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SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

Meditação do dia

Maria Santíssima, modelo de amor a Deus

SÁBADO, 18 DE MARÇO · SÁBADO — FÉRIA DA QUARESMA

Maria Santíssima, modelo de amor a Deus

ECLO 24,24

«Eu sou a mãe do amor formoso.»

SUMÁRIO

Sendo Maria Santíssima perfeitamente humilde e isenta de todo afeto terreno, seu coração ardeu ininterruptamente nas chamas da mais sublime caridade divina, cumprindo com perfeição consumada o primeiro preceito da Lei. Ponderam-se a chama contínua de amor que não cessava nem durante o repouso do sono, o desejo ardente da Senhora de ver Deus amado por todas as criaturas e o recurso filial a ela para nos inflamar no santo amor divino.

Ponto IA perfeição da caridade em Maria e o contínuo ato de amor

Ensina Santo Anselmo que onde habita maior pureza, ali reina maior caridade; e porquanto Maria Santíssima foi perfeitamente desapegada de si mesma, achou-se cumulada do amor celestial em grau tal que excedeu o ardor de qualquer criatura humana ou angélica na dileção do Altíssimo, merecendo ser proclamada por São Francisco de Sales a Rainha do Amor. Ordenou o Senhor à humanidade amá-lo de todo o coração (Mt 22,37); todavia, como observa Santo Tomás, este preceito só é plenamente vivido pelos justos na pátria celestial, sendo cumprido de modo imperfeito na presente peregrinação terrena. Reflete, porém, o Bem-Aventurado Alberto Magno que não convinha à soberana sabedoria de Deus promulgar um mandamento que por ninguém fosse perfeitamente observado neste mundo; cumpriu-o, portanto, de modo perfeitíssimo a Virgem Maria, em quem a caridade superou todas as medidas terrenas.

Deus, que é a própria caridade (1 Jo 4,8), veio ao mundo para inflamar os corações; mas nenhum peito ardeu com tanta pureza como o de sua Mãe imaculada. Por isso o coração de Maria tornou-se qual fornalha mística, aplicando-se-lhe os louvores dos Cânticos: «As suas lâmpadas são lâmpadas de fogo e de labaredas» (Ct 8,6) — fogo que ardia interiormente no recolhimento, e chamas que resplandeciam exteriormente no exercício heróico de todas as virtudes.

Revelou a Senhora a Santa Brígida que jamais teve outro pensamento, deleite ou aspiração senão o agrado de Deus. Pondera Bernardino de Bustis que a Mãe de Deus não multiplicava simplesmente atos sucessivos de afeição, como soem fazer os santos nas suas vigílias; por singularíssimo privilégio da graça, amava atualmente a Deus através de um ato perpétuo e ininterrupto. Nem mesmo o repouso corporal do sono suspendia essa contemplação perfeitíssima, verificando-se nela a sentença bíblica: «Eu durmo, e o meu coração vigia» (Ct 5,2).

Ponto IIO apelo à caridade e a intercessão da Mãe do belo amor

Amando tão singularmente a Deus, nada mais deseja a santíssima Virgem senão que o Senhor seja amado por quantos a veneram. Foi o que ela declarou à Bem-Aventurada Ângela de Foligno ao comungar: «Minha filha, sê abençoada por meu Filho, e cuida em amá-lo com todas as tuas forças». E a Santa Brígida assegurou igualmente que o meio infalível de atrair a sua benevolência consiste em amar fervorosamente a Jesus.

Pergunta Novarino a razão pela qual a divina Mãe, à semelhança da Esposa dos Cânticos, exortava os anjos a noticiar ao Senhor a sua ardente paixão: «Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe anuncieis que desfaleço de amor» (Ct 5,8). Porventura ignorava o Criador a profundeza daquele afeto? Não, responde o mesmo doutor: a Virgem quis patentear a sua santa chaga aos homens para que, ferida de amor divino, com a mesma centelha nos ferisse e nos inflamasse.

Porque ardeu continuamente nas brasas da divina caridade, comunica e acende esse fogo sagrado em todos aqueles que se aproximam dela com terna devoção, o que levava Santa Catarina de Sena a chamá-la «guia e distribuidora das celestes labaredas da caridade». Se almejamos, por conseguinte, dissipar a nossa frieza espiritual, acudamos confiantes aos pés desta amorosa Mãe.

AFETOS E ORAÇÕES

Ó Maria, Rainha do formoso amor, vós que dentre todas as criaturas vos mostrais sobremaneira afável, sumamente estimada e sem igual ardente no afeto ao Senhor — como vos saudava São Francisco de Sales —, dignai-vos volver os olhos para este indigno servo. Vós que sempre ardestes em vivíssimas chamas de caridade para com Deus, concedei-me ao menos uma centelha desse bendito fogo que vos consumia. Rogastes a vosso divino Filho nas bodas de Caná em favor dos esposos a quem faltava o vinho material; e não haveis de interceder por nós, a quem tanta falta faz o amor sincero a Deus, a quem estamos infinitamente obrigados a amar? Dizei tão somente em nosso socorro perante o vosso Redentor: «Eles não têm amor»; e por vossa poderosa súplica alcançai-nos essa caridade perfeitíssima. Não vos pedimos outra riqueza temporal senão o amor sem reservas a Jesus. Por quanto amais a vosso divino Filho, atendei-nos e rogai por nós. Amém.

Tradução do projeto, feita do original italiano de Santo Afonso Maria de Ligório: Le glorie di Maria (1750), Parte seconda, Delle virtù di Maria Santissima, § 2: «Della carità di Maria verso Dio», pp. 593-604 da paginação do corpus. Ver o texto italiano.

Disposição dos dias segundo o P. Giacomo Maria Cristini, C.Ss.R. Tradução em revisão.