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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Vaidade do mundo

TERÇA-FEIRA, 6 DE ABRIL · TERÇA-FEIRA — FÉRIA DO TEMPO PASCAL

Vaidade do mundo

MT 16,26

«Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?»

SUMÁRIO

Na hora inevitável da morte todas as pompas e riquezas terrenas perecem, restando unicamente os merecimentos das virtudes; que proveito haveria em reter o universo visível se a alma imortal viesse a precipitar-se na condenação eterna?

Ponto IAs riquezas temporais desaparecem com a morte

Narra-se na tradição clássica que certo filósofo antigo, havendo enfrentado terrível naufrágio em que viu tragados pelas ondas todos os seus tesouros, logrou alcançar a praia despido de haveres; contudo, por causa de sua notável sabedoria, foi prontamente socorrido e provido de tudo pelos habitantes daquela plaga. Escreveu ele em seguida aos seus concidadãos, exortando-os a que procurassem ajuntar exclusivamente aqueles bens duradouros que nem sequer nas tormentas do mar se podem perder. Ora, este salutar conselho nos transmitem da outra margem os nossos parentes e conhecidos que já entraram na eternidade: empenhemo-nos unicamente em armazenar aquelas riquezas que a morte não nos possa arrebatar.

O momento do passamento chama-se com propriedade «dia da perda» (dies perditionis), visto que em tal transe os títulos soberbos, as posses pomposas e as delícias sensíveis terão de ser forçosamente abandonados. Observava com profundidade Santo Ambrósio: «Não são bens nossos aqueles que não podemos transportar conosco ao além; somente a virtude nos acompanha até o tribunal de Deus». De que valeria colher todos os reinos deste mundo, se no desfecho da existência se viesse a naufragar na salvação da alma?

Ponto IIA força transformadora da máxima evangélica

«Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se perder a sua alma?» (Mt 16,26). Esta soberana reflexão inspirou outrora incontáveis corações generosos a sepultarem-se na solidão dos claustros, animou os ermitões no rigor dos desertos e comunicou coragem invicta aos santos mártires perante os tormentos mais cruéis. Foi mediante a constante repetição desta máxima que Santo Inácio de Loyola conduziu muitos espíritos a Deus, de maneira particular o seu fiel companheiro São Francisco Xavier, que em Paris se achava absorvido por pretensões mundanas. Repetia-lhe o venerável patriarca: «Considera, meu caro Francisco, que o mundo presente é um perjuro que promete e jamais cumpre; e mesmo se te outorgasse todos os aplausos sonhados, nunca teria o condão de satisfazer a sede infinita do teu espírito».

Por conseguinte, desprendamo-nos a tempo das ilusões caducas antes que a morte nos despoje de modo irrevogável de todos os bens transitórios.

AFETOS E ORAÇÕES

Ó Senhor onipotente e compassivo, confesso com profunda vergonha que passei longos dias seduzido pelas quimeras desta terra, preferindo vaidades efêmeras ao vosso amor eterno. Perdoai-me, divino Redentor, pelos merecimentos infinitos de vossa dolorosa agonia. Renuncio para sempre aos atrativos enganosos do século e quero consagrar-vos inteiramente os meus afetos, a minha inteligência e todas as forças de minha alma. — Ó Santíssima Virgem Maria, advogada dos pecadores arrependidos, acolhei-me sob o vosso amparo e desapegai meu coração de tudo o que não seja Deus.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla Morte (1758), Considerazione XIII («Vanità del mondo»), Punto I, pp. 121-122. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.