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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Da pureza de intenção

TERÇA-FEIRA, 27 DE JUNHO · TERÇA-FEIRA — FÉRIA DEPOIS DE PENTECOSTES

Da pureza de intenção

CL 3,17

«Tudo quanto quer que fizerdes seja de palavra ou de obra, fazei tudo isso em nome do Senhor Jesus Cris- “to, dando por ele graças a Deus, e Padre.»

SUMÁRIO

A pureza de intenção dá valor às obras mais simples quando se fazem somente para agradar a Deus.

Ponto I

A pureza de intenção consiste em fazer tudo somente para agradar a Deus. Jesus Cristo disse que, conforme a intenção seja boa ou má, assim será a obra diante de Deus: «O teu ôlho é a luz do teu corpo. Se o teu ôlho fôr simples: Todo o teu corpo será luminoso.» «Mas se o teu ôlho for mau: Todo o teu corpo estará em trevas. Se pois a luz, que em ti há, são trevas: Quão grandes não serão essas mesmas trevas?» (Mt 6,22-23). Pelo olho simples se entende a intenção pura, voltada a contentar Deus; pelo olho escuro, a intenção sem retidão, quando se age por vaidade ou para agradar a si. Existe ação mais bela que dar a vida pela fé? Entretanto, São Paulo diz que nada aproveita o martírio de quem morre por outro fim que agradar a Deus. Se até o martírio nada vale quando não é sofrido por Deus, de que valerão todas as pregações, os livros, os trabalhos dos ministros sagrados e mesmo as mortificações dos penitentes, caso se façam para receber louvores ou seguir o próprio gosto? O profeta Ageu disse que as obras, embora santas em si, quando não se fazem por Deus, são postas num saco furado. Tudo sai por ele; nada permanece.

Ao contrário, uma ação feita para contentar a Deus, por pequeno que seja seu valor em si, vale muito mais que numerosas obras feitas sem finalidade pura. São Marcos conta que uma pobre viúva colocou somente duas moedas na caixa de esmolas do templo. Dela, porém, o Salvador disse: «E convocando a seus discípulos, lhes disse: Na verdade vos digo, que mais deitou esta pobre viúva, que todos os outros que lançaram no gazofilácio.» (Mc 12,43). São Cipriano comenta que deu mais que todos porque entregou aquelas duas pequenas moedas com pura intenção de agradar a Deus. Para reconhecer se alguém age com intenção reta, um dos melhores sinais é conservar a paz quando a obra não produz o efeito desejado. Outro bom sinal é continuar em contentamento e tranquilidade mesmo quando se recebe murmuração ou ingratidão por aquilo que se fez. Se, porém, chegam louvores, não é preciso inquietar-se pelo temor da vanglória. Quando ela aparecer, despreze-se com São Bernardo: «Não comecei por tua causa, nem por tua causa desistirei.»

É boa a intenção de agir para adquirir maior glória no céu; a mais perfeita, contudo, é agradar a Deus. Convençamo-nos de que, quanto mais nos despojarmos de nossos interesses, mais o Senhor aumentará nossa alegria no paraíso. Feliz quem age somente para glorificar Deus e seguir sua vontade! Imitemos o amor dos bem-aventurados: ao amar Deus, só procuram agradar-lhe. São João Crisóstomo diz: Se conseguimos dar gosto a Deus, que mais procuramos? «Se fores digno de fazer algo que agrada a Deus, procuras outra recompensa além disso?» Este é o único olho que fere de amor o coração de Deus, segundo disse à esposa sagrada: «Tu feriste o meu coração, irmã minha espôsa, tu feriste o meu coração, com um dos teus olhos, e com um cabelo do teu pescoço.» (Ct 4,9). Esse olho significa a única finalidade das almas esposas em suas ações: agradar a Deus. Era isto que o Apóstolo aconselhava a seus discípulos: «Logo, ou vós comais, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa: Fazei tudo para glória de Deus.» (1 Cor 10,31).

A venerável Beatriz da Encarnação, primeira filha de Santa Teresa, dizia: Não há preço com que se possa pagar qualquer coisa, por mínima que seja, feita por Deus. Dizia com razão, pois todas as obras feitas por Deus são atos de amor divino. A intenção pura torna preciosas as ações mais humildes: comer, trabalhar e até recrear-se, quando tudo se faz por obediência e para dar gosto a Deus. Desde a manhã, portanto, devemos dirigir a Deus todas as obras do dia. Muito aproveita renovar essa intenção ao começar cada ação, pelo menos as principais: a oração, a comunhão e a leitura espiritual. Detenhamo-nos um pouco no princípio delas, como fazia um santo eremita: antes de começar qualquer tarefa, erguia os olhos ao céu e parava. Perguntaram-lhe o que fazia; respondeu: Procuro acertar o golpe.

AFETOS E ORAÇÕES

Meu Jesus, quando começarei a amar-vos verdadeiramente? Que miséria a minha! Se entre minhas obras, mesmo as boas, procuro uma feita somente para vos agradar, Senhor, não a encontro. Compadecei-vos de mim. Não deixeis que vos sirva tão mal até morrer. Concedei-me vosso auxílio, para que a vida restante seja empregada unicamente em vos servir e amar. Fazei que vença tudo para vos contentar e que somente o desejo de vos agradar dirija todas as minhas ações. Suplico-vos pelos merecimentos de vossa Paixão. Maria, minha grande Advogada, por vossas preces alcançai-me esta graça.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Riflessioni divote sopra diversi punti di spirito (1773), Riflessioni divote sopra diversi punti di spirito, § 44, «Purità d’intenzione», seção integral, pp. 313–314 do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.