Solenidade do Corpo de Deus
IS 12,6
«Exulta, e louva, morada ele Sião: Porque o grande, o Santo de Israel está no meio de ti.»
SUMÁRIO
Jesus permanece no altar por amor e misericórdia. A festa do Santíssimo Sacramento e o exemplo dos santos convidam à adoração, à reparação e à confiança; a visita a Maria acompanha a visita eucarística.
Ponto I
A santa fé ensina, e temos obrigação de crer: Jesus Cristo encontra-se realmente na hóstia consagrada sob as espécies do pão. Mas devemos compreender também que ele permanece em nossos altares como num trono de amor e misericórdia, para distribuir graças e manifestar o amor que nos tem, querendo habitar entre nós, assim oculto, durante o dia e durante a noite. É sabido que, especialmente para esse fim, a santa Igreja quis instituir a festa do Santíssimo Sacramento, com oitava solene, e tantas solenidades de procissões e exposições do Santíssimo que se realizam nesse tempo: para que, com suas homenagens, ações de graças e afetos, os homens reconheçam e honrem agradecidamente essa amorosa presença e permanência de Jesus Cristo no Sacramento do altar.
Ó Deus, quantas injúrias e quantos desprezos este amável Redentor teve e tem de sofrer diariamente nesse Sacramento, da parte dos mesmos homens por cujo amor ficou na terra, sobre os altares! Ele se queixou disso à sua querida serva, irmã Margarida Alacoque, conforme relata o autor do livro sobre a devoção ao Coração de Jesus. Certo dia, justamente quando ela permanecia diante do Santíssimo Sacramento, Jesus mostrou-lhe seu Coração num trono de chamas, coroado de espinhos e encimado por uma cruz. Disse-lhe então: Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou e chegou a consumir-se para lhes mostrar seu amor; em retribuição, porém, recebo da maior parte deles somente ingratidões, pelas irreverências, friezas, sacrilégios e desprezos que me fazem neste Sacramento de amor. O que mais me dói é que são corações a mim consagrados.
Jesus pediu-lhe então que a primeira sexta-feira depois da oitava do Sacramento fosse dedicada a uma festa particular em honra de seu adorável Coração, na qual as almas que o amam procurassem compensar, com suas homenagens e seus afetos, os desprezos recebidos dos homens nesse Sacramento sobre os altares. Prometeu graças abundantíssimas a quem lhe prestasse tal honra.
Isso permite compreender o que o Senhor já dissera por seu profeta: encontra suas delícias em permanecer entre os homens, pois não quer deixá-los, embora por eles abandonado e desprezado. Mostra também quanto agradam ao Coração de Jesus aqueles que o visitam frequentemente e lhe fazem companhia nas igrejas onde permanece sacramentado. Mandou que Santa Maria Madalena de Pazzi lhe fizesse trinta e três visitas a cada dia no Santíssimo Sacramento. Essa sua dileta esposa obedeceu-lhe fielmente, aproximando-se do altar em cada visita tanto quanto podia, também com o corpo, como se narra em sua vida.
Ponto II
Falem todas aquelas almas devotas que frequentemente se detêm junto do Santíssimo Sacramento e contem os dons, as luzes, as chamas que ali recebem, o paraíso de que gozam na presença desse Deus sacramentado. O servo de Deus, padre Luís La Nusa, grande missionário na Sicília, já na juventude, quando ainda vivia no mundo, era tão enamorado de Jesus Cristo que parecia incapaz de se separar da presença de seu querido Senhor, tamanhas eram as delícias que nela experimentava. Seu diretor mandou-lhe, por obediência, que não permanecesse ali mais de uma hora. Terminada a hora, ao obedecer, manifestava — diz quem escreveu sua vida — a grande violência que fazia a si para se desprender do peito de Jesus Cristo, como uma criança quando a afastam do seio materno enquanto suga o leite com maior avidez. Devendo partir, conta-se que ainda ficava de pé, olhando o altar e repetindo inclinações, como quem não sabe despedir-se de seu Senhor, cuja presença lhe era tão doce e agradável.
Também a São Luís Gonzaga foi ordenado, por obediência, que não se demorasse diante do Santíssimo Sacramento. Ao passar ali e sentir-se atraído a permanecer pelas doces atrações do Senhor, retirava-se com esforço, dizendo-lhe com ternura de amor: Afastai-vos de mim, Senhor, afastai-vos.
Ali São Francisco Xavier encontrava repouso para os muitos trabalhos que suportava nas Índias: ocupava o dia em ajudar as almas e passava depois a noite em oração perante o Santíssimo Sacramento. São João Francisco Régis costumava fazer o mesmo. Quando encontrava a igreja fechada, consolava-se ficando de joelhos diante da porta, à chuva e ao frio, para prestar ao menos de longe sua homenagem ao Consolador sacramentado. Em qualquer aflição que lhe sobreviesse, São Francisco de Assis ia logo comunicá-la a Jesus sacramentado.
Muito terna era a devoção do rei São Venceslau ao Santíssimo Sacramento. Tão enamorado era de Jesus sacramentado que não somente recolhia o trigo e as uvas com suas próprias mãos, preparava as hóstias e o vinho e os distribuía para as Missas, mas também visitava à noite, mesmo no inverno, as igrejas onde estava o Santíssimo. Nessas visitas sua bela alma recebia chamas de amor divino tão intensas que o ardor se comunicava também ao corpo, de modo que, tocando a neve, tirava-lhe o rigor do frio. Conforme narra a história, um servo acompanhava o santo rei à noite; sofrendo muito frio ao caminhar na neve, o rei teve compaixão dele e mandou que o seguisse, colocando os pés somente em suas pegadas. Assim, o servo deixou de sentir frio.
Ponto III
Nas Visitas se lerão outros exemplos do afeto das almas enamoradas de Deus por permanecer na presença do Santíssimo Sacramento. Todos os santos foram enamorados dessa dulcíssima devoção, pois na terra não podemos encontrar alegria mais bela nem tesouro mais amável do que Jesus no Sacramento. Entre todas as devoções, a de adorar Jesus sacramentado é certamente a primeira depois dos sacramentos, a mais querida de Deus e a mais proveitosa para nós.
Não vos custe, portanto, alma devota, começar também essa prática. Deixando o convívio dos homens, permanecei de hoje em diante, todos os dias, algum tempo, ao menos meia hora ou um quarto de hora, numa igreja, na presença de Jesus Cristo sacramentado. «Gostai, e vêde quão suave é o Senhor: Ditoso o homem, que espera nêle.» (Sl 33,9) Experimentai, e vereis o grande proveito que obtereis. Sabei que o tempo passado devotamente diante desse Sacramento diviníssimo será o que mais fruto vos dará na vida e mais vos consolará na morte e na eternidade. Talvez obtenhais mais num quarto de hora de oração na presença do Sacramento do que em todos os demais exercícios espirituais do dia. É verdade que Deus ouve em qualquer lugar as orações de quem lhe suplica, pois prometeu: «Vós até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi, e recebereis, para que o vosso gôzo seja completo.» (Jo 16,24) Mas o Discípulo ensina que Jesus, no Santíssimo Sacramento, distribui mais abundantemente suas graças a quem o visita. O beato Henrique Suso dizia igualmente que Jesus Cristo sacramentado sobre os altares atende às orações dos fiéis mais do que em outros lugares.
Onde as almas santas tomaram suas mais belas resoluções, senão aos pés do Santíssimo Sacramento? Quem sabe se também vós, diante de algum sacrário, tomareis um dia a resolução de vos entregar inteiramente a Deus? Devo revelar neste pequeno livro, ao menos por gratidão a meu Jesus sacramentado, esta verdade: pela devoção de visitar o Santíssimo Sacramento, embora praticada por mim com tanta frieza e imperfeição, encontro-me fora do mundo, onde, por minha desgraça, vivi até a idade de vinte e seis anos. Feliz a alma que puder desprender-se do século antes de mim e entregar-se inteiramente ao Senhor que todo se deu a ela! Repito: feliz, tanto na eternidade como nesta vida!
Crede-me: tudo é loucura. Festas, comédias, conversações e divertimentos são os bens do mundo, mas bens cheios de fel e de espinhos. Crede em quem os experimentou e chora essa experiência. Tende por certo que Jesus Cristo sabe consolar a alma que permanece com algum recolhimento diante do Santíssimo Sacramento mais do que o mundo com todas as suas festas e diversões.
Que bela delícia estar diante de um altar, com fé e alguma terna devoção, falando familiarmente com Jesus Cristo, que ali está precisamente para ouvir e atender a quem lhe suplica! Pedir-lhe perdão dos desgostos causados! Apresentar-lhe as necessidades, como um amigo a outro em quem tem inteira confiança! Buscar suas graças, seu amor, seu paraíso! Sobretudo, que paraíso ocupar-se em atos de amor para com o Senhor que, naquele altar, está rogando por nós ao Pai eterno e ardendo de amor por nós! Esse amor o faz consentir em permanecer tão escondido e desconhecido, e até desprezado pelos ingratos. Mas de que servem mais palavras? Provai e vede.
Ponto IV
Quanto à visita a Maria Santíssima, é célebre e comumente seguida a sentença de São Bernardo: Deus não distribui graça alguma que não passe pelas mãos de Maria. O padre Suárez atesta que, em nossos dias, é sentimento da Igreja universal ser a intercessão de Maria não apenas útil, mas também necessária para obter as graças. Grande fundamento disso é observar que a santa Igreja aplica a Maria palavras da divina Escritura, fazendo-a dizer: Em mim está toda a esperança da vida e da virtude; vinde a mim todos (Eclo 24). Vinde todos a mim, porque sou a esperança de todo o vosso bem. Depois acrescenta: «Bem-aventurado o homem que me ouve e que vela todos os dias à entrada da minha casa, e que está feito espia às umbreiras da minha porta.» (Pr 8,34) Feliz quem procura cada dia as portas de minha poderosa intercessão: encontrando-me, encontrará a vida e a salvação eterna: «Aquêle que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação:» (Pr 8,35) Com razão, portanto, a santa Igreja quer que todos a chamemos nossa esperança comum, saudando-a: Esperança nossa, salve.
São Bernardo, que chegava a chamar Maria toda a razão de sua esperança, diz: Busquemos a graça, e busquemo-la por Maria. Busquemos as graças por intermédio de Maria; de outro modo, diz Santo Antonino, pedi-las sem sua intercessão seria tentar voar sem asas, sem obter coisa alguma.
Leiam-se no livro dos Afetos recíprocos, do padre Auriemma, as inúmeras graças concedidas pela Mãe de Deus a quem praticou essa utilíssima devoção de visitá-la frequentemente nas igrejas ou diante de suas imagens. Por semelhantes visitas favoreceu o beato Alberto Magno, o abade Ruperto e o padre Suárez, alcançando-lhes especialmente o dom de entendimento, pelo qual depois se tornaram tão célebres na Igreja por sua ciência. Favoreceu também o irmão João Berchmans, da Companhia de Jesus, que costumava visitar Maria diariamente numa capela do Colégio Romano, declarando renunciar a todos os amores do mundo para amar somente a Santíssima Virgem depois de Deus. Sob a imagem de sua amada Senhora conservava escrito: Não descansarei enquanto não alcançar um terno amor para com minha Mãe.
Concedeu graças a São Bernardino de Sena, que na juventude também ia diariamente visitá-la numa capela junto à porta da cidade. Dizia que aquela Senhora lhe arrebatara o coração; por isso a chamava sua enamorada e afirmava não poder deixar de visitá-la frequentemente. Por seu intermédio alcançou depois a graça de abandonar o mundo e tornar-se o grande santo e apóstolo da Itália que veio a ser.
Procurai, pois, unir também todos os dias à visita ao Santíssimo Sacramento a visita a Maria Santíssima, numa igreja ou, ao menos, diante de alguma devota imagem em casa. Se o fizerdes com afeto e confiança, esperai receber grandes coisas dessa gratíssima Senhora, que costuma, segundo Santo André de Creta, retribuir com grandes dons a menor homenagem que lhe ofereçam.
Doce Maria, minha esperança, quem jamais poderá esquecer-se de vós? Tende, ó Rainha, compaixão de mim.

