Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo
MC 16,19
«E na realidade o Senhor Jesus, depois de assim lhes haver falado, foi assunto ao Céu, onde está assentado à mão direita de Deus.»
SUMÁRIO
A Ascensão, presenciada pelos discípulos, confirma a fé e cumpre as profecias. A pregação apostólica oferece ao mundo o testemunho desse mistério.
Ponto I
O lugar de Jesus ressuscitado era o céu, morada das almas e dos corpos bem-aventurados; ele, porém, quis permanecer mais quarenta dias na terra, aparecendo várias vezes aos discípulos, como dissemos acima, para lhes dar a certeza de sua ressurreição. Assim como desejou que conhecessem manifestamente sua ressurreição, quis também tornar-lhes manifesta a sua subida ao céu. Para isso, antes de deixar esta terra, mostrou-se aos Apóstolos pela última vez em Jerusalém, onde lhes ordenou que não se retirassem dali enquanto não recebessem o Espírito Santo. Depois, estando todos no monte das Oliveiras e tendo-lhes repetido as recomendações anteriores, sobretudo a de percorrerem o mundo inteiro anunciando o Evangelho, levantou as mãos e os abençoou; uma nuvem o ocultou aos seus olhos, e ele partiu, subindo ao céu, como narra São Lucas nos Atos: «E tendo dito isto, vendo-o êles, se foi elevando: E o recebeu uma nuvem que o ocultou a seus olhos.» (At 1,9) E em seu Evangelho: «E aconteceu que enquanto os abençoava, se ausentou dêles, e era elevado ao Céu.» (Lc 24,51)
Apareceram então duas pessoas vestidas de branco, que lhes anunciaram a segunda vinda de Jesus Cristo à terra como Juiz. Os discípulos, prostrados, o adoraram e regressaram juntos a Jerusalém para aguardar o Espírito Santo prometido.
Convém observar todas as circunstâncias. Os que viram Jesus Cristo subir ao céu e depois voltaram a Jerusalém, onde permaneceram no cenáculo, eram cerca de cento e vinte. Os anjos aparecidos no monte atestaram-lhes que o Salvador já havia subido ao céu. Todos os discípulos ficaram cheios de alegria e esperança, e dali foram passar dias inteiros em oração. Receberam depois o Espírito Santo no cenáculo; saindo de lá, começaram a pregar a fé de Jesus Cristo, primeiro pela Samaria e depois pelo mundo inteiro, conforme o Senhor lhes ordenara. Começaram também a realizar milagres segundo o poder que lhes fora prometido. Diante de tudo isso, quem poderá duvidar da verdade dessa gloriosa Ascensão de Jesus Cristo?
Ponto II
Acrescente-se que essa Ascensão já fora predita por Davi em diversos lugares: «Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória.» (Sl 23,7) Em outro lugar, mais claramente: «Subiste ao alto, fizeste escrava a escravidão: Tomaste dons para distribuíres aos homens: Ainda aos que não criam, que habitava o Senhor Deus entre êles.» (Sl 67,19) São Paulo apresenta esse texto com maior clareza: «Pelo que diz: Quando ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro: Deu dons aos homens.» (Ef 4,8) Por esse cativeiro entendem-se os santos que estavam presos no limbo e que Jesus Cristo levou consigo ao subir ao céu. Em outra passagem: «Salmo de Davi. Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita: Até que ponha a teus inimigos por escabêlo de teus pés.» (Sl 109,1)
Mas por que Jesus Cristo, ao subir ao céu, não se manifestou então a todos os judeus, já que assim os teria feito seus seguidores? Primeiramente, quem terá a temeridade de exigir de Deus as razões de tudo quanto ele fez? Além disso, diz o Apóstolo: «Mas pergunto: Acaso êles não têm ouvido? Sim por certo, pois por tôda a terra saiu o som dêles e até aos limites da redondeza da terra, as palavras dêles.» (Rm 10,18) São Paulo quer dizer: que necessidade havia de o Senhor tornar sua Ascensão manifesta a todos os judeus para os levar a abraçar a fé? «Os teus testemunhos se têm feito críveis em grande maneira: À tua casa convém santidade, Senhor, por diuturnidade de dias.» (Sl 92,5)
Foram claríssimos os sinais da verdade da fé dados aos judeus e ao mundo todo pelas santas Escrituras e pela pregação dos Apóstolos. Por isso, ninguém poderá desculpar sua incredulidade no Juízo final. Se alguns então quiserem censurar o proceder de Jesus Cristo, como fazem presentemente, ele saberá justificar sua justiça: «Contra ti só pequei, e fiz o mal diante dos teus olhos: Para que sejas justificado nas tuas palavras e venças quando fôres julgado.» (Sl 50,6)

