Da misericórdia de Deus
SL 32,5
«Êle ama a misericórdia e a justiça: Da misericórdia do Senhor está cheia tôda a terra.»
SUMÁRIO
Deus espera a conversão, chama a alma e a recebe com misericórdia. Sua paciência convida ao arrependimento e ao amor.
Ponto I
O bem tende, por sua natureza, a difundir-se, isto é, a partilhar seus bens com outros. Ora, Deus é por natureza bondade infinita — «Deus, cuja natureza é bondade», diz São Leão — e tem sumo desejo de comunicar-nos sua felicidade. Sua inclinação, portanto, é exercer misericórdia com todos, antes que castigá-los. Isaías diz que castigar é obra estranha à inclinação de Deus: «E será apagado o vosso concêrto com a morte, e o vosso pacto com o inferno não subsistirá: Quando passar o flagelo de inundação, ele vos terá por emprêgo da sua pisadura.» (Is 28,21). Quando o Senhor castiga nesta vida, castiga para exercer misericórdia na outra: «Ó Deus, desamparaste-nos, e destruíste-nos: Tu te iraste, e tiveste piedade de nós.» (Sl 59,3). Manifesta indignação para que nos emendemos e detestemos os pecados: «Mostraste ao teu povo coisas duras: Deste-nos a beber vinho de compunção.» (Sl 59,5). Se nos envia algum castigo, é porque nos ama e quer livrar-nos do castigo eterno: «Deste aos que te temem um sinal: Para que fugissem da face do arco: E que se livrassem os teus amados: Salva-me com a tua destra, e ouve-me.» (Sl 59,6–7).
Quem poderá admirar e louvar suficientemente a divina misericórdia exercida com os pecadores, ao esperá-los, chamá-los e acolhê-los quando regressam? Em primeiro lugar, quão grande é a paciência de Deus ao esperar vosso arrependimento! Quando o ofendíeis, não poderia ter-vos feito morrer? Mas Deus vos esperava. Em vez de castigar-vos, fazia-vos bem: conservava vossa vida e provia às vossas necessidades. Parecia não ver os pecados para que vos emendásseis: «Tu tens compaixão de todos, porque tudo podes, e dissimulas os pecados dos homens para que façam penitêncià.» (Sb 11,24).
Mas como, Senhor? Não podeis contemplar sequer um pecado, e vedes tantos e guardais silêncio? «Os teus olhos são limpos, para não veres o mal, e tu não poderás olhar para a iniquidade: Por que razão olhas tu para os que cometem injustiças, e te conservas em silêncio, entretanto que o ímpio devora os que são mais justos que ele?» (Hab 1,13). Vedes quem vive na desonestidade, na vingança e na blasfêmia, acrescentando diariamente novas ofensas, e não castigais? Por que tamanha paciência? «Por isso o Senhor espera para ter misericórdia de vós: E por isso ele será exaltado perdoando-vos: Porque o Senhor é um Deus de eqüidade: Ditosos todos os que o esperam.» (Is 30,18). Deus aguarda que o pecador se emende, para poder perdoá-lo e salvá-lo.
São Tomás diz que todas as criaturas — fogo, terra, ar e água — por seu instinto natural quereriam punir o pecador, vingando as injúrias contra seu Criador: «Toda criatura, servindo a vós, seu Criador, se inflama contra os injustos» (cf. Sb 16,24). Deus, porém, as detém por sua misericórdia.
Senhor, esperais esses ímpios para que se emendem. Não vedes que, por ingratidão, usam vossa misericórdia para ofender-vos ainda mais? «Favoreceste a gente, Senhor; favoreceste a gente: porventura foste glorificado?» (cf. Is 26,15). Por que tanta paciência? Porque Deus não quer a morte de quem peca, mas que se converta e viva: «Responde-lhes assim: Eu juro por minha vida, diz o Senhor Deus: Que eu não quero a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos, deixando os vossos péssimos caminhos: E por que haveis vós de morrer, casa de Israel?» (Ez 33,11).
Ó paciência de Deus! Santo Agostinho chega a dizer que, se Deus não fosse Deus, seria injusto por causa da excessiva paciência que tem com os pecadores: «Meu Deus, com vossa licença o direi: se não fôsseis Deus, seríeis injusto». Esperar quem se aproveita da paciência para crescer em insolência parece uma injustiça contra a honra divina. «Nós pecamos e permanecemos no pecado», continua o santo: algumas pessoas fazem as pazes com o pecado, nele dormindo por meses e anos. «Alegramo-nos no pecado»: outras chegam a gloriar-se de seus crimes. «E vós estais apaziguado! Nós vos provocamos à ira; vós nos provocais à misericórdia». Parece que disputamos com Deus: nós, a irritá-lo para que nos castigue; ele, a convidar-nos ao perdão.
AFETOS E ORAÇÕES
Senhor meu, compreendo que nesta hora deveria estar no inferno: «Se eu suportar, o sepulcro será a minha casa, e eu tenho preparado o meu leito nas trevas.» (Jó 17,13). Mas, por vossa misericórdia, agora estou aqui, a vossos pés, e ouço o preceito com que me ordenais amar-vos: «Jesus lhe disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tôda a tua alma, e de todo o teu entendimento,» (Mt 22,37). Dizeis que desejais perdoar-me, se me arrependo das injúrias que vos fiz. Sim, meu Deus: já que desejais o amor até de mim, miserável criatura rebelde à vossa majestade, eu vos amo de coração inteiro e sinto por vos ter ultrajado pesar maior que por qualquer mal que me pudesse acontecer.
Bondade infinita, iluminai-me; fazei-me conhecer a injustiça que cometi contra vós. Não desejo resistir aos vossos chamados nem desagradar novamente ao Deus que me dedicou tanto amor e que tantas vezes, com tanto amor, me perdoou. Jesus meu, oxalá nunca vos tivesse ofendido! Perdoai-me e fazei que, desde agora, meu amor se dirija somente a vós; que viva só para vós, que por mim morrestes; que padeça por vosso amor, pois tanto padecestes por amor de mim. Amastes-me desde a eternidade: fazei que eu eternamente arda em vosso amor. Salvador meu, tudo espero por vossos merecimentos. Também em vós confio, Maria: haveis de salvar-me por vossa intercessão.

