Morte contínua no inferno
SL 48,15
«Como ovelhas são postos no inferno: E êles serão pasto da morte. E os justos terão domínio sôbre êles na manhã: E passada a sua glória tudo o que tiveram se envelhecerá no inferno.»
SUMÁRIO
No inferno, a morte é desejada sem poder ser alcançada. A alma agradece a misericórdia recebida e pede nunca mais abandonar a Deus.
Ponto I
Nesta vida, a morte é o que mais amedronta os pecadores; no inferno, será o que mais desejarão. «E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão, e éles desejarão morrer, e a morte fugirá deles.» (Ap 9,6). Por isso São Jerônimo escreveu: «Ó morte, quão doce serias para aqueles a quem foste tão amarga!» Davi diz que a morte se alimentará dos condenados: «Como ovelhas são postos no inferno: E êles serão pasto da morte. E os justos terão domínio sôbre êles na manhã: E passada a sua glória tudo o que tiveram se envelhecerá no inferno.» (Sl 48,15). São Bernardo explica: a ovelha, ao pastar, come as folhas da erva, mas deixa as raízes; assim a morte se alimenta dos condenados, matando-os a cada instante, porém deixando-lhes a vida para continuar a matá-los pelo sofrimento eternamente. «Como os animais pastam as ervas e ficam as raízes, assim os miseráveis no inferno serão roídos pela morte e de novo conservados para as penas». São Gregório diz, portanto, que quem se condena morre a cada instante, sem jamais morrer: «Entregue às chamas vingadoras, estará sempre morrendo».
Quando alguém morre de dor, todos se compadecem. Se ao menos o condenado tivesse quem dele se compadecesse! Não: morre a cada momento pelo sofrimento, sem ter nem vir a ter quem lhe dedique compaixão. O imperador Zenão, encerrado numa fossa, gritava: «Abri-me, por piedade!» Ninguém o ouviu; encontraram-no morto em desespero, pois havia comido a própria carne dos braços. São Cirilo de Alexandria diz que os réprobos gritam do abismo infernal, mas ninguém vai retirá-los, nem deles se compadece: «Lamentam-se e ninguém os liberta; choram e ninguém tem compaixão».
Quanto durará essa miséria? Para sempre, para sempre. Nos Exercícios espirituais do Padre Segneri, o Jovem, escritos por Muratori, conta-se que em Roma perguntaram ao demônio presente no corpo de um possesso quanto tempo deveria permanecer no inferno. Ele respondeu furiosamente, batendo a mão numa cadeira: «Sempre, sempre». Tamanho foi o terror que muitos jovens do Seminário Romano ali presentes fizeram confissão geral e mudaram de vida, depois dessa grande pregação de duas palavras: «Sempre, sempre».
Pobre Judas! Já se passaram mil e setecentos anos de sua permanência no inferno, e seu inferno continua no começo. Pobre Caim! Está no fogo há cinco mil e setecentos anos, e seu inferno continua no começo. Perguntaram a outro demônio havia quanto tempo entrara no inferno. Respondeu: «Ontem». Disseram-lhe: «Como ontem, se estás condenado há mais de cinco mil anos?» Ele respondeu novamente: «Se soubésseis o que significa eternidade, compreenderíeis que cinco mil anos, em comparação, nem sequer são um instante».
Se um anjo dissesse a um condenado: «Sairás do inferno depois que passarem tantos séculos quanto o número de gotas de água, de folhas das árvores e os grãos de areia do mar», ele faria maior festa do que uma pessoa mendiga ao receber a notícia de que se tornara rei. Sim, porque todos esses séculos passarão, serão multiplicados infinitas vezes, e o inferno continuará sempre no começo. Cada condenado aceitaria este pacto com Deus: «Senhor, aumentai minha pena quanto quiserdes; fazei-a durar quanto vos agradar; ponde-lhe um termo, e ficarei contente». Mas não: tal termo jamais existirá. A trombeta da justiça divina só fará ressoar no inferno: «Sempre, sempre; nunca, nunca».
Os condenados perguntarão aos demônios: «Em que ponto está a noite?» «O opróbrio de Duma me brada desde Seir: Guarda, que viste de noite? Guarda, que viste de noite? 33-» (Is 21,11). Quando termina? Quando acabam estas trevas, estes gritos, este mau cheiro, estas chamas e estes tormentos? A resposta será: «Nunca, nunca». E quanto durarão? «Sempre, sempre».
Senhor, iluminai tantas pessoas cegas que, instadas a não se condenar, respondem: «Enfim, se for para o inferno, paciência». Ó Deus! Não têm paciência para sentir um pouco de frio, ficar num quarto muito quente ou suportar uma pancada; e terão paciência para ficar num mar de fogo, pisadas pelos demônios e abandonadas por Deus e por todos, pela eternidade inteira?
AFETOS E ORAÇÕES
Pai das misericórdias, não abandonais quem vos busca: «Em ti pois esperem os que conhecem o teu nome: Porque tu, Senhor, não desamparaste aos que te buscam.» (Sl 9,11). No passado, tantas vezes vos abandonei, e vós não me deixastes; não me deixeis agora, que vos procuro. Sumo bem, arrependo-me de ter estimado tão pouco vossa graça que a troquei por nada. Contemplai as chagas de vosso Filho, ouvi sua voz, que vos pede meu perdão, e perdoai-me.
Meu Redentor, mantende viva em mim a lembrança dos sofrimentos que por mim suportastes, do amor que me dedicastes e de minha ingratidão, pela qual tantas vezes mereci o inferno. Assim chorarei continuamente a injustiça que vos fiz e viverei sempre abrasado em vosso amor. Jesus meu, como não arder por vosso amor, ao pensar que há tantos anos eu deveria arder no inferno, continuando a arder eternamente, e que morrestes para dele me livrar, libertando-me com tanta misericórdia?
Se estivesse no inferno, agora vos odiaria e deveria odiar-vos eternamente; agora, porém, eu vos amo e desejo amar-vos sem fim. Assim espero em vosso sangue. Vós me amais e eu também vos amo. Continuareis a amar-me, se eu não vos deixar. Salvador meu, livrai-me dessa desgraça de abandonar-vos; depois fazei comigo o que quiserdes. Mereço todos os castigos e os aceito, contanto que me livreis do castigo de ficar sem vosso amor. Maria, meu refúgio, quantas vezes eu mesmo me condenei ao inferno, e vós dele me livrastes! Livrai-me agora do pecado, único mal que pode tirar-me a graça divina e levar-me à condenação.

