Rezar

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Os frutos da meditação da Paixão de Jesus Cristo

DOMINGO, 2 DE ABRIL · DOMINGO DA PAIXÃO

Os frutos da meditação da Paixão de Jesus Cristo

JO 8,56

«Vosso pai Abraão desejou ansiosamente ver o meu dia: Viu-o, e ficou cheio de gôzo.»

SUMÁRIO

O patriarca Abraão exultou ao entrever profeticamente o dia da Redenção, tempo ditoso em que Deus manifestou o excesso do seu amor morrendo na cruz pelos pecadores. Consideram-se a eficácia incomparável da meditação da Paixão do Salvador para extirpar as culpas e abrasar a alma na caridade divina, e a necessidade de contemplar frequentemente as chagas do Senhor para progredir no caminho da santidade.

Ponto IA visão profética de Abraão e a caridade de Cristo crucificado

Não foi sem profundo mistério que o patriarca Abraão ansiou por contemplar o dia do Redentor, e quando lhe foi dado entrever a reconciliação do mundo em visão profética, encheu-se de jubiloso contentamento (Jo 8,56). A época inaugurada pela Encarnação e morte de Cristo não é tempo de servil receio, mas época de caridade sem limites. Na Antiga Aliança, antes que o Verbo assumisse a nossa carne mortal, podia a criatura humana hesitar quanto à intensidade do amor divino; mas depois que contemplamos o Criador expirar despojado de honras e coberto de opróbrios sobre o patíbulo do Gólgota, já não é lícito duvidar de sua infinita misericórdia: «Ele nos amou e lavou-nos dos nossos pecados em seu próprio sangue» (Ap 1,5).

Ensina Santo Agostinho que nada há de mais salutar para alcançar a bem-aventurança eterna que ponderar quotidianamente as aflições suportadas por Jesus; e Orígenes acrescenta que o vício não encontra guarida na alma que conserva viva a lembrança da morte do Salvador. Por qual razão, contudo, tantos cristãos presenciam os ofícios da Semana Santa com lamentável frieza, sem enternecimento nem gratidão, qual se tratasse de fabulações remotas ou estranhas à sua salvação? Porventura desconhecem o que proclamam os Evangelhos? Não, decerto o creem; mas vivem dissipados sem meditar. É de todo impossível que uma alma convicta da fé, ao considerar com atenção as agonias suportadas pelo seu Deus, não se inflame em amor a ele e não conceba firme propósito de abraçar a perfeição cristã: «A caridade de Cristo nos constrange» (2 Cor 5,14).

Ponto IIO método de meditar a Paixão e a união interior com Jesus

Quem verdadeiramente almeja adiantar-se nas sendas da virtude e crescer na união com Deus, deve ocupar-se assiduamente na contemplação da Paixão de Cristo, segundo o conselho de São Boaventura. De modo particular neste tempo quaresmal, cumpre acompanhar os relatos evangélicos e seguir com espírito recolhido os passos do Redentor nos três grandes cenários de suas amarguras: a escuridão do Horto das Oliveiras, os tribunais de Jerusalém e o cume deserto do Calvário.

Para haurir fruto mais abundante desse piedoso exercício, importa representar interiormente os mistérios com tal vivacidade que nos pareça contemplar diante de nós as chagas abertas pelos cravos, os espinhos que perfuram a fronte divina e o fel que amargura os lábios de Jesus, repetindo com São Paulo: «Tende em vós os mesmos sentimentos de que estava animado Cristo Jesus» (Fl 2,5). Tudo quanto o Salvador realizou e tolerou foi ordenado a manifestar a sua caridade e conquistar o afeto do nosso coração: «Amou-me a mim, e entregou-se a si mesmo por mim» (Gl 2,20). Como recusar amor a um Redentor tão apaixonado pelas nossas almas?

AFETOS E ORAÇÕES

Sim, meu adorável Jesus e meu Deus, amo-vos sobre todas as coisas criadas; e porque vos amo com sincero afeto, detesto de todo o coração as ofensas que cometi contra a vossa infinita majestade, propondo com a vossa graça antes morrer que tornar a pecar. Lançai, Senhor onipotente, um olhar compassivo sobre esta vossa criatura, a fim de que sob a vossa contínua proteção eu seja governado no corpo e defendido de todo perigo na alma. Ó Mãe das Dores, acolhei a minha prece e guiai os meus passos até a pátria celeste. Amém.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Considerazioni ed affetti sovra la Passione di Gesù Cristo (1761), Introduzione: «Della meditazione della Passione di Gesù Cristo», pp. 135-139 da paginação do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.