Deus é o bem que faz o paraíso
GN 15,1
«Passado isto, falou o Senhor a Abrão numa visão, e lhe disse: Não temas, Abrão; eu sou teu protetor, e a tua paga será infinitamente grande.»
SUMÁRIO
A visão e o amor de Deus são a recompensa principal do paraíso e ultrapassam suas demais alegrias.
Ponto I
Uma vez que a alma entrou na felicidade de Deus, nada mais pode afligi-la. «E Deus lhes enxugará todas as lágrimas de seus olhos, e não haverá mais morte, nem haverá mais chôro, nem mais gritos, nem mais dor, porque as primeiras coisas são passadas.» E aquele que estava sentado no trono disse: «Então o que estava assentado no trono, disse: Eis ai faço eu novas todas as coisas. E ele me disse: Escreve, porque estas palavras são «muito fieis e verdadeiras.» (Ap 21,4-5). No paraíso já não há enfermidades, pobreza ou incômodos; não há alternância de dias e noites, frio e calor. Há um dia contínuo, sempre sereno, uma primavera constante, sempre deliciosa. Já não existem perseguições nem invejas. Naquele reino de amor, todos se amam ternamente e cada qual se alegra com o bem de outrem como se fosse seu. Já não há temores: confirmada na graça, a alma não pode mais pecar nem perder seu Deus. «Eis que faço novas todas as coisas.» Tudo é novo, tudo consola e sacia; encontra-se ali tudo o que se pode desejar.
A vista se contentará contemplando aquela cidade de perfeita beleza: «cidade de perfeita formosura» (Lm 2,15). Que delícia seria ver uma cidade cujas ruas tivessem pavimento de cristal, palácios de prata com tetos de ouro e adornos de grinaldas de flores! Quanto mais bela será a cidade do paraíso! Que será ver seus cidadãos vestidos com trajes reais, pois, como diz Santo Agostinho, todos são reis: «Tantos cidadãos, tantos reis!» Que será ver Maria, cuja beleza excederá a de todo o paraíso! Que será contemplar o Cordeiro divino, o esposo Jesus! Santa Teresa viu apenas uma vez uma mão de Jesus Cristo e ficou maravilhada com tamanha beleza.
O olfato se contentará com aqueles perfumes, perfumes do paraíso. O ouvido se contentará com as harmonias celestes. São Francisco ouviu de um anjo uma só arcada de viola e quase morreu de tanta doçura. Que será ouvir todos os santos e anjos cantarem em coro as glórias de Deus! «Bem-aventurados, Senhor, os que moram na tua casa: Pelos séculos dos séculos te louvarão.» (Sl 83,5). Que será ouvir Maria louvando a Deus! Sua voz no céu, diz São Francisco de Sales, será como a de um rouxinol no bosque, cujo canto supera o de todas as outras aves. Em suma, ali estão todas as delícias que se podem desejar.
As delícias consideradas até agora, porém, são os menores bens do paraíso. O bem que faz o paraíso é o sumo bem: Deus. Santo Agostinho diz: «Tudo o que esperamos cabe nestas duas sílabas: Deus.» A recompensa que o Senhor nos promete não consiste somente nas belezas, harmonias e demais alegrias daquela cidade bem-aventurada. A recompensa principal é o próprio Deus: vê-lo e amá-lo face a face. «Passado isto, falou o Senhor a Abrão numa visão, e lhe disse: Não temas, Abrão; eu sou teu protetor, e a tua paga será infinitamente grande.» (Gn 15,1). Santo Agostinho diz que, se Deus mostrasse sua face aos condenados, imediatamente o próprio inferno se transformaria num paraíso aprazível. Acrescenta: se uma alma saída desta vida pudesse escolher entre ver Deus e estar nas penas do inferno ou não vê-lo e ficar livre dessas penas, preferiria ver o Senhor, ainda que entre aqueles tormentos.
Não podemos compreender nesta vida a alegria de ver e amar Deus face a face. Podemos, entretanto, entrever algo dela. Primeiro, sabemos que o amor divino é tão doce que, já nesta vida, chegou a elevar da terra os corpos dos santos e também suas almas. Certa vez São Filipe Néri foi arrebatado pelo ar com o banco ao qual se agarrou. São Pedro de Alcântara também foi elevado do chão abraçado a uma árvore, arrancada até as raízes. Também sabemos que a doçura do amor divino fazia os santos mártires exultarem nos próprios tormentos. São Vicente, enquanto era torturado, falava de tal modo que, segundo Santo Agostinho, parecia que uma pessoa sofria e outra falava. São Lourenço, na grelha sobre o fogo, desafiava o tirano: «Vira e come.» Sim, diz o mesmo Santo Agostinho: inflamado pelo fogo do amor divino, Lourenço não sentia as chamas.
E que doçura experimenta na terra um pecador, mesmo ao chorar seus pecados! Por isso São Bernardo dizia: «Se é tão doce chorar por vós, que será alegrar-se em vós?» Que suavidade sente uma alma quando, na oração, um raio de luz lhe revela a bondade divina, as misericórdias que Deus lhe concedeu e o amor que Jesus Cristo lhe teve e lhe tem! A alma sente então que se derrete e desfalece de amor. Contudo, nesta terra não vemos Deus como ele é; vemo-lo obscuramente: «Nós agora vemos a Deus como por um espelho em enigmas, mas então face a face. Agora conheço-o em parte, mas então hei de conhecê-lo, como eu mesmo sou também dêle conhecido.» (1 Cor 13,12). Temos agora uma venda diante dos olhos, e Deus está atrás do véu da fé, sem se deixar ver por nós. Que será quando a venda for retirada e esse véu se levantar, para que vejamos Deus face a face? Veremos como Deus é belo, grande, justo, perfeito, digno de amor e cheio de amor.
AFETOS E ORAÇÕES
Ah, meu sumo bem, sou aquele miserável que vos voltou as costas e renunciou a vosso amor. Por isso, já não mereceria ver-vos nem amar-vos. Mas sois aquele que, para compadecer-se de mim, não se compadeceu de si próprio: sujeitastes-vos a morrer de dor, coberto de vergonha num madeiro infame. Vossa morte me permite esperar que um dia verei e gozarei de vossa face, e então vos amarei com minhas forças todas. No presente, porém, corro o perigo de perder-vos para sempre, e já vos perdi por meus pecados: que farei na vida que me resta? Continuarei a ofender-vos?
Não, Jesus meu. Abomino inteiramente as ofensas que vos fiz. Sinto imensa dor por vos ter injuriado e com todo o coração vos amo. Expulsareis de vossa presença uma alma que se arrepende e vos ama? Não; já conheço o que dissestes, amado Redentor: não rejeitais quem chega arrependido a vossos pés. «Todo o que meu Pai me dá, virá a mim: E o que vem a mim, eu não o lançarei fora.» (Jo 6,37). Meu Jesus, deixo tudo e me volto para vós. Abraço-vos e vos aperto contra meu coração; abraçai-me também e estreitai-me ao vosso Coração. Ouso falar assim porque me dirijo à bondade infinita, a um Deus que aceitou morrer por meu amor. Meu querido Salvador, dai-me perseverança em vos amar. Maria, minha querida Mãe, pelo amor que tendes a Jesus Cristo, alcançai-me essa perseverança. Assim espero; assim seja.

