Comemoração das cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo
IS 12, 3
«Vós tirareis com gosto águas das fontes do Salvador.»
SUMÁRIO
As adoráveis chagas de Jesus crucificado são as fontes bentas anunciadas pelo profeta Isaías, das quais brotam torrentes inesgotáveis de graça e salvação para as almas que a elas acorrem com humilde fé. São mananciais de misericórdia para desarmar a divina justiça, refúgios inabaláveis de esperança para vencer o desânimo na hora das tentações, e verdadeiras fornalhas de amor para incendiar os corações mais arrefecidos na caridade do Redentor.
Ponto I
As sagradas feridas do Salvador constituem mananciais inesgotáveis de misericórdia e de abrigo espiritual. Quis o Filho de Deus ter as mãos, os pés e o peito transpassados no lenho da cruz a fim de cancelar a nossa condenação e oferecer aos pecadores contritos um asilo inviolável contra os golpes da indignação divina. Daí o convite terno registrado nos Cânticos: «Vem, pomba minha, nas aberturas da rocha»; isto é, segundo a interpretação de São Pedro Damião, entra nas chagas do teu Redentor, onde encontrarás refúgio certo contra todo o perigo espiritual.
E como se isso ainda não bastasse para abalar a nossa tibieza, o Senhor renova o seu consolo pela palavra de Isaías: «Eis que te gravei nas palmas das minhas mãos». É como se dissesse à alma hesitante: Ovelha amada, por que temes desamparo? Vê quanto custaste ao meu amor: trago o teu nome impresso nas minhas próprias feridas, e essas chagas recordam-me incessantemente a tua defesa e o teu resgate. Se os teus delitos te causam espanto, confia na minha infinita benignidade, pois maior é o meu desejo de conceder-te o perdão do que a tua capacidade de pedi-lo.
Ponto II
São também as chagas divinas nascentes vivas de esperança. Quis Jesus expirar aniquilado pelas dores do suplício a fim de franquear o reino dos céus a todos quantos obedecem aos seus preceitos e acolhem a graça da penitência. Achando-se São Bernardo gravemente enfermo, pareceu-lhe comparecer ante o divino Tribunal, onde o adversário maligno o acusava de faltas e afirmava não merecer ele a bem-aventurança. Respondeu com serenidade o santo doutor: «Confesso que de mim mesmo não mereço o paraíso; mas Jesus possui dois títulos soberanos a esse reino: um pela filiação divina natural, outro por tê-lo adquirido à custa de sua Paixão. Contentando-se com o primeiro, cedeu-me a herança do segundo; e por esse título confio plenamente na salvação». Eis o que nos cabe igualmente repetir: As vossas chagas, Senhor, são o meu direito e a minha esperança.
Por fim, essas feridas sagradas são vivíssimas fornalhas de amor celeste. Delas manam águas que purificam as consciências manchadas e inflamam o espírito na caridade divina. Por essa causa o Apóstolo proclamava nada desejar saber a não ser a Cristo crucificado, compreendendo que no mistério das feridas do Calvário refulge o afeto incomensurável de um Deus que deu a vida pelas suas criaturas.
AFETOS E ORAÇÕES
Eterno Pai, volvei o vosso olhar compassivo para as benditas chagas de Jesus, vosso Filho unigênito; elas intercedem perpetuamente a meu favor e Vos suplicam misericórdia e perdão. Perdoai as minhas repetidas infidelidades e abrasai o meu pobre coração no fogo sagrado do vosso amor, de modo que eu não busque nem ame nada fora de Vós. E vós, ó sacratíssimas chagas do meu amado Salvador, fornalhas inefáveis de caridade, recebei-me e defendei-me nas horas de provação. «E Vós, Deus onipotente, que pela paixão de vosso Filho e pelo sangue derramado das suas cinco chagas restaurastes o gênero humano perdido: concedei-me que, venerando devotamente na terra essas chagas sagradas, mereça usufruir nos céus o fruto perene da sua redenção». Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

