Qual será o gozo dos bem-aventurados no paraíso
1COR 13,12
«Nós agora vemos a Deus como por um espelho em enigmas, mas então face a face. Agora conheço-o em parte, mas então hei de conhecê-lo, como eu mesmo sou também dêle conhecido.»
SUMÁRIO
A felicidade da alma glorificada consiste em contemplar e amar a felicidade de Deus.
Ponto I
Entra no gozo de teu Senhor. Quando a alma entrar na pátria bem-aventurada, levantada a cortina que lhe impedia a visão, verá claramente e sem véu a beleza infinita de seu Deus. Esse será o gozo da alma glorificada. Tudo o que então vir no próprio Deus a encherá de alegria: verá a retidão de seus juízos e a harmonia de suas disposições a respeito do estado de cada alma, todas ordenadas à glória divina e ao bem daquela alma.
Quanto a si, verá sobretudo o imenso amor que Deus lhe teve ao fazer-se homem e sacrificar na cruz a vida por seu amor. Conhecerá então que excesso de bondade foi o mistério da cruz: um Deus feito servo, morto como condenado num patíbulo infame! E o mistério da Eucaristia: um Deus sob as espécies de pão, feito alimento de suas criaturas! Verá particularmente todas as graças e favores que recebeu e que até então lhe estavam ocultos. Verá todas as misericórdias que Deus lhe concedeu ao esperá-la e perdoar suas ingratidões. Verá os muitos chamados, luzes e auxílios que lhe foram dispensados em abundância. Verá que as tribulações, doenças, perdas de bens ou parentes, que julgava castigos, não foram castigos, mas disposições amorosas do Senhor para atraí-la ao perfeito amor dele.
Ponto II
Enfim, tudo isso lhe mostrará quão infinitamente bom é seu Deus e quanto merece um amor infinito. Chegada ao céu, não terá outro desejo senão vê-lo feliz e satisfeito. Ao compreender que a felicidade de Deus é suprema, infinita e eterna, embora não experimente gozo infinito — pois a criatura não é capaz de coisas infinitas —, desfrutará um prazer imenso e pleno, que a encherá do próprio gozo de Deus. Assim se cumprirá nela: Entra no gozo de teu Senhor.
A alma glorificada encontra sua felicidade menos na alegria experimentada em si que pelo gozo que Deus possui: ama-o imensamente mais que a si mesma. Por esse amor, o bem de Deus lhe agrada imensamente mais que o bem próprio. Tal amor a fará esquecer-se de si; todo o seu afeto será agradar ao Amado. Essa é a santa e amável embriaguez que faz os bem-aventurados perderem a lembrança de si, ocupados somente em louvar e amar o querido objeto de todo o amor: Deus. «Embriagar-se-ão da abundância da tua casa». Felizes, desde a primeira entrada no céu ficam como perdidos e, por assim dizer, submersos de amor naquele mar infinito da bondade de Deus.
Cada alma bem-aventurada perderá, pois, todos os desejos, conservando apenas o de amar a Deus e receber seu amor. Sabendo que seguramente sempre o amará e será sempre amada por ele, encontrará nisso sua bem-aventurança: ficará cheia de alegria, eternamente saciada, sem desejar mais coisa alguma. Enfim, o paraíso dos bem-aventurados será desfrutar o gozo de Deus. Por isso, quem nesta vida se compraz na felicidade que Deus possui e eternamente possuirá já entra, por assim dizer, no gozo de Deus e começa a desfrutar o paraíso.
AFETOS E ORAÇÕES
Entretanto, meu doce Salvador e amor da minha alma, ainda me vejo no vale de pranto, rodeado de inimigos que querem separar-me de vós. Senhor a quem amo, não deixeis que vos perca. Concedei-me amar-vos sempre, nesta vida e na outra; depois, disponde de mim como vos aprouver. Rainha do paraíso, se rogais por mim, certamente estarei convosco eternamente, fazendo-vos companhia e louvando-vos no céu.

