Rezar

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Da vida retirada

TERÇA-FEIRA, 10 DE OUTUBRO · SÃO FRANCISCO DE BORJA

Da vida retirada

MC 6,31

«E êle lhes disse: Vinde, retirai-vos a algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que entravam e saíam: E não tinham tempo para comer.»

SUMÁRIO

A vida retirada favorece a conversa com Deus e renova as forças para o apostolado. O recolhimento deve ser amado e ceder à obediência quando Deus chama ao serviço do próximo.

Ponto I

As almas que amam a Deus encontram seu paraíso numa vida de recolhimento, distante da convivência com as pessoas. Não, conversar com Deus, separando-se das criaturas, não traz amargura nem tédio: «Entrando em minha casa, acharei o meu descanso com ela: Porque a sua conversação não tem nada de desagradável, nem a sua companhia nada de fastidioso, mas o que nela se acha, é satisfação e prazer.» (Sb 8,16). As pessoas mundanas têm razão em fugir da solidão, pois, nela, sem os divertimentos ou negócios terrenos que as ocupam, os remorsos da consciência se fazem sentir mais fortemente no coração. Por isso procuram alívio, ou ao menos distração, na conversa com as pessoas. Quanto mais, porém, se esforçam por encontrar alívio entre as pessoas e negócios do mundo, mais espinhos e amarguras encontram.

Não acontece assim a quem ama a Deus: no retiro encontra uma doce companhia, que consola e alegra mais que estar na companhia de todos os amigos e parentes, e até das primeiras personalidades da terra. Dizia São Bernardo: «Nunca estou menos só do que quando estou só». Nunca me encontro menos só do que quando fico longe das pessoas; então encontro Deus que me fala, e, da minha parte, estou mais atento para ouvi-lo e mais disposto a unir-me com ele.

Nosso Salvador queria que seus discípulos, embora os tivesse destinado a propagar a fé pelo mundo inteiro, de tempos em tempos deixassem o trabalho e se retirassem em solidão, para tratar somente com Deus. Sabemos que, enquanto vivia nesta terra, Jesus Cristo costumava enviá-los a diversos lugares da Judeia, a fim de converter os pecadores. Depois dos trabalhos, porém, não deixava de convidá-los a retirar-se a um lugar solitário: «E êle lhes disse: Vinde, retirai-vos a algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que entravam e saíam: E não tinham tempo para comer.» (Mc 6,31).

Se o Senhor impôs isso até aos Apóstolos, dizendo «descansai um pouco», é necessário a todos os operários sagrados recolher-se de tempos em tempos em solidão, para conservar o recolhimento com Deus e receber forças, trabalhando depois com maior vigor para ganhar as almas. Quem trabalha pelo próximo com pouco zelo e pouco amor a Deus, buscando por amor-próprio honras e dinheiro, pouco fruto faz nas almas. Por isso o Senhor diz aos seus operários: «Descansai um pouco». Ao dizer isso, Jesus Cristo certamente não queria que os Apóstolos se pusessem a dormir, mas que descansassem tratando com Deus, pedindo-lhe as graças necessárias para viver bem, e assim recebessem força para cuidar depois da salvação das almas. Sem esse descanso com Deus na oração, falta vigor para cuidar devidamente do próprio proveito e do proveito das outras pessoas.

São Lourenço Justiniano adverte sabiamente, falando do retiro: «Sempre deve ser amado, nem sempre conservado». Quer dizer que as pessoas chamadas pelo Senhor a converter os pecadores não devem permanecer continuamente em solidão, encerradas numa cela: faltariam à vocação divina. Para obedecer a essa vocação, quando Deus chama, é preciso deixar o retiro; nunca devem, porém, deixar de amar e desejar a solidão, onde Deus mais facilmente se deixa encontrar.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Jesus, pouco amei o retiro porque pouco amei a vós. Fui buscar prazeres e alívios nas criaturas, que me fizeram perder a vós, bem infinito. Ai de mim! Durante tantos anos mantive o coração dissipado, pensando somente nos bens da terra e esquecendo-me de vós! Tomai este coração, pois o comprastes com vosso sangue; inflamai-o no vosso amor e possuí-o inteiro. Maria, Rainha do céu, podeis obter-me essa graça: de vós a espero.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Riflessioni divote sopra diversi punti di spirito (1773), § 40 («Della vita ritirata»), seção inteira e oração, pp. 307–309 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.