Da confiança em Maria, Rainha de misericórdia
3 RS 2, 19
«E pôs-se um trono para a mãe do rei, a qual se assentou à sua mão direita.»
SUMÁRIO
Havendo a puríssima Virgem sido elevada à augusta prerrogativa de Mãe do Soberano celeste, a santa Igreja com razão a aclama e quer reverenciada por todas as criaturas sob o glorioso título de Rainha. Não, todavia, de um império de temor ou de rigor inflexível, senão como Mãe amantíssima e Rainha clemente de misericórdia, cujo coração se compadece ardentemente dos desvalidos. Confiemos sempre no seu amparo e entreguemos com filial desvelo a nossa salvação às suas mãos benignas.
Ponto I
Uma vez que a excelsa Mãe de Deus foi elevada à dignidade inefável de gerar no seu seio o Rei soberano dos séculos, a Igreja com inteira justiça a glorifica e prescreve seja aclamada universalmente com a majestosa honra de Rainha. Se o Filho é o Rei do universo, argumenta Santo Atanásio, com igual verdade compete à Virgem que O gerou o nome próprio e o tratamento régio de Soberana. E logo que Maria outorgou o seu humilde consentimento para acolher o Verbo eterno, pondera São Bernardino de Sena, adquiriu com pleno direito a potestade celestial sobre a ordem da criação.
Mas saiba todo o gênero humano, para íntimo consolo e esperança, que a Santíssima Mãe é uma Soberana dotada de inalterável clemência, inclinada incessantemente ao refúgio e ao bem dos necessitados. Por isso a Igreja quer que no cântico da Salve Rainha a invoquemos como Mãe de misericórdia. O título de rainha, nota o Bem-aventurado Alberto Magno, exprime benigna compaixão e desvelo paternal para com os indigentes, diversamente do rigor de imperatriz. Discorrendo o douto chanceler João Gerson sobre o salmo que ensina ser de Deus o poder e a misericórdia, afirma que o Senhor dividiu o seu governo entre a justiça e a piedade: reservou a Si o cetro da severa retidão, entregando à sua bendita Mãe a dispensação perene da clemência, de sorte que nenhuma mercê chegue à terra a não ser pelas mãos de Maria.
Recorda a Escritura como no império persa a rainha Ester hesitou a princípio em aproximar-se de Assuero com receio da indignação régia; ao que Mardoqueu a admoestou com severidade, lembrando-lhe que não fora colocada no sólio para benefício pessoal, senão a fim de impetrar o salvamento do seu povo perseguido. Muito menos há motivo para recearmos que a Rainha do céu nos repila; contudo, se acaso parecesse retardar-se o auxílio merecido, poderíamos recordar-lhe com respeitosa confiança: «Não julgueis, Soberana Senhora, haver Deus elevado vossa pessoa a tão soberba altura somente em proveito próprio, senão para que, entronizada ao lado do Altíssimo, tenhais maior compaixão de nossas misérias e socorrais com dobrado ardor a quantos imploram o vosso patrocínio».
Ponto II
Recorramos, pois, sem jamais desfalecer aos pés benignos desta amabilíssima Mãe, se pretendemos com firmeza atingir a bem-aventurança eterna. E se o espetáculo tenebroso de nossas iniquidades e tibiezas pretende abater o ânimo, consideremos que Maria foi justamente elevada a Rainha de clemência para resgatar com sua proteção os pecadores mais desesperados que se acolhem aos seus braços. Estes hão de formar no céu a sua coroa mais preciosa, conforme a expressão do divino Esposo nos Cantares: «Vem do Líbano, esposa minha, e serás coroada nos covis dos leões e nos outeiros dos leopardos». O que são esses antros selvagens senão as almas culpáveis, infectadas por vícios monstruosos? E destas mesmas almas resgatadas se tece a coroa eterna da Rainha da piedade.
Nenhum pecador vivente, por mais desditoso e ingrato, está desprovido do amparo de Maria enquanto peregrina sobre a terra; a todos ela obtém ao menos alívio contra as ciladas infernais e a oportunidade bendita de conversão, contanto que invoque a sua súplica com coração sincero. Desventurada, portanto, daquela pessoa que podendo recorrer a tão enternecida Advogada, fecha os olhos à sua bondade e obstina-se na perdição!
AFETOS E ORAÇÕES
Ó Mãe do meu Deus e soberana Rainha minha, Maria! Assim como um mendigo coberto de chagas se lança aos pés de uma grande princesa, assim me prostro eu, pecador indigno, diante do vosso trono augusto. Do alto trono em que reinais gloriosa, dignai-vos volver um olhar de compaixão sobre a minha extrema indigência. Vós que sois tão rica para socorrer os necessitados e fostes constituída dispensadora da divina misericórdia, acolhei-me e mudai o meu coração impuro em modelo de piedade. Sei com clareza que nenhum favor mereço pelas minhas faltas; vós, porém, não buscais merecimentos humanos, mas misérias para remediar. À vossa paternal soberania entrego inteiramente a minha vontade: guiai os meus passos, sustentai-me nas tentações e não permitais que eu torne a desagradar ao vosso divino Filho. Sou vosso servo devoto: salvai-me pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

