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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

A perda da salvação é um mal sem remédio

QUARTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO · SÃO CALISTO I

A perda da salvação é um mal sem remédio

2 TS 1,9

«Os quais pagarão a pena eterna: de perdição ante a face do Senhor, e a glória do seu poder:»

SUMÁRIO

A salvação é o negócio que não admite reparação depois da morte. A alma pede contrição, amor e perseverança.

Ponto I

Negócio importante, único e irreparável. «Acima de todo erro está o de descuidar do negócio da salvação eterna», diz Santo Euquério. Nenhum erro se compara ao de negligenciar a salvação eterna. Para todos os outros há remédio: quem perde um bem pode adquiri-lo por outro caminho; quem perde um cargo pode encontrar modo de recuperá-lo. Ainda que se perca a vida, se a alma obtiver a salvação, tudo estará reparado. Mas para quem se condena não resta remédio. Morre-se uma vez; perdida uma vez a alma, fica perdida para sempre: «Ter-se perdido uma vez é eterno».

Nada resta senão chorar eternamente com as outras miseráveis almas insensatas no inferno. Ali, a maior pena que as atormenta é pensar que terminou o tempo de remediar sua miséria: «O tempo ela ceifa é passado, o estio findou-se, e nós não fomos salvos.» (Jr 8,20). Perguntai a essas pessoas tidas por sábias no mundo, agora naquele abismo de fogo, quais são seus sentimentos; perguntai se estão contentes de ter construído sua fortuna nesta terra, agora que receberam a condenação àquela prisão eterna. Ouvi como choram e dizem: «Logo nós nos extraviamos do caminho da verdade, e a luz da justiça não raiou para nós, e o sol da inteligência não nasceu sobre nós.» (Sb 5,6). Que lhes aproveita conhecer o erro cometido, quando já não podem reparar a condenação eterna?

Que dor sentiria alguém nesta terra se, podendo evitar com pouca despesa a ruína de seu palácio, um dia o encontrasse caído e considerasse sua negligência, já sem poder repará-lo! A maior pena dos condenados é pensar que perderam a alma e se condenaram por culpa própria: (Os 13,9): «A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti: Só em mim está o teu auxílio.». Santa Teresa diz que, quando alguém perde por culpa própria uma roupa, um anel ou até uma ninharia, fica sem paz, sem comer e sem dormir. Ó Deus, que pena terá a alma ao entrar no inferno, ao ver-se encerrada naquela prisão de tormentos, pensar na própria desgraça e compreender que não haverá reparação durante toda a eternidade! Dirá: «A alma está perdida, e com ela o paraíso e Deus: tudo está perdido eternamente. Por quê? Por minha culpa».

Alguém dirá: «Se cometer este pecado, por que haveria de me condenar? Talvez ainda alcance a salvação». Respondo: talvez também vos condeneis. Digo ainda que a condenação é mais provável, pois as Escrituras ameaçam com ela quem trai e persiste na obstinação, como fazeis agora: «Ai, filhos desertores, diz o Senhor, para que tomásseis um conselho, e não de mini: E urdísseis uma teia e não pelo meu espírito, para que assim acrescentásseis pecado sobre pecado:» (Is 30,1); «Ai deles, porque se retiraram de mim: Eles serão a presa de seus inimigos, porque prevaricaram contra mim: E eu os resgatei: E eles publicaram mentiras contra mim.» (Os 7,13). Ao menos, com esse pecado não pondes em grande perigo e dúvida vossa salvação eterna? É negócio que se deva arriscar? Não se trata de uma casa, de uma propriedade ou de um cargo; trata-se, diz São João Crisóstomo, de precipitar-se numa eternidade de tormentos e perder um paraíso eterno: «Trata-se de suplícios imortais e da perda do reino celeste». Desejais arriscar num «talvez» esse negócio do qual depende tudo para vós?

Dizeis: «Talvez não me condene; espero que Deus depois me perdoe». Mas, entretanto, já vos condenais por vossa própria escolha ao inferno. Dizei: vos lançaríeis num poço afirmando «talvez não morra»? Não. Como podeis então apoiar a salvação eterna numa esperança tão fraca, num «quem sabe»? Quantas pessoas se condenaram por essa maldita esperança! Não sabeis que a esperança de quem se obstina no pecado não é esperança, mas engano e presunção, que provoca em Deus maior indignação, em vez de misericórdia? Se agora dizeis não ter confiança de resistir à tentação e à paixão que vos domina, como resistireis depois, quando, ao pecar, vossas forças diminuirão em vez de aumentar? De um lado, a alma ficará mais cega e endurecida pela malícia; de outro, faltarão os auxílios divinos. Esperais que Deus vos aumente as luzes e graças depois de lhe aumentardes as ofensas?

AFETOS E ORAÇÕES

Jesus meu, conservai em mim a lembrança da morte que por mim padecestes e dai-me confiança. Temo que, ao morrer, o demônio me queira levar ao desespero pela visão de tantas traições que vos fiz. Quantas vezes, à luz que me concedestes, prometi não mais ofender-vos, e depois vos abandonei de novo, esperando o perdão! Porque não me castigastes, por isso vos injuriei tanto? Porque me dedicastes maior misericórdia, por isso vos fiz mais ultrajes?

Redentor meu, concedei-me grande contrição pelos pecados antes de sair desta vida. Sumo bem, arrependo-me de vos ter ofendido. Prometo, de agora em diante, aceitar mil vezes a morte antes de novamente vos abandonar. Enquanto isso, fazei-me ouvir o que dissestes a Madalena: «E disse-lhe a ela: Perdoados te são teus pecados.» (Lc 7,48), fazendo-me sentir grande pesar pelas culpas antes de chegar à morte; de outro modo, receio uma morte inquieta e infeliz. «Não me sejas tu motivo de mêdo, tu, esperança minha no dia da aflição.» (Jr 17,17).

Jesus meu crucificado, naquele instante extremo não me sejais motivo de pavor. Se morrer antes de chorar meus pecados e antes de vos amar, vossas chagas e vosso sangue me causarão antes temor que confiança. Por isso, nesta vida que me resta, não vos peço consolações nem bens terrenos: peço contrição e amor. Salvador querido, ouvi-me pelo amor que vos levou a sacrificar a vida por mim no Calvário. Maria, minha Mãe, alcançai-me essas graças, juntamente com a perseverança santa até morrer.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Apparecchio alla morte (1758), Considerazione XII, «Importanza della salute», Punto III inteiro e «Affetti e preghiere», pp. 116–119 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.