Comemoração das sete dores de Maria Santíssima
LM 1,12
«Ó vós todos os que passais pelo caminho, atendei, e vede se há dor semelhante à minha dor.»
SUMÁRIO
Assim como Jesus Cristo é com justiça proclamado Rei dos Mártires por haver suportado mais penas que qualquer outra criatura, do mesmo modo Maria Santíssima conquistou a coroa de Rainha dos Mártires, tendo sofrido um martírio moral que abrangeu toda a sua existência terrena. Consideram-se a longevidade e a intensidade das dores íntimas da Virgem perante a Paixão de seu amado Jesus, e a fecundidade maternal de seu sacrifício que a constituiu Mãe de todos os fiéis.
Ponto IMaria, Rainha dos Mártires: martírio moral longo e doloroso
Da mesma maneira que o divino Salvador é chamado Rei dos Mártires porque padecera na carne suplícios superiores aos de todos os confessores da fé reunidos, com inteira propriedade a Igreja proclama Maria Rainha dos Mártires. Conquistou ela tão gloriosa prerrogativa por haver tolerado um martírio sobremaneira prolongado e acerbo. Afirma São Bernardo que a Virgem Santíssima foi mártir não pelo ferro dos verdugos, senão pela veemente dor que lhe trespassou o espírito. Se o seu corpo imaculado permaneceu intacto das espadas materiais, o seu coração maternal foi dilacerado pelas agonias do Filho, aflição esta que bastaria por si só para dar-lhe milhares de mortes.
Foi este, com efeito, o mais longo dos martírios, pois começou desde o primeiro vislumbre da redenção e estendeu-se por toda a sua vida temporal. Podia a santa Virgem aplicar a si as queixas do salmista: «A minha vida desvaneceu-se na dor, e os meus anos em suspiros contínuos» (Sl 30,11). O anúncio de Simeão colocou diante de seus olhos a cruz iminente, de modo que cada carícia feita ao divino Menino vinha acompanhada da lembrança das futuras feridas da Paixão. Revelou a Senhora a Santa Brígida que, mesmo após a gloriosa Ressurreição e Ascensão de Cristo aos Céus, a memória das chagas de seu doce Filho permaneceu perenemente impressa em sua alma.
Foi outrossim o mais profundo de todos os martírios. Enquanto os outros mártires suportaram dores no corpo e acharam refrigério no amor ardente a Deus que lhes suavizava as chamas e os tormentos, em Maria o próprio afeto divino operava como sagrado algoz: quanto mais puramente amava a Jesus, tanto mais profunda e mortal era a ferida que a visão de seus sofrimentos lhe abria no peito.
Ponto IIA fecundidade do martírio de Maria e a maternidade espiritual
Mas a dor inenarrável de Maria Santíssima não foi estéril nem infecunda. Pondera São Cipriano que o sangue dos mártires cristãos é como semente fecundante de novos crentes; todavia, essa fertilidade nada representa quando confrontada com os merecimentos da Rainha dos Mártires. Pelo sacrifício heroico de seu próprio coração associado à imolação de Cristo sobre o Gólgota, cooperou ela de modo insigne para gerar a humanidade redimida à vida da graça, sendo constituída por Jesus Mãe espiritual de toda a grei cristã ao pé do madeiro, entregue ao discípulo João: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19,26).
Todos os que alcançaram, alcançam e alcançarão a salvação eterna são devedores, abaixo de Cristo Jesus, à compaixão e às preces da Mãe Dolorosa. Se desejamos, por conseguinte, assegurar a nossa perseverança na graça até a pátria celeste, conservemos constante veneração pelas lágrimas de Maria, acolhendo com ânimo resignado as cruzes quotidianas que o Senhor nos enviar e recorrendo à sua poderosa intercessão em todas as tentações.
AFETOS E ORAÇÕES
Ó Deus de infinita bondade, em cuja Paixão sacrossanta uma espada de angústia penetrou, segundo a predição de Simeão, a alma perfeitamente pura da gloriosa Virgem Mãe Maria: outorgai-nos propício que nós, honrando com piedoso afeto as amarguras da sua alma e as dores da vossa cruz, alcancemos, pelos insignes méritos e orações de quantos perseveraram fiéis junto ao vosso patíbulo, a posse fecunda dos frutos da Redenção. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo pelos séculos sem fim. Amém.

