Jesus, o bom Pastor
JO 10,11
«Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas.»
SUMÁRIO
O bom Pastor entrega a vida por suas ovelhas e dá-lhes seu próprio Corpo como alimento.
Ponto I
Assim falou ele próprio: «Eu sou o bom pastor» (Jo 10,11). A tarefa de um bom pastor consiste em conduzir suas ovelhinhas às boas pastagens e protegê-las dos lobos. Mas que pastor, ó meu doce Redentor, teve alguma vez bondade semelhante à vossa, entregando sangue e vida para salvar suas ovelhinhas, que somos nós, e libertar-nos dos castigos merecidos? «O qual foi o mesmo que levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro: Para que mortos aos pecados, vivamos à justiça: Por cujas chagas fostes vós sarados,» (1 Pd 2,24). Para curar nossos males, esse Pastor bondoso tomou sobre si todas as nossas dívidas e pagou-as com seu corpo, morrendo de dor na cruz.
Esse excesso de amor para conosco, suas ovelhas, fazia arder Santo Inácio mártir no desejo de dar a vida por Jesus Cristo. Dizia ele em sua carta: «Meu amor está crucificado.» Queria dizer: como! Meu Deus quis morrer na cruz por mim, e posso eu viver sem desejar morrer por ele? Na verdade, que grande coisa fizeram os mártires ao dar a vida por Jesus Cristo, que morreu por amor deles? A morte que Jesus Cristo padeceu por eles tornava-lhes doces todos os tormentos: os açoites, os cavaletes, as unhas de ferro, as couraças ardentes e as mortes mais dolorosas.
Mas o amor desse bom Pastor não se contentou com sacrificar a vida por suas ovelhinhas. Quis, depois de morrer, deixar-lhes o seu próprio corpo, já oferecido em sacrifício na cruz, para que fosse alimento e pastagem de suas almas. O amor ardente que tinha por nós, diz São João Crisóstomo, levou-o a unir-se e tornar-se uma só coisa conosco: «Misturou-se conosco para que sejamos um só; isso é próprio de quem ama ardentemente.»
Quando esse bom Pastor vê perdida uma de suas ovelhinhas, quanto se esforça, quantos recursos emprega para recuperá-la! E não deixa de buscá-la até encontrar: «vai a buscar a que se havia perdido, até que a ache» (Lc 15,4). Encontrando-a, coloca-a alegre sobre os ombros, para não tornar a perdê-la: «E que depois de a achar, a põe sôbre seus ombros cheio de gôsto» (Lc 15,5). Chama os amigos e vizinhos, isto é, os anjos e santos, e convida-os a alegrar-se com ele por ter recuperado a ovelhinha perdida: «Congratulai-vos comigo, porque achei a minha ovelha, que se havia perdido» (Lc 15,6). Quem não amará com todo o afeto esse bom Senhor, que se mostra tão amoroso até para com os pecadores que lhe voltaram as costas e voluntariamente quiseram perder-se?
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, meu amável Salvador! Eis a vossos pés uma ovelha perdida: deixei-vos, mas não me abandonastes; não deixastes de empregar meio algum para me recuperar. Que seria de mim se não tivésseis pensado em buscar-me? Pobre de mim, quanto tempo vivi longe de vós! Agora, por vossa misericórdia, espero estar em vossa graça; e, onde antes fugia de vós, não desejo mais que vos amar e viver e morrer abraçado a vossos pés. Mas, enquanto vivo, corro o perigo de vos abandonar. Prendei-me pelos vínculos de vosso santo amor e não deixeis de me procurar enquanto vivo nesta terra. «Andei errante, como ovelha, que se desgarrou: Busca o teu servo» (Sl 118,176). Ó advogada dos pecadores, alcançai-me a santa perseverança.

