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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

O administrador infiel e o dia das contas

DOMINGO, 30 DE JULHO · VIII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O administrador infiel e o dia das contas

LC 16,2

«E êle o chamou, e lhe disse: Que é isto que ouço dizer de ti? Dá conta da tua administração: Porque já não poderás ser meu feitor.»

SUMÁRIO

No juízo particular, a alma presta contas de tudo o que recebeu e fez. É preciso converter-se e acertar as contas enquanto há tempo.

Meus cristãos, de todos os bens recebidos de Deus — de natureza, de fortuna e de graça — não somos donos que possam dispor à vontade: somos administradores. Devemos empregá-los conforme a vontade de Deus, nosso Senhor. Por isso, ao morrer, teremos de prestar rigorosas contas desses bens a Jesus Cristo, nosso Juiz: «Porque importa que todos nós compareçamos diante do Tribunal de Cristo, para que cada um receba o galardão segundo o que tem feito, ou bom ou mau, estando no próprio corpo.». É precisamente o significado daquele «dá conta da tua administração», do Evangelho de hoje, como explica São Boaventura: «Não és senhor, mas administrador das coisas que te foram confiadas; portanto, delas prestarás contas.» Quero hoje colocar diante de vossos olhos o rigor desse juízo, que se fará de cada um de nós no último dia da vida. Consideremos o terror da alma: quando for apresentada ao juízo; quando for examinada; e quando for condenada.

Ponto I

«E assim como estã decretado aos homens que morram uma só vez, e que depois disto se siga o juízo:». É de fé que devemos morrer e que depois da morte seremos julgados por todas as ações de nossa vida. Qual será o espanto de cada um de nós na hora da morte, pensando no julgamento que logo se realizará, no instante em que a alma expirar? Então será decidida a causa de nossa vida ou morte eterna. Ao passar desta vida à eternidade, a vista dos pecados cometidos, o rigor do juízo divino e a incerteza da salvação eterna fazem tremer até os santos.

Santa Maria Madalena de Pazzi, estando enferma, tremia por medo do juízo e disse ao confessor que procurava animá-la: «Ah, padre, é coisa muito grande ter de comparecer diante de Cristo Juiz!» Depois de tantos anos de penitência no deserto, Santo Agatão também tremia na hora da morte: «Que me acontecerá quando eu for julgado?» O venerável padre Luís de Ponte, pensando nas contas que deveria prestar a Deus ao morrer, tremia tanto que fazia tremer o aposento onde estava. O mesmo pensamento levou o venerável padre Juvenal Ancina, do Oratório, depois bispo de Saluzzo, a abandonar o mundo. Ouvindo certo dia cantar o Dies illa, considerou o terror da alma ao apresentar-se diante de Cristo Juiz e resolveu entregar-se inteiramente a Deus, como de fato realizou.

É opinião comum dos teólogos que, no mesmo instante e no mesmo lugar em que a alma se separa do corpo, se estabelece o tribunal divino, se lê o processo e Cristo Juiz profere a sentença. Todos nós compareceremos nesse grande tribunal para dar contas dos pensamentos, palavras e obras: «Porque importa que todos nós compareçamos diante do Tribunal de Cristo, para que cada um receba o galardão segundo o que tem feito, ou bom ou mau, estando no próprio corpo.». Às vezes se viram criminosos suar frio ao comparecerem diante de um juiz terreno. Conta-se que Pisão, apresentando-se ao senado com a veste de réu, sentiu tamanha confusão que, incapaz de suportá-la, tirou a própria vida. Que pena sente também um vassalo ou um filho ao comparecer diante do príncipe ou do pai, que, indignado, o mandou chamar para dar contas de algum delito! Quão maiores serão a pena e a confusão da alma diante de Jesus Cristo, indignado por ter sido desprezado por ela em vida!

São Lucas, falando do juízo, escreve: «E então verão o Filho do homem, que virá sôbre uma nuvem com grande poder, e majestade.». Verão Jesus Cristo como homem, com as mesmas chagas com que subiu ao céu. O abade Roberto exclama: «Grande alegria para quem as contempla; grande temor para quem as aguarda!» Essas chagas consolarão os justos e aterrorizarão os pecadores, que nelas verão o amor do Redentor e sua própria ingratidão. «Diante da face da sua indignação quem é que poderá subsistir? E quem resistirá contra a ira do seu turor? A sua indignação se derramou como um fogo: E ela fez que se derretessem as mesmas pedras.». Que terror terá a alma ao encontrar-se em pecado diante desse Juiz, ao vê-lo pela primeira vez e vê-lo indignado! São Basílio diz que então a vergonha a atormentará mais que o próprio fogo infernal.

Filipe II, descobrindo que alguém de sua casa lhe dissera uma mentira, repreendeu-o: «É assim que me enganas?» O infeliz voltou para casa e morreu de dor. Quando os irmãos de José ouviram sua declaração: «Êle lhes falou docemente, e lhes disse: Chegai-vos para mim. E como êles se tivessem chegado, ajuntou: Eu sou José vosso irmão, a quem vós vendestes para o Egito.», a Escritura diz que, aterrorizados, não conseguiam responder: «e disse para seus irmãos: Eu sou José: vive ainda meu pai? Mas seus irmãos lhe não puderam responder, de passados que ficaram de temor.». Que responderá, pois, o pecador a Jesus Cristo, quando ele lhe disser: «Eu sou aquele teu Redentor e Juiz que tanto desprezaste»? Santo Agostinho pergunta para onde fugirá o infeliz ao ver acima o Juiz irado, abaixo o abismo horrendo, à direita os pecados acusadores, à esquerda os demônios que o arrastam ao suplício, e dentro a consciência em chamas. Para onde fugirá o pecador assim cercado? Eusébio Emisseno pergunta como poderá ter coragem de pedir misericórdia, se primeiro terá de dar contas do desprezo que fez da misericórdia recebida de Jesus Cristo. Passemos à prestação dessas contas.

Ponto II

Apresentada a alma ao tribunal de Jesus Cristo, ele lhe dirá: «Dá conta da tua administração»: presta agora contas de toda tua vida. O Apóstolo ensina que, para a alma ser digna da salvação eterna, sua vida deve mostrar-se conforme à vida de Jesus Cristo: «Porque os que êle conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho, para que êle seja o primogênito entre muitos irmãos.» «E aos que predestinou, a êstes também chamou: E aos que chamou, a êstes também justificou: E aos que justificou também os glorificou.». São Pedro escreve que, no julgamento feito por Jesus Cristo, mal se salvará o justo que observou a lei divina, perdoou os inimigos, respeitou os santos e viveu na castidade e na mansidão: «E se o justo apenas se salvará, o ímpio e o pecador onde comparecerão?». Onde irão salvar-se os vingativos, os blasfemadores, os desonestos, os maledicentes? Pergunto, pois: que será daqueles cuja vida quase sempre foi contrária à vida de Jesus Cristo?

O Juiz exigirá primeiro do pecador contas dos benefícios e graças que lhe concedeu para vê-lo salvo e dos quais não soube aproveitar-se. Exigirá contas dos anos concedidos para servir a Deus, mas gastos em ofendê-lo: «Tirou o Senhor todos os meus magnates do meio de mim: Chamou contra mim o tempo, para quebrantar os meus escolhidos: O Senhor calcou o lagar à virgem filha de Judá.». Depois pedirá contas dos pecados. Os pecadores cometem as culpas e delas se esquecem; Jesus Cristo, porém, não se esquece. Conforme diz Jó, conserva numeradas, como dentro de uma bolsa, todas as nossas iniquidades: «Tu selaste como em um saco os meus delitos mas curaste a minha iniquidade.». Além disso, avisa que no dia das contas tomará a lâmpada para examinar todos os atos de nossa vida: «E naquele tempo acontecerá isto: Eu esquadrinharei a Jerusalém com muitas luzes: E virei com a minha visita sobre os homens que estão encravados nas suas fezes: Que dizem nos seus corações: O Senhor não nos há de fazer nem bem, nem fará mal.». Mendoza comenta que a lâmpada penetra com sua luz todos os cantos da casa: Deus descobrirá todos os defeitos da consciência, grandes e pequenos. Santo Anselmo diz que se exigirão contas até de um olhar; e São Mateus, de cada palavra ociosa: «E digo-vos, que tôda a palavra ociosa, que falarem os homens, darão conta dela no dia do Juízo.».

O profeta Malaquias diz que, assim como se funde o ouro para separar-lhe a escória, naquele dia todas as ações serão examinadas e toda impureza nelas encontrada será castigada: «E será como um homem que se assenta a fundir, e a refinar a prata, e ele purificará os filhos de Levi, e os refinará como o ouro, e como a prata, e eles oferecerão sacrifícios ao Senhor em justiça;». Mesmo as justiças, isto é, as obras boas — confissões, comunhões e orações — serão examinadas quanto ao modo como as fizemos: «Quando eu tomar o meu tempo, julgarei com justiça.». Se olhares, palavras ociosas e até obras boas serão julgados, com que rigor serão julgadas as palavras impuras, as blasfêmias, as graves murmurações, os furtos e os sacrilégios? São Jerônimo diz que naquele dia cada alma verá por si, para sua confusão, todo o mal que fez. «Os juízos do Senhor são pêso e balança: E as suas obras são tôdas as pedras do saco.». Na balança do Senhor não se pesam nobreza, riqueza ou ciência, mas a vida e as obras. Assim, quem viveu no campo, na pobreza e sem instrução receberá o prêmio, se for inocente; e quem possuiu nobreza, riqueza e ciência será condenado, se for culpado. Foi o que Daniel disse ao rei Baltasar: «TECEL: Tu fôste pesado na balança, e achou-se que tinhas menos do pêso.». O padre Álvarez comenta: «Não vão para a balança o ouro nem as riquezas: somente o rei é pesado.»

O pobre pecador verá então o demônio acusá-lo. Santo Agostinho escreve que, diante do tribunal de Cristo, ele recitará as palavras de nossa profissão e nos lançará em rosto tudo o que fizemos, indicando o dia e a hora do pecado. Apresentará as promessas feitas a Deus e depois descumpridas; censurará todas as nossas maldades, assinalando quando as cometemos. Concluirá, segundo o mesmo santo: «Senhor, por este ingrato não sofri golpes nem açoites, não padeci coisa alguma. Ele, porém, voltou as costas a vós, que tanto sofrestes para salvá-lo, a fim de tornar-se meu escravo. Por justiça, portanto, ele me pertence.»

O Anjo da Guarda também virá acusá-lo, conforme escreve Orígenes: «Trabalhei tantos anos junto dele, mas desprezou todas as minhas advertências.» Assim, até os amigos desprezarão aquela alma culpada: «Chorou sem cessar durante a noite, e as suas lágrimas correm pelas faces: Não há quem a console entre todos os seus amados: Todos os seus amigos a desprezaram, e se lhe tornaram inimigos.». Os próprios pecados a acusarão, diz São Bernardo: «Tu nos fizeste; somos tuas obras e não te abandonaremos.» Dirão: «Somos teus filhos, não te deixaremos; seremos teus companheiros no inferno durante toda a eternidade.»

Ponto III

Vejamos agora quais desculpas o pecador poderá apresentar. Dirá que a má inclinação natural o arrastou ao mal. Receberá a resposta de que, embora os sentidos o inclinassem ao mal, ninguém o forçava a praticá-lo; pelo contrário, se recorresse a Deus nas tentações, Deus lhe daria pela graça a força para resistir. Para esse fim Jesus Cristo nos deixou os sacramentos. Se não queremos valer-nos deles, de quem podemos queixar-nos, senão de nós? «Se eu não viera e não lhes tivera falado, não teriam êles pecado: Mas agora não têm desculpa no seu pecado.».

Dará como desculpa a tentação do demônio. Santo Agostinho, porém, diz que o inimigo está preso como um cão acorrentado, que não pode morder ninguém, a menos que alguém dele se aproxime com mortal despreocupação. O demônio pode latir, mas só morde quem se une a ele e lhe dá ouvidos. O santo acrescenta: «Vede, pois, quanto é insensato quem se deixa morder por um cão preso à corrente.» Talvez alegue o mau hábito adquirido. Nem isso lhe valerá: o mesmo Santo Agostinho diz que, embora seja difícil resistir ao mau hábito, quem não se abandonar ao pecado e se recomendar a Deus vencerá com o auxílio divino. São Paulo diz que o Senhor não permite tentações acima de nossas forças: «Vós ainda não experimentastes, senão tentações humanas, mas Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais tentados mais do que podem as vossas fôrças; antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para o poderdes suportar.».

Jó dizia: «Pois que farei quando Deus se levantar para me julgar? E quando me perguntar, que lhe responderei?». Que responderá o pecador a Jesus Cristo? Que poderá responder, vendo-se assim convencido de culpa? Calará cheio de confusão, como o homem descrito por São Mateus, encontrado sem a veste nupcial: «E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestido nupcial? Mas êle emudeceu.». A própria iniquidade lhe fechará a boca: «Vê-lo-ão os retos, e alegrar-se-ão: E tôda a maldade fechará a sua bôca.». São Tomás de Vilanova diz que então não haverá intercessores a quem recorrer: nem amigo, nem pai. Quem te salvará? Deus? São Basílio pergunta como poderia salvar-te aquele Deus que desprezaste. Ah, a alma culpada que deixa esta vida em pecado condena-se por si mesma antes da sentença! Passemos, finalmente, à sentença.

Ponto IV

Tão grande será a alegria da alma recebida por Jesus Cristo, no instante de morrer, com aquelas palavras dulcíssimas — «Seu senhor lhe disse: Muito bem, servo bom, e fiel, já que foste fiel nas cousas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; entra no gôzo de teu Senhor.» — quanto serão a pena e o desespero da alma culpada, repelida pelo Juiz com estas palavras: «Então dirá também aos que hão de estar à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo, e para os seus anjos:». Que trovão terrível será para ela essa sentença! O Cartuxo exclama: «Oh, quão terrivelmente ressoará aquele trovão!» Eusébio acrescenta que os pecadores sentirão tanto terror ao ouvir sua condenação que, se pudessem morrer, morreriam novamente.

Antes de terminar o sermão, porém, façamos algumas reflexões úteis. São Tomás de Vilanova diz que certas pessoas ouvem falar do juízo e da condenação dos malfeitores e pouco se importam, como se tivessem certeza de que nada disso lhes diz respeito, ou de que para elas nunca chegaria o dia do juízo. E acrescenta: «Que insensata segurança diante de perigo tão grande!» Santo Agostinho escreve que alguém, embora vivendo em pecado, não consegue imaginar que Deus queira mandá-lo ao inferno, e pergunta: «Será que Deus realmente me condenará?» O santo responde: «Não, filho, não fales assim.» Muitos condenados também não acreditavam que seriam enviados ao inferno; mas chegou o fim e para lá foram lançados, conforme a ameaça feita por Ezequiel: «E tu, filho do homem, dize: Isto diz o Senhor Deus à terra de Israel: O fim vem, vem o fim sobre as quatro plagas desta terra.» «Agora é que vem o fim sôbrf:' ti. e eu desafogarei o meu furor contra ti: E te julgarei conforme os teus caminhos: E te porei diante dos olhos todas as tuas abominações.».

Meu pecador, quem sabe se teu castigo também está próximo, enquanto brincas e dormes no pecado? Quem não tremerá diante destas palavras do Batista: «Porque já o machado está pôsto à raiz das árvores. Tôda a árvore pois que não dá bom fruto, será cortada, e lançada no fogo.»? Disse que toda árvore sem bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Antes disso, declarou que o machado já se encontra na raiz dessas árvores, que representam os pecadores: o castigo lhes está próximo. Sigamos, caríssimos, o conselho do Espírito Santo: «Trabalha por adquirir para ti a justiça antes que julgues, e aprende antes que fales.». Acertemos as contas antes do dia de prestá-las. Busquemos Deus enquanto podemos encontrá-lo, porque virá o tempo em que desejaremos encontrá-lo e não poderemos: «Vós me buscareis, e não me achareis: E onde eu estou, vós não podeis vir.». Santo Agostinho diz: «Antes do juízo, o Juiz pode ser aplacado; no juízo, não pode.» Agora, mudando de vida, podemos aplacar Jesus Cristo e recuperar sua graça. Quando, porém, ele for Juiz e nos encontrar em pecado, deverá exercer a justiça, e nós ficaremos perdidos.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Sermoni compendiati (1771), Sermone XXXVII, «Per la domenica VIII dopo Pentecoste. Del giudizio particolare», introdução e três pontos integrais, pp. 511–516. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.