentir confiança no paraíso quem abraçou a vida religiosa, vendo que Deus lhe deu a vocação para o estado que, entre os estados de vida, melhor reproduz a vida de Jesus Cristo!
Jesus quis viver pobre nesta terra: simples ajudante de um artesão, numa casa pobre, com vestes pobres e alimento pobre. (2 Cor 8,9): «Porque sabeis que a graça não foi a de nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, se fêz pobre por vosso amor, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza.». Além disso, escolheu uma vida inteiramente mortificada, afastada dos prazeres terrenos e acompanhada de penas e tristezas desde o nascimento até a morte. Por isso os profetas o chamaram homem de dores. Com isso ensinou a seus servos como deve viver quem quer caminhar atrás dele: «Então disse Jesus aos seus discípulos: Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.» (Mt 16,24).
Por esse exemplo e convite de Jesus Cristo, os santos buscaram o despojamento de todos os haveres terrenos, tomando sobre si penas e cruzes, para assim seguir seu amado Senhor. Assim fez São Bento, filho dos senhores de Núrsia e parente do imperador Justiniano: vivendo entre riquezas e delícias do mundo, aos catorze anos foi morar numa gruta no monte de Subiaco. Não recebia outro sustento senão um pedaço de pão que o monge Romano lhe trazia diariamente por esmola. Assim fez São Francisco de Assis, que renunciou em favor do pai a toda a sua parte de bens, até à camisa, e, pobre e mortificado, consagrou-se inteiramente a Jesus Cristo.
Assim fizeram São Francisco de Borja e São Luís Gonzaga: o primeiro, duque de Gandia; o segundo, senhor de Castiglione. Deixaram riquezas, estados, vassalos, pátria, casa e família, e foram viver na pobreza da vida religiosa. Assim fizeram tantas outras pessoas nobres e príncipes, até de sangue real. A Beata Zedmerra, filha do rei da Etiópia, renunciou ao reino para tornar-se religiosa dominicana. A Beata Joana de Portugal renunciou aos reinos da França e da Inglaterra para entrar na vida religiosa. Só na ordem beneditina contam-se vinte e cinco imperadores e setenta e cinco reis e rainhas que, abandonando o mundo, foram viver na pobreza, na mortificação e no esquecimento do mundo, num humilde claustro.
Ah, sim, estas pessoas, e não os grandes do mundo, são verdadeiramente felizes! Agora as pessoas mundanas as julgam insensatas; mas no vale de Josafá reconhecerão que a insensatez lhes pertencia. Ao contemplarem os santos coroados por Deus sobre seus tronos, dirão entre lágrimas e desespero: «dizendo dentro de si, tocados do arrependimento, e com angústia do espírito gemendo: tstes são aquêles, de quem nós noutro tempo fazíamos zombaria, e a quem tínhamos por objeto de opróbrio.» «Nós insensatos reputávamos a sua vida por uma loucura, e o seu fim sem honra:» «Ei-los aí como têm sido contados entre os filhos de Deus, e entre os santos está a sua sorte.» (Sb 5,3-5).
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, meu Mestre e Redentor Jesus, também eu pertenço ao número das almas felizes que chamastes a seguir-vos! Meu Senhor, agradeço-vos. Deixo tudo; quisera possuir mais coisas para abandonar, a fim de caminhar atrás de vós, meu Rei e Deus, que escolhestes uma vida tão pobre e penosa por amor de mim e para me animardes com vosso exemplo. Ide adiante, Senhor, que vos seguirei. Escolhei a cruz que quiserdes e ajudai-me, pois quero carregá-la sempre com constância e amor.
Aflige-me ter-vos abandonado no passado para seguir meus gostos e as vaidades do mundo; agora, porém, não quero deixar-vos mais. Prendei-me à vossa cruz; se alguma vez resistir por fraqueza, puxai-me pelos doces laços de vosso amor; impedi que torne a abandonar-vos. Sim, meu Jesus, renuncio a todos os contentamentos do mundo. Minha única alegria será seguir-vos, amando e suportando tudo quanto vos agrada. Espero assim encontrar-me um dia em vosso reino, unido a vós por aquele vínculo de amor eterno, pelo qual, amando-vos sem véu, já não poderei temer que ele se desfaça e me separe de vós. Meu Deus, vós sois meu tudo: eu vos amo e hei de amar-vos sempre. Esta é minha esperança, Maria Santíssima. Ninguém mais se assemelhou a Jesus do que vós; por isso, ninguém tem maior poder de impetrar graças. Sede minha proteção.

