Da morte
LC 12,40
«Vós outros, pois, estai apercebidos: porque à hora que não cuidais, virá o Filho do homem.»
SUMÁRIO
A morte virá em hora desconhecida. O corpo ficará no sepulcro, e a alma entrará para sempre na eternidade; convém reconciliar-se com Deus enquanto há tempo.
Ponto I
Considera como esta vida deve terminar. A sentença já foi pronunciada: morrerás. A morte é certa; o momento da sua chegada, porém, é desconhecido. Que é preciso para morrer? Uma gota que atinja o coração, uma veia rompida no peito, o sufocamento por catarro, uma torrente impetuosa de sangue, a mordida de um pequeno animal venenoso, uma febre, uma picada, uma chaga, uma inundação, um terremoto, um raio, um relâmpago bastam para tirar-te a vida. A morte te surpreenderá quando menos pensares nela.
Quantas pessoas se deitaram ao anoitecer e ao amanhecer foram encontradas sem vida! Não poderá acontecer-te o mesmo? Muitos que faleceram subitamente não imaginavam morrer assim; contudo, assim morreram. Se estavam em pecado, onde se encontram agora? E onde permanecerão durante toda a eternidade? Seja como for, chegará certamente o tempo em que, para ti, virá a noite sem outro dia, ou chegará o dia sem que tornes a ver a noite. Jesus Cristo diz que virá como um ladrão, quando não se espera, ocultamente. O teu bom Senhor dá-te o aviso antecipadamente, porque deseja tua salvação.
Corresponde a Deus, aproveita a advertência e prepara-te para uma boa morte antes que ela chegue: «Vós outros, pois, estai apercebidos» (Lc 12,40). Naquela hora, o que importa é já haver feito a preparação, pois o tempo de fazê-la terá passado. É certo que morrerás. Para ti se encerrará o espetáculo deste mundo, e ignoras quando. Quem sabe se, daqui a um ano, a um mês, ou mesmo amanhã, ainda terás vida? Meu Jesus, dai-me luz e concedei-me o perdão.
Ponto II
Considera como, na hora de morrer, estarás num leito, com o sacerdote que recomendará tua alma, os parentes ao lado derramando lágrimas, o Crucifixo à cabeceira e a vela aos pés; estará próxima tua passagem à eternidade. Sentirás dores na cabeça, escuridão nos olhos, a língua ressequida, a garganta fechada, o peito oprimido, o sangue frio, a carne consumida, o coração trespassado. Deixarás tudo, e teu corpo, na pobreza e na nudez, será lançado numa cova para apodrecer. Ali os vermes e os ratos devorarão tua carne; de ti restarão somente alguns ossos sem carne, um pouco de pó de odor fétido, nada mais. Abre uma sepultura e observa em que se transformaram aquele ricaço, aquele avarento, aquela mulher vaidosa. Eis o fim da vida.
Na hora derradeira, os demônios te cercarão e apresentarão todos os pecados que cometeste desde a infância. Agora, para te levar ao pecado, o demônio encobre a culpa e lhe procura desculpas: diz que aquela vaidade, aquele prazer, aquela familiaridade, aquele rancor não são grande mal; que naquela conversa não há intenção má. Ao morreres, contudo, descobrirá a gravidade do pecado. À luz da eternidade em que estarás prestes a entrar, reconhecerás o mal de haver ofendido a Deus infinito. Apressa-te a remediá-lo enquanto podes, pois depois faltará o tempo.
Ponto III
Considera que a morte é um instante de que depende a eternidade. A pessoa está prestes a morrer e, portanto, prestes a entrar numa das duas eternidades. Essa sorte depende do último cerrar da boca, após o qual, num instante, a alma se encontra salva ou condenada para sempre. Ó instante! Ó cerrar da boca! Ó momento de que depende uma eternidade! Eternidade de glória ou de tormento; para sempre feliz ou para sempre infeliz; de alegrias ou de aflições; de todos os bens ou de todos os males; do paraíso ou do inferno.
Se naquele momento alcançares a salvação, cessarão teus males, e felicidade e bem-aventurança te acompanharão para sempre. Se falhares e te condenares, serão perpétuos teu sofrimento e teu desespero, enquanto Deus for Deus. Ao morrer, compreenderás o que significam paraíso, inferno, pecado, Deus ofendido, lei divina desprezada, pecados omitidos na confissão e bens que não foram restituídos.
«Ai de mim», dirá quem agoniza, «dentro de poucos instantes comparecerei diante de Deus! Quem sabe qual será minha sentença? Para onde irei: ao paraíso ou ao inferno? À alegria entre os anjos ou ao fogo entre os condenados? Pertencerei à família de Deus ou à servidão do demônio? Daqui a pouco, ai de mim, saberei; e no lugar em que entrar pela primeira vez ficarei eternamente. Ah, dentro de poucas horas, de poucos momentos, qual será minha sorte? O que me acontecerá se não reparar aquele escândalo, se não restituir aqueles bens ou aquela reputação, se não perdoar de coração ao inimigo, se não fizer uma boa confissão?»
Mil vezes detestarás então o dia do teu pecado, o prazer ou aquela vingança que buscaste; mas tarde demais e sem fruto, porque o farás pelo simples medo do castigo, sem amor a Deus. Ah, Senhor, desde este instante volto-me para vós; não quero aguardar a morte. Desde agora vos amo e vos abraço, e desejo morrer unido a vós. Minha Mãe Maria, fazei-me morrer sob vosso manto; socorrei-me naquele instante.

