Remorso do condenado: condenei-me por um nada
1 SM 14,43
«Disse pois Saul a Jônatas: Descobre-me o que fizeste. E Jônatas lho confessou e disse: Tomei um pouco de mel na ponta duma vara que tinha na mão, e comi dele e por isso eu morro.»
SUMÁRIO
O remorso compara os breves prazeres do pecado com a felicidade eterna perdida; hoje o arrependimento ainda abre a esperança do perdão.
Ponto I
São Tomás explica que o verme que não morre significa o remorso da consciência, pelo qual o condenado será eternamente atormentado no inferno. Muitos remorsos roerão o coração dos réprobos, mas três serão os mais dolorosos: pensar por quão pouco se condenaram; no pouco que deviam fazer para salvar-se; e, finalmente, no grande bem que perderam.
O primeiro remorso será, portanto, pensar por quão pouco alguém se perdeu. Depois que Esaú comeu o prato de lentilhas pelo qual vendera sua primogenitura, a Escritura diz que, pela dor e pelo remorso da perda, começou a gritar: «Esaú ouvidas estas palavras do pai, rompeu nuns grandes bramidos como de um leão que ruge; e todo consternado, disse: Dá-me também a mim a tua bênção, meu pai.» (Gn 27,34). Que outros gritos e rugidos soltará a alma condenada ao pensar que, por poucas satisfações momentâneas e envenenadas, perdeu um reino eterno de alegria e há de permanecer condenada a uma morte contínua! Chorará muito mais amargamente que Jônatas, quando se viu condenado à morte por Saul, seu pai, por haver comido um pouco de mel: «Disse pois Saul a Jônatas: Descobre-me o que fizeste. E Jônatas lho confessou e disse: Tomei um pouco de mel na ponta duma vara que tinha na mão, e comi dele e por isso eu morro.» (1 Sm 14,43).
Ó Deus, que pena causará à alma condenada contemplar a causa de sua condenação! Que nos parece agora nossa vida passada, senão um sonho, um instante? Que parecerão a quem está no inferno os cinquenta ou sessenta anos vividos nesta terra, quando estiver nas profundezas da eternidade? Já terão passado cem e mil milhões de anos, e verá que sua eternidade apenas começa. Mas que digo: cinquenta anos de vida? Foram talvez cinquenta anos inteiros de prazeres? Quem vive sem Deus goza sempre em seus pecados? Quanto duram os prazeres do pecado? Duram instantes; todo o restante do tempo de quem vive fora da graça é sofrimento e amargura.
Que parecerão, então, esses momentos de prazer à pobre alma condenada? E, especialmente, que parecerá aquele último pecado pelo qual se perdeu? Dirá: Portanto, por uma pobre satisfação brutal, que durou um momento e mal chegou desapareceu como o vento, deverei arder neste fogo, sem esperança, abandonado de todos, enquanto Deus for Deus, por toda a eternidade!
AFETOS E ORAÇÕES
Senhor, iluminai-me para conhecer a injustiça que pratiquei ao ofender-vos e o castigo eterno que por isso mereci. Meu Deus, sinto grande pesar por vos ter ofendido, mas esse pesar me consola. Se me tivésseis lançado no inferno, como merecia, tal remorso seria o inferno de meu inferno: pensar por quão pouco me condenei. Agora, porém, ele me consola, pois me anima a esperar vosso perdão, prometido a quem faz penitência. Sim, meu Senhor, deploro ter-vos ultrajado; abraço essa doce pena. Peço até que a aumenteis e conserveis até minha morte, para chorar sempre amargamente os desgostos que vos causei. Jesus meu, perdoai-me. Meu Redentor, para ter compaixão de mim, não tivestes compaixão de vós: entregastes-vos à morte dolorosa para me libertar do inferno. Compadecei-vos de mim. Fazei que o remorso de vos ter ofendido conserve sempre meu pesar e ao mesmo tempo me inflame de amor por vós. Tanto me amastes, com tamanha paciência me suportastes, e agora, em vez de castigos, me enriqueceis com luzes e graças! Agradeço-vos, Jesus meu, e vos amo: mais que a mim vos amo, com o coração inteiro. Não sabeis desprezar quem vos ama. Amo-vos: não me afasteis de vossa face. Recebei-me em vossa graça e não permitais que volte a perder-vos. Maria, minha Mãe, aceitai minha alma em vosso serviço e uni-me a Jesus, vosso Filho. Rogai-lhe que me perdoe, me conceda seu amor e a graça de perseverar até a morte.

