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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Jesus preso, amarrado e conduzido a Jerusalém

QUINTA-FEIRA, 18 DE MARÇO · QUINTA-FEIRA — FÉRIA DO TEMPO DA PAIXÃO

Jesus preso, amarrado e conduzido a Jerusalém

JO 18,12

«A coorte pois, e o tribuno, e os quadrilheiros dos judeus prenderam a Jesus, e o manietaram:»

SUMÁRIO

Jesus entrega-se livremente às mãos de quem vem prendê-lo. A alma pede ser ligada à vontade do Redentor e volta a ele depois de reconhecer o abandono causado pelo pecado.

Ponto I

«Levantai-vos, vamos: Eis aí vem chegando quem me há de entregar.» (Mc 14,42). Sabendo o Redentor que Judas, com os judeus e os soldados que vinham capturá-lo, já estava perto, levanta-se ainda molhado daquele suor de morte. Pálido no rosto, contudo inteiramente abrasado de amor no coração, vai ao encontro deles para entregar-se nas suas mãos; e, vendo-os chegar, pergunta-lhes: «A quem buscais?» Imagina, minha alma, que também a ti Jesus faz neste momento a pergunta: «Quem procuras? Dize-me.» Ah, Senhor meu, quem desejarei buscar senão a vós, que viestes do céu à terra procurar-me, para não me ver na perdição?

«A coorte pois, e o tribuno, e os quadrilheiros dos judeus prenderam a Jesus, e o manietaram:» (Jo 18,12). Ai, um Deus amarrado! Que diríamos ao ver um rei que os próprios servos prenderam e amarraram? Que havemos agora de dizer, ao contemplar um Deus entregue nas mãos da turba? Ó cordas benditas, que prendestes o meu Redentor, prendei-me também com ele! Prendei-me de tal modo que não possa mais separar-me do seu amor; ligai o meu coração à sua santíssima vontade, para que daqui em diante eu nada queira senão aquilo que ele quer.

Contempla, minha alma: uns lhe agarram as mãos, outros o amarram, outros o injuriam, outros o golpeiam; e o Cordeiro inocente deixa-se prender e ferir à vontade deles. Não procura fugir das suas mãos, não pede socorro nem reclama das numerosas injúrias, tampouco pergunta por que é tão maltratado. Eis cumprida a profecia de Isaías: «Foi oferecido, porque ele mesmo quis, e não abriu a sua bôca: Ele será levado como uma ovelha ao matadouro» (Is 53,7). Não fala nem se queixa, pois já se oferecera à justiça divina para satisfazer e morrer por nós; por isso deixa-se conduzir à morte como uma ovelhinha, sem abrir a boca.

Olha como, assim amarrado e rodeado daquela gente, é tirado do horto e levado às pressas aos pontífices, na cidade. E os seus discípulos, onde estão? Que fazem? Ao menos, se não podem livrá-lo das mãos dos inimigos, que o acompanhem para defender a sua inocência diante dos juízes ou ao menos para consolá-lo com a sua presença. Mas não; diz o Evangelho: «Então desamparando-o os seus discípulos, fugiram todos.» (Mc 14,50). Qual foi então a pena de Jesus Cristo ao ver-se evitado e abandonado até pelos seus queridos! Ai, então Jesus contemplou simultaneamente aquelas almas que, favorecidas por ele mais do que as outras, haviam depois de abandoná-lo e voltar-lhe ingratas as costas.

Ah, meu Senhor, uma delas foi esta minha alma infeliz: depois de tantas graças, luzes e chamados recebidos de vós, esqueceu-vos com ingratidão e vos deixou. Recebei-me por piedade, agora que volto a vós com arrependimento e ternura, para nunca mais vos deixar, ó tesouro, ó vida, ó amor da minha alma.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Considerazioni ed affetti sovra la Passione di Gesù Cristo (1761), § VI, «Gesù è preso e ligato», texto integral, pp. 148–149 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.