No céu goza-se uma felicidade perfeita
SL 16,15
«Saciar-me-ei quando aparecer a tua glória.»
SUMÁRIO
Na pátria celeste nada haverá que cause aflição e encontrar-se-á tudo o que o coração pode desejar: cessam todas as dores e enfermidades, os eleitos amam-se ternamente e contemplam a beleza indizível de Maria e de Jesus.
Ponto INada haverá que desagrade
Logo que a alma tiver ingressado na bem-aventurança divina, «nada haverá que não queira» (nihil est quod nolit), e não experimentará mais coisa alguma que a entristeça. «Deus enxugará toda a lágrima dos olhos deles; e a morte já não existirá, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E disse o que estava assentado no trono: Eis que faço novas todas as coisas» (Ap 21,4-5).
No paraíso não subsistem doenças, indigência nem incômodos; desapareceram as alternâncias dos dias e das noites, assim como os rigores do gelo e do ardor do verão. Ali reina um dia perpétuo e sem sombras, uma primavera contínua e cheia de delícias. Ali cessam totalmente as perseguições e as rivalidades; naquele reino do verdadeiro amor todos se amam com imensa ternura, e cada um se alegra com o bem alheio com a mesma intensidade que se fosse seu próprio. Não restam receios nem temores de espécie alguma, visto que a alma confirmada na graça celestial já não tem possibilidade de pecar nem de perder o seu Deus para sempre.
Ponto IIEncontrar-se-á tudo o que se pode desejar
«Eis que faço novas todas as coisas». Tudo ali se renova, e tudo plenamente consola e sacia. «Haverá tudo o que quiseres» (totum est quod velis). A faculdade da vista será plenamente satisfeita contemplando aquela cidade de formosura perfeitíssima: «Cidade de beleza perfeita» (Lm 2,15). Que indizível encanto causaria contemplar uma cidade terrena cujo pavimento fosse de límpido cristal, cujos edifícios fossem formados de prata com tetos de ouro puríssimo, enfeitados com grinaldas de flores? Quão superior e magnífica será a cidade celestial!
Que consolo não será admirar todos aqueles concidadãos vestidos de trajes reais, porquanto todos são verdadeiros reis, como proclama Santo Agostinho: «Quantos são os cidadãos, outros tantos são reis» (Quot cives tot reges). Que maravilha será fitar a Virgem Maria, que se manifestará mais resplandecente que todo o paraíso reunido! Que alegria indizível contemplar o divino Cordeiro, Jesus nosso Redentor! Santa Teresa, havendo contemplado em revelação apenas a sagrada mão de Nosso Senhor Jesus Cristo, sentiu a alma arrebatada diante de tão excelsa majestade.
O olfato será regalado com os aromas inefáveis da glória; o ouvido acolherá as mais harmoniosas melodias dos anjos. São Francisco de Assis, tendo escutado somente um som emitido por um espírito angélico, cuidou desfalecer de celestial doçura. Que deleite não proporcionará o coro de todos os anjos e santos cantando em uníssono: «Pelos séculos dos séculos te louvarão» (Sl 83,5)! Que encanto ouvir os louvores entoados pela divina Mãe! Afirma São Francisco de Sales que a voz de Maria Santíssima sobrepuja no céu todos os demais cantos celestes, tal qual o canto suave do rouxinol supera o de todas as avezinhas na floresta. Em suma, no paraíso encontram-se reunidos todos os bens que o coração humano pode almejar.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó meu Deus soberano, desejo e vos suplico a posse do paraíso celeste, não tanto pelo gozo das consolações, mas principalmente para amar-vos com perfeito desvelo. Peço-vos, para exaltação de vossa infinita clemência, concedei que os bem-aventurados vejam inflamada de vosso amor esta alma que tantas vezes vos ofendeu no passado. Firmo o propósito sincero de pertencer doravante inteiramente a vós e de não cogitar senão em render-vos amor. Socorrei-me com a vossa luminosa graça, a fim de que conserve a coragem precisa para executar esta resolução que a vossa infinita caridade me inspirou. — E vós, ó Maria, advogada da perseverança final, alcançai-me a virtude da santa fidelidade até o último alento.

