Da preparação para a santa comunhão e da ação de graças
1 SM 7,3
«Falou pois Samuel a toda a casa de Israel, dizendo: Se vós tornais de todo o vosso coração para o Senhor, botai fora do meio de vós os deuses estrangeiros, Baal e Astarot: e preparai os vossos corações para o Senhor, e servi ele só, e ele vos livrará da mão dos filisteus.»
SUMÁRIO
A comunhão frutifica pelo desprendimento, pelo desejo de amar Jesus e pela oração de ação de graças.
Ponto I
O Cardeal Bona pergunta: por que tantas almas, apesar de tantas comunhões, avançam tão pouco no caminho de Deus? Responde: «A falta não está no alimento, mas na disposição de quem come.» A deficiência está na pouca preparação de quem o recebe. O fogo logo incendeia a madeira seca; a verde, porém, não, porque está mal disposta a arder. Os santos colhiam grande proveito das comunhões porque se dedicavam muito à preparação.
Duas coisas principais a alma deve procurar para preparar-se. A primeira é desprender-se das criaturas, expulsando do coração tudo o que não pertence a Deus ou não é para ele. Embora a alma esteja em graça, se o coração está ocupado por afetos terrenos, quanto mais terra houver nele, menos espaço encontrará o amor divino. Um dia Santa Gertrudes perguntou ao Senhor que preparação desejava dela para a santa comunhão. Jesus respondeu: «Nada mais te peço senão que venhas receber-me vazia de ti mesma.»
A segunda coisa necessária para tirar grande fruto da comunhão é desejar receber Jesus Cristo com a finalidade de amá-lo mais. Gerson diz que nessa mesa somente ficam saciados os que têm muita fome. São Francisco de Sales escreveu que a principal intenção da alma ao comungar deve ser progredir no amor a Deus: «Deve-se receber por amor aquele que somente por amor se dá a nós.» Por isso Jesus disse a Santa Matilde: «Quando fores comungar, deseja todo o amor que um coração já teve por mim; e eu o receberei como se fosse o amor que desejas ter.»
Depois da comunhão, também é necessária a ação de graças. Nenhuma oração agrada mais a Deus que a realizada após comungar. Nesse tempo, a pessoa deve deter-se em afetos e súplicas. Os afetos devotos então realizados têm diante de Deus maior mérito que os de outro tempo, porque recebem força da presença de Jesus Cristo, unido à alma. Quanto às orações, Santa Teresa dizia que, depois da comunhão, Jesus permanece na alma como num trono de graça e lhe pergunta: «Que queres que eu te faça?» Alma, vim expressamente do céu para dispensar-te graças: pede-me o que quiseres e quanto quiseres, e serás atendida. Oh, que tesouros de graça perdem as pessoas que pouco se detêm em oração a Deus após comungar!
AFETOS E ORAÇÕES
Ó Deus de amor, desejais tanto distribuir-nos vossas graças, e tão pouco cuidamos de pedi-las! Que dor sentiremos ao morrer, pensando nessa negligência tão prejudicial! Meu Senhor, esquecei o passado. Daqui em diante, com vosso auxílio, quero preparar-me melhor, procurando afastar o apego a tudo o que impede receber as graças que desejais conceder-me. Depois da comunhão, quero demorar-me quanto puder, para obter de vós auxílio para progredir em vosso amor. Concedei-me cumprir esse propósito.
Ah, meu Jesus, quanta negligência houve no passado em amar-vos! O tempo de vida que me concedeis por misericórdia deve servir à preparação para a morte e à reparação, por meu amor, das ofensas que vos fiz. Quero empregá-lo inteiramente em chorar meus pecados e amar-vos. Meu Jesus e meu amor, eu vos amo; amo-vos, meu único bem. Tende piedade de mim, não me deixeis. E vós, minha esperança Maria, jamais deixeis de socorrer-me por vossa intercessão.

